O PRES’ÉPICO

Por Carito
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A árvore de Natal lá de casa era repleta de cartões de Natal pendurados junto com as bolas, estrelas e outros belos adereços natalinos. Meus pais tinham muitos amigos e cartões não paravam de chegar. Minha mãe tinha várias opções para enfeitar a árvore, e a cada ano fazia uma árvore de Natal diferente, personalizada. Em um ano podia puxar para o dourado, noutro ano a árvore era mais prateada, noutro era o vermelho que predominava. Podia ter bolas todas do mesmo tamanho em um Natal, ou de tamanhos diferentes em outro. Minha mãe podia criar uma unidade estética na árvore seguindo um determinado padrão, ou a unidade era criada noutro momento através de uma mistura sempre muito bem equilibrada.

O presépio era sempre o mesmo e não podia ser diferente, pois não havia um presépio como aquele em lugar nenhum – com tantas ovelhas e carneiros, e pastores, e boi, e vaca, e anjos, e, claro, o menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos… Ah! Os três Reis Magos vinham caminhando sobre uma trilha de pedrinhas que trazíamos da praia de Pirangi. E cada dia nós os movimentávamos um pouquinho sobre o caminho de pedrinhas. E eles só chegavam no dia 06 de janeiro (Dia de Santos Reis)… Chegavam a uma espécie de gruta que minha mãe arquitetava com muita criatividade. Dentro da gruta ficava a manjedoura. E o menino Jesus somente era colocado na manjedoura no dia 25 de dezembro, quando ele nascia. E a manjedoura era forrada com capim.

Geralmente eu e meu irmão Mário Ivo ajudávamos a montar o presépio, embaixo da escada, onde havia um espaço amplo de jardim. Assim aproveitávamos a areia natural. E ali minha mãe bolava muitas idéias legais. Simulava, por exemplo, pedras e montanhas com papel pintado. O laguinho era feito com um espelho que refletia os carneirinhos bebendo sua água. A vegetação era feita com pó de madeira pintado de verde. Ali havia arquitetura, cenografia, instalação, cinema, tantas linguagens… E tudo era contextualizado dentro, digamos, de uma geografia histórica.

Minha mãe continua uma verdadeira artista, e muito religiosa. E o presépio nos últimos Natais tem sido montado em uma mesa na sala do apartamento de minha mãe. Não temos mais aquela casa. Aquela grande casa hoje é uma clínica médica. Não temos mais o laguinho de espelho. Não temos mais meu pai – pelo menos fisicamente. Olho para esse novo pequeno presépio e vejo aquele. E vejo meu pai, sem precisar olhar para nenhum lugar, por todos os cantos.

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