O prazer da fruição espontânea

Por João Marcos Coelho
O Estado de S.Paulo

Em novo livro, o pianista e musicólogo americano Charles Rosen destrói a noção de que entender uma composição clássica de concerto exige muito conhecimento. Basta ‘simplesmente gostar dela quando você a ouve’, garante

Gosto, mas não entendo. Essa é uma resposta recorrente quando pergunto a alguém se curte música clássica. O sujeito ergue de imediato uma muralha preconceituosa que, no entanto, não foi criada nem é cultivada por ele. O gueto da música clássica perversamente isola qualquer recém-chegado à sala de concertos, ergue uma hostil floresta de rituais esotéricos e palavras estrangeiras indigestas. E reforça a impressão de que “explicadores” e muita leitura/pesquisa/cursos são necessários para se “entender um pouquinho que seja” a chamada “grande música de concerto”.

O pianista norte-americano Charles Rosen já estreou mundialmente obras de Igor Stravinski, Elliott Carter e Pierre Boulez a pedido dos próprios compositores. Escreveu de 1970 para cá muitos livros, mas ao menos três seminais para a compreensão da música: O Estilo Clássico, Formas – Sonata e A Geração Romântica. E agora, do alto de seus 83 anos, tem uma opinião firme sobre a questão. A tal ponto que escreveu o recém-lançado livro Music and Sentiment só para enterrar esta verdadeira propaganda enganosa que cerca a música clássica. “Entender a música não é resultado da memorização de um código esotérico. Vários aspectos da música, é claro, beneficiam-se de um longo estudo, mas capturar o seu significado emocional ou dramático ou é imediato, ou requer apenas que a gente se familiarize com ela. Entender a música no sentido mais básico significa simplesmente gostar dela quando você a ouve. É verdade que a música não-familiar precisa ser ouvida algumas vezes e de fato requer certa dose de boa vontade para arriscar-se em novas sensações.”

Rosen extermina o preconceito e nos convida a uma maravilhosa viagem pela música entre os séculos 18 e 20. “É raro que seja necessário um conhecimento especializado para a fruição espontânea, que é a razão da existência da música.” Junto o prefácio à conclusão, onde ele cita o poeta italiano Giacomo Leopardi afirmando, nos anos 1820, que “o princípio da música e de seus efeitos não pertence à teoria do belo, mas é assunto de cheiros, gostos e cores, e assim por diante… por isso não surpreende que animais tenham tanto prazer quando ouvem música”. Essa identificação da arte da música com a arte de cozinhar e a alquimia dos perfumes, diz Rosen, “implica que a música atende aos mais básicos e menos intelectuais instintos humanos”.

Técnica. Portanto, gostamos, mas não sabemos explicar o porquê. Nessa altura, Rosen nos convida para o curso de sete palestras feitas em 2002 na Universidade de Indiana, agora transformado neste livro breve e extraordinário: “O conhecimento especializado pode nos recompensar e permitir-nos compreender por que temos prazer em ouvir o que gostamos mais; pode também nos esclarecer sobre como a música age sobre nós para proporcionar prazer.”

Numa linguagem precisa e muitas vezes técnica, o pianista recorre a exemplos musicais para identificar as radicais mudanças nos métodos de representação durante dois séculos. Faz, assim, uma história do estilo dos séculos 18 ao 20. Mas não pense que a profusão de exemplos musicais ou o jargão técnico impedem a leitura. Ao contrário, mesmo quem não sabe ler música entende o que ele diz e fica com vontade de recorrer a gravações das obras para sacar suas tiradas argutas, rigorosas e que iluminam de modo inédito peças tão batidas como um noturno de Chopin, a Kreisleriana de Schumann, sonatas para piano de Beethoven, os quartetos de cordas e sinfonias de Haydn e Mozart, a Salomé de Strauss, a Tosca de Puccini ou o Wozzeck de Berg.

Examinar como o sentimento é representado é mais importante do que colocar um crachá em seu significado, diz Rosen. “Não vou colocar nomes nos sentimentos”, avisa já no prólogo. “Leitores que esperam encontrar o que se supõe que devam sentir ao ouvir uma determinada peça ficarão desapontados. Mas felizmente isso é quase sempre óbvio: há músicas tristes e outras alegres.” A música é muito mais precisa nesses assuntos do que a linguagem, diz citando Mendelssohn, autor da frase. Não se pode pedir, em termos puramente musicais, a alguém que se encontre conosco amanhã às 16 horas em um local determinado.

O filósofo grego Pitágoras, por exemplo, quando quis acalmar um grupo de amigos exaltados demais, pediu aos músicos que tocassem algo austero – e a música os tranquilizou mesmo. “A música tem o poder de ilustrar sentimentos e despertar emoções em quem a ouve.” Entretanto, vivenciar um sentimento na vida é diferente de vivenciar o mesmo sentimento representado por uma obra musical, anota Rosen: “Nossa admiração pela arte da representação provoca um efeito de distanciamento.” E dá um exemplo definitivo: “Ao ouvir a Lacrymosa, do Réquiem de Verdi, gostamos de nossa dor.”

O núcleo de Music and Sentiment explica de modo convincente por que Wagner consegue sustentar por 45 minutos a representação da paixão erótica no Tristão, por exemplo, enquanto Mozart não consegue prolongar por mais do que alguns minutos o dueto de Don Giovanni e Zerlina. Não é deficiência de Mozart: manter a alta voltagem por mais de meia hora estava além das técnicas musicais disponíveis, diz Rosen. “O erotismo de Mozart é bem diferente e menos devasso que o de Wagner.”

A música é essencialmente um pobre sistema de comunicação, “precisamente porque tem um vocabulário bastante fraco e mal definido, apesar de possuir uma sintaxe e gramática muito ricas. É evidente a fraqueza dos elementos individuais da música como portadores de significado, sua ambiguidade e imprecisão: os motivos, as harmonias, podem ser facilmente mal interpretadas quando fora de contexto”. Naufragam quase sempre as investigações sobre música e sentimento porque subestimam a ambiguidade do vocabulário musical e exageram sua precisão, argumenta Rosen. Afinal, qualquer um razoavelmente familiarizado com a música sabe que uma peça é triste, grave, majestática, jocosa, apaixonada, lírica, atormentada, tranquila, ameaçadora. No cinema, sabemos perfeitamente quando a música descreve situações de dor ou alegria, de amor ou de esperança.

Rosen foge dos lugares-comuns. Considera tolice discutir se Beethoven foi clássico ou romântico. Ele foi clássico na medida em que se apegou à tradição ferrenhamente; e romântico ao injetar uma altíssima voltagem dramática em suas obras. “A originalidade dos compositores dos anos 1830 é que, ao delinear um sentimento, eles aplicam uma nova concepção de intensidade que altera a própria natureza dos sentimentos.” No caso do piano, os instrumentos do século 18 não permitiam violentos contrastes dinâmicos possíveis a partir de 1830 por causa de aperfeiçoamentos técnicos.

No século 20, o ouvinte já não sente o grau preciso de tensão harmônica, porque o referencial tonal está se desfazendo. O timbre o substitui como liga na fixação do significado musical. “As consequências para a representação do sentimento foram sérias”, alerta Rosen. Desde a Salomé de Richard Strauss, em 1905, “a representação tradicional começa a ser substituída pela ação direta nos nervos do leitor ou ouvinte”. “Depois de extravagâncias de poder afetivo da música como este, ficou difícil representar uma simples emoção como a inocente e descomplicada felicidade.”

Rosen avança pelo século 20 até atingir a cena contemporânea. “Olhando-se a segunda metade do século 20 ainda parece caótica devido a todas as ideologias competindo entre si: classicismo neotonal, romantismo neotonal, estilo dodecafônico ortodoxo, serialismo de Darmstadt, minimalismo, neoclassicismo, e assim por diante.” Não se arrisca a um juízo mais objetivo, mas aposta que “em uma ou duas décadas teremos uma ideia de que partes destes dogmatismos permanecerão sedutoras e coerentes”. “A representação do sentimento não é igualmente eficiente em todas essas correntes rivais, mas está presente em todas.”

A última é talvez a página mais surpreendente do livro. Rosen adverte que “precisamos ser humildes para lembrarmos a nós mesmos que o poder da música em nossas sensibilidades depende muito menos da composição do que da execução”. A bola está com os intérpretes, e não com os criadores. Lembra a justeza da frase de Leopardi, segundo a qual uma bela melodia mal cantada proporciona pouco prazer, e uma lamentável melodia interpretada com perfeição provoca enorme prazer. Trocando em miúdos: não adianta nada programar música da melhor qualidade, se ela é mal tocada. As duas frases finais de Music and Sentiment precisam ser levadas à risca pelos músicos atuais: “Quanto mais profunda for nossa experiência da música, mais esperaremos dos intérpretes, que devem criar mais do que apenas um som agradável. Devem comover-nos iluminando e destacando o que é mais significativo na partitura musical.”

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

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