O poeta que quase morreu

Por Marcelo Coelho
FSP

Tranströmer recorre a uma espécie de anulação da subjetividade para deixar que as imagens apareçam

Meu hábito não é bem este, mas as pessoas em geral gostam de ler um pouco antes de dormir. Enquanto adormecia, o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido” pensava ainda estar atento às páginas do livro que levara para a cama.

Seus pensamentos, entretanto, já tinham adotado um curso particular: “Parecia que eu mesmo me transformara no assunto da obra: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco 1º e Carlos 5º”.

Nossa subjetividade, nosso “eu” nunca é uma coisa fixa. Acontece de virarmos outra coisa, de nos perdermos, de nos reencontrarmos. Proust, no começo do seu romance, fala do adormecimento.

O sueco Tomas Tranströmer, Prêmio Nobel de Literatura deste ano, prefere pegar a outra ponta do processo. O primeiro poema de seu livro de estreia, publicado em 1954, não fala do adormecimento, mas do momento em que despertamos. Estou longe de poder ler alguma coisa em sueco, mas uma vantagem da poesia de Tranströmer é que suas metáforas, suas imagens, sobrevivem magnificamente em tradução.

Nesse poema de seu primeiro livro, Tranströmer compara o ato de despertar a cair de paraquedas. Saltamos de nossos sonhos, diz ele, “para a zona verde da manhã”.

É como mergulhar numa floresta, no rumo “do imenso sistema das raízes” que estão debaixo da terra. Provavelmente, Tranströmer está lembrando aqui um outro poema, em que Rainer Maria Rilke imagina como seria o mundo se o víssemos com os olhos dos anjos.

Mas a sensação de um mundo “de cabeça para baixo” conhece muitas variações na obra de Tranströmer. Em “O Paraíso Inacabado”, poema que dá o título de uma antologia em inglês organizada e traduzida por Robert Bly, pode-se ler um exemplo do gênio do poeta para criar imagens sempre inteligíveis, mas sempre mágicas também.

“O lago é uma janela voltada para o interior da terra”, escreve Tranströmer, enquanto “toda pessoa é uma porta entreaberta/ conduzindo a um quarto onde há lugar para todos”. É a mesma sensação de possibilidade, de abertura que o poeta identifica no seu estado de consciência preferido, o que marca a passagem do sono para o dia desperto.

O acaso fez com que esse momento se cristalizasse numa situação concreta. Tranströmer quase morreu num acidente de carro e escreveu sobre isso no poema “Solidão”. “Bem neste lugar eu quase morri numa noite de fevereiro./Meu carro derrapou no gelo, andou de lado,/ na outra pista. Os carros que vinham/ -seus faróis- se aproximaram./…/ Os faróis brilharam sobre mim enquanto eu girava e girava/ o volante num medo translúcido que se movia como clara de ovo.”

Então, continua Tranströmer, “a terra firme apareceu: cascalho salvador/ ou uma rajada de vento miraculosa”. Ele fica no carro. “Tudo ficou quieto. Eu fiquei no banco preso ao cinto de segurança/ e vi alguém se deslocando pela neve e pelo vento/ para ver o que tinha restado de mim.”

É como se a comunicação, o contato humano, fossem afinal possíveis -desde que numa situação extrema, num momento de limite e de perigo. Comunicação entre o sonho e a vigília mas também comunicação entre pessoas, quando deixam de estar presas dentro de seu sonho, e de sua lucidez, de todos os dias.

Assim, num poema chamado “O Casal”, tudo começa quando alguém apaga a luz, e “o globo branco no teto/ brilha um instante e se dissolve, como uma pastilha/num copo de escuridão”. Logo em seguida, “as paredes do hotel levantam voo”, e todas as casas da cidade “ficam mais próximas nesta noite”.

Carros, tráfego, navios (Tranströmer vem de uma família de navegadores) e cartas aparecem com frequência em seus poemas. As mariposas brancas, numa noite de verão, parecem-lhe “pequenos telegramas pálidos que o mundo envia” (“Lamento”). Como todo poeta moderno, ainda que de forma mais imediata e “fácil”, Tranströmer recorre a uma espécie de anulação da subjetividade para deixar que as imagens apareçam, e para que as vozes do mundo, os sons do real, tomem corpo nos seus poemas.

“Incrível perceber”, diz ele em “Canções dos Pássaros de Manhã”, “como meu poema está crescendo/ enquanto eu mesmo me encolho”. Ele próprio poderia responder, com versos de outro poema (“Vermeer”): “Tudo o que está vazio volta seu rosto para nós/ e murmura:/não estou vazio; estou aberto”.

Eis um Prêmio Nobel muito bem-vindo.

Comentários

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  1. Jarbas Martins 12 de outubro de 2011 17:41

    Nada me deixou mais fascinado do que essas imagens fantásticas de Transtromer, colhidas com naturalidade do seu cotidiano. Isto para mim é o que define a Poesia.

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