O prazer do torcedor

Por Eduardo Galeano

O escritor uruguaio Paco Espínola não se interessava por futebol. Mas uma tarde, no verão de 1960, procurando o que escutar no rádio, Paco pescou por casualidade a transmissão de uma partida. Era o clássico local. O Peñarol levou uma goleada – 4 a 0 – do Nacional.

Quando caiu a noite, Paco estava tão triste que decidiu jantar sozinho, para não amargurar a vida de ninguém. De onde vinha tanta tristeza? Ele já estava quase acreditando que era uma tristeza sem razão, que era só a simples pena de ser mortal neste mundo, quando de repente, percebeu que estava triste porque o Peñarol tinha perdido. Ele era torcedor do Peñarol e não sabia.
Quantos uruguaios estavam tristes como ele? E quantos, ao contrário, subiam pelas paredes de felicidade? Paco viveu uma revelação tardia. Normalmente, os uruguaios pertencemos ao Nacional ou ao Peñarol desde o dia em que nascemos. A pessoa diz, por exemplo, “Eu sou do Nacional”. Assim é desde princípios do século. Os cronistas daqueles tempos contam que, nos bordéis de Montevidéu, as profissionais do Amor atraíam clientes sentando-se na porta vestindo somente as camisas do Nacional ou do Peñarol.

Para o torcedor fanático, o prazer não está na vitória do próprio time, mas na derrota do outro. Em 1993, um jornal de Montevidéu entrevistou alguns rapazes que, durante a semana, ganhavam a vida carregando lenha, e nos domingos aproveitavam a vida gritando pelo Nacional nos estádios. Um deles confessou: “Para mim, ver uma camisa do Peñarol dá nojo. Quero que perca sempre, mesmo que jogue contra estrangeiros” (…)

Creio que foi Oswaldo Soriano quem me contou a história da morte de um torcedor do Boca Juniors, em Buenos Aires. Aquele torcedor havia passado a vida inteira odiando o River Plate, como era sua obrigação, mas no leito de agonia pediu que o envolvessem na bandeira inimiga. E assim pôde comemorar, num último suspiro:

Morre um deles (…)

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