O povo e a qualidade da música

Li com interesse a entrevista do cantor Leno, publicada na edição 5 de Palumbo. Considero-o um bom cantor, o repertório que ele gravou junto com Lílian embalou minha adolescência, faz parte de minha memória emocional. A chamada “Jovem guarda” (Roberto Carlos & contemporâneos) abrigou gente talentosa, às vezes muito talentosa – Erasmo Carlos teve sensibilidade para regravar, no auge do movimento, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, uma valsa de Lamartine Babo! -, pouco valorizada pela crítica na época em nome de excessos nacionalistas, tratada até como traidora da pátria. Corrigir essa injustiça é uma necessidade. A entrevista de Leno contém ricas informações e bons comentários. Fiquei perturbado com um trecho sobre a música popular que toca hoje em dia no Brasil:
“Então, um povo com pouca educação vai querer música de pouca qualidade”.

Simpatizo muito com a consciência de que o povo tem pouca educação – musical e geral. Embora ele não o declare explicitamente, dá para entender que Leno não culpabiliza o povo por sua pouca educação, até denuncia responsabilidades governamentais nesse campo. Lamento, todavia, a suposição do entrevistado sobre o poder decisório do querer do povo em relação à qualidade da música que ele consome. Que eu saiba, o povo não dirige gravadoras, emissoras de rádio e tv, órgãos governamentais que financiam projetos musicais. Que eu saiba, o povo compra produtos prontos, tem tanto poder de escolha na fase de produção quanto o tem no campo de modelos de roupas: zero.

Nesse aspecto, sinto falta de maior clareza de Leno sobre o que se costuma chamar “música popular” – e, de quebra, sobre popular e povo.

A rubrica “música popular” abriga produtos diferenciados, de Baden Powell a Mc Serginho e Lacraia. Considero-os igualmente dignos de remuneração e tratamento humano decentes. No nível estritamente sonoro, são diferentes, sim, evidenciam saberes específicos: Baden conhece e executa primorosamente escalas e harmonias ausentes nas canções de Mc Serginho e Lacraia; e Mc Serginho e Lacraia praticam performances que, aparentemente, Baden nunca quis aprender nem exibir, provavelmente considerava alheias à música. Todos eles chegam ao mercado como… mercadorias!

Tanto no caso do violonista quando no caso da dupla, JAMAIS o respeitável público comprador de cds ou espectador de tv foi consultado sobre a vantagem de gravarem ou não gravarem. A responsabilidade pela decisão SEMPRE foi de funcionários com poder decisório naqueles órgãos – executivos ou similares. Eles podem até falar que gravam o que o povo quer (ou, numa gravadora ou num selo voltado para a elite, o que quem estudou música quer) mas a decisão é sempre deles, executivos e assemelhados.

Executivos e semelhantes são altos funcionários, com participação nos lucros gerados pelos produtos que geram. Trata-se de uma atividade digna e respeitável, é claro. Agora: não tem sentido culpar os outros pela eventual porcaria (em termos estritamente musicais, às vezes embaladas luxuosamente por estúdios de não sei quantos canais) que ocasionalmente produzem. Suponho que os executivos da Verve ganham MUITO dinheiro gravando jazz clássico. Suponho que Aloísio de Oliveira não tenha passado fome produzindo a melhor bossa-nova existente até hoje. Suponho que os produtores de insossas duplas “sertanejas” e axé pasteurizado ganhem um bom dinheiro, e não vejo nada de anormal nisso – estamos no capitalismo, eles geram mercadorias lucrativas. Mas a responsabilidade pelo que fazem é deles, não dos consumidores, que são educados pelas gravadoras e demais participantes do sistema musical de indústria para comprarem aquilo!

Daí, voltamos para a educação. Sim, o governo tem a obrigação de garantir escolas decentes para todos. Mas educação não é somente escola. Quando a Rede Globo produz o seriado “Os Maias”, ganha muito dinheiro mas desempenha um papel educativo também: o livro de Eça de Queiroz virou best-seller entre nós, na época.

Divido com Leno a preocupação quanto à educação do povo. Mas o mesmo povo gerou “Nhapopé”, tema que Villa-Lobos, inteligentemente, recolheu e harmonizou. O mesmo povo preservou “Penas do tiê”, que Fagner diz ter conhecido como tema folclórico, embora a música possuísse registro de composição (esquecidíssimo) por Heckel Tavares.

Convido Leno – ele mesmo produtor de música – a contribuir para a educação do povo através de suas gravações, tanto dos discos pessoais quanto dos outros que ele coordena. Até penso que, divulgando composições com Raul Seixas, ele já o faz. Raul é muito melhor que as duplas “sertanejas” insossas e o axé pasteurizado que tocam hoje em dia.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis + 8 =

ao topo