O povo pensa

Plinio e demais amigos e amigas:

Sair da visão romântica de povo é tarefa secular entre nós.
Sylvio Romero começou a fazer isso no século XIX: seu povo é luso-afro-indígena. Os argumentos racistas (raças superiores e idéias semelhantes) não o impediram de assumir que a identidade real do Brasil era aquela, recuperando cantos e contos populares que, depois, Câmara Cascudo editaria.

Junto com ele, Machado, claro: que dizer do Brasil que as “Memórias póstumas de Brás Cubas” nos revelam? Nesse grande romance, a história é uma mentira que começa com o defunto narrador e as alegorias clássicas carnavalizadas (grifos virando pulgas) e se prolonga no sobrenome que oscila entre o fundador da cidade de Santos e o fabricante de banais barris.
Depois deles, Cruz e Souza: a linda melodia dos versos nos diz o tempo todo que um preto pode fazer a poética dos brancos ir além do que já é. Nunca foi perdoado por isso – e ainda tinha a ousadia de seduzir a mulherada ao redor, escrever bem e ser tesudo!
Euclides da Cunha retoma a charada de Romero: os mestiços desengonçados são gigantescos na luta de Canudos e na sobrevivência cotidiana dos sertões.
Lima Barreto desromantiza tragicamente o povo: os pobres passam fome, são humilhados, tentar retomar sua face romântica é se condenar à morte – triste fim de Policarpo.
E tem Monteiro Lobato: adeus aos índios perfeitos, diante de caipiras reais que não são daquele jeito por motivo racial e podem mudar de rumo se tiverem saúde e capital.
Do Modernismo pra cá, as coisas até parecem mais evidentes: povo que devora e se devora – nesse aspecto, Macunaíma é uma versão aperfeiçoada de Oswald de Andrade.
Penso que o povo não é um dado. Pode chegar ao nível de vir a ser. Queremos que seja?
Somos também elite, gosto de nós mas temos companheiros de elite que são uns horrores.
Retornando ao Modernismo: em Mário de Andrade e em nosso Câmara Cascudo, o povo pensa. Aquelas danças e aqueles cantos são saberes – gosto muito da noção de Literatura Oral que nosso Cascudo desenvolveu. Temos analfabetos ou semi-analfabetos de gênio, com bibliotecas na cabeça – poesia e música populares possuem belos exemplos disso: uma letra de Gilberto Gil falava de analfomegabetismo (alfa/ômega, o todo) somatopsicopneumático (pneuma, alma).
O povo real é muito desprezado pelas elites babacas por ser feio e mal-cheiroso. Nem sempre (ou quase nunca) as elites babacas são belas e bem-cheirosas – já prestaram atenção nas caras do casal Maluf? Mas existe beleza no mundo, às vezes vindas de um Patativa do Assaré ou um Nelson Cavaquinho, de uma Clementina de Jesus ou de uma Lia de Itamaracá.
Acho legal termos clareza de que, para o mundo melhorar, contamos com pouquíssima coisa mais ou menos pronta. A maior parte do vir a ser depende de mão na massa.
Temos tesão pra isso? Sem tesão, vira burocracia.
Abraços afetuosos:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 4 de agosto de 2010 9:25

    Raimundo:

    Obrigado pelas palavras de incentivo. Vc deve ter notado que esqueci de arrolar o ótimo Manoel Bomfim, contemporâneo de Lima Barreto, entre os anti-racistas, que exigia do regime republicano uma Educação decente para todos.
    Abraços:

  2. Raimundo Paulino 4 de agosto de 2010 8:45

    Parabéns prof. Marcos, pela excelente reflexão histórica.

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