O português no fim do mundo

Por Benjamin Moser
FSP

Tbilisi, 2011

Foto/Arquivo Pessoal

Machado de Assis, Darcy Ribeiro e Clarice Lispector chegaram à Geórgia na bagagem de Benjamin Moser

TBILISI É O FIM do mundo, o fim de um mundo. Para um país que se quer europeu, fica longe da Europa, a mais de três horas de Riga, capital da Letônia, por onde o voo passa -que, por sua vez, na Europa ocidental, também não é bem o coração do continente. Mas a Geórgia não é o fim do mundo por ficar longe de Paris ou estar em algum lugar entre a Chechênia e o Irã.

Cheguei à Geórgia para o batizado do filho de um casal. Convidaram amigos do mundo inteiro. Levei uma mala cheia de livros brasileiros porque meu amigo Carlos Alberto Asfora, que abriu em Tbilisi a primeira embaixada brasileira -duas salas de conferência no hotel Marriott, por enquanto- me dissera que estava sendo procurado por estudantes de português.

Vários deles aprenderam pela internet (não há curso do idioma na faculdade) e procuraram o Carlos Alberto para ter contato com um representante de uma língua que, até então, só existia na teoria.

Não tinham nenhuma possibilidade de obter livros do Brasil, e, quando uma delas me escreveu, resolvi levar o que podia para ajudá-la. Chegaram então a Tbilisi Machado de Assis, José de Alencar e Darcy Ribeiro, além, é claro, de “minha” Clarice Lispector, que uma estudante pretendia traduzir: não pude resistir à possibilidade de ver Clarice em georgiano.

Estou encabeçando um projeto de retradução de Clarice para o inglês -sofre há anos de traduções ruins- e, portanto, me envolvendo num debate sobre a falta de literatura traduzida no mundo anglófono. É um debate meio abstrato, baseado na ideia de que é “bom” ler livros traduzidos, embora sem que tenha ficado claro por quê: é mesmo melhor ler um livro sueco ou chileno que um livro americano?

Mas a Geórgia é um lugar excelente para entender a importância da tradução. Após a queda da União Soviética, tem-se vivido uma mania de línguas estrangeiras. Com a aumento dos problemas políticos com a Rússia, isso veio a significar: línguas que não são o russo.

Os georgianos eram famosos pela facilidade com o russo. A língua georgiana é antiquíssima, com grande tradição poética, mas não é bem literária: o que se pode ler em georgiano não é nem 5% do que se pode ler em russo (“Temos hoje quatro ou cinco escritores”, me disse um amigo). Nas casas de Tbilisi, como nas de muitas cidades da ex-URSS, os livros nas estantes são os clássicos russos -Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev-, que são também os clássicos georgianos, ucranianos ou uzbeques.

Esse mundo bilíngue é difícil de imaginar para quem tem a sorte de falar uma língua em que tudo, ou quase tudo, está disponível. O georgiano vive como um francês ou um polonês da Idade Média. Falava francês ou polonês na rua -mas a cultura com C maiúsculo acontecia em latim.

Agora, o russo saiu de moda. As novas gerações estudam inglês, francês, alemão -até português. É fácil entender. Mas não muda o fato de que, esquecendo o russo, ficarão ainda mais no fim do mundo. Mesmo trabalhando muito, precisariam de um século para ter em georgiano o que há em russo.

Vão mesmo aprender inglês ou alemão com a mesma naturalidade com que falavam russo? E, se conseguirem, onde vão encontrar os livros? O livro em inglês está caríssimo; a existência do livro em português depende da chegada providencial de um turista com livros brasileiros em excesso.

Nos Estados Unidos, podemos ter um debate abstrato sobre essa questão. Mas é um debate de luxo. Mesmo se, como no caso de Clarice, deixa a desejar, o fato é que, graças a gerações de tradutores mal pagos e desrespeitados, em inglês pode-se ler tudo. A mais longínqua província anglófona nunca é um fim de mundo. Porque ficar no fim do mundo não é uma função de geografia, mas de poder se fazer entender.

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