O presidente Obama na encruzilhada racial

Por J. Celso de Castro Alves
NA FSP

Obama aparenta conhecer a parcial consciência histórica de uma parcela dos brancos americanos no que se refere a seus privilégios econômicos

Não são recentes as tentativas do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de silenciar a questão racial no espaço público em que os debates políticos determinam sucessos eleitorais e produzem reformas sociais. O silenciamento contribui para que o racismo antinegro perdure como uma ideologia cujo funcionamento depende da sua própria invisibilidade no dia a dia dos norte-americanos. Os atuais dados econômicos, principalmente o desemprego entre os afro-americanos, que oficialmente atinge 16,7%, quebram um pouco o silêncio.

Eles contradizem a crença, que atingiu seu apogeu após a eleição do presidente Obama, de que, no âmbito individual, se pode remover a barreira racial e obter um sucesso socioeconômico de menor envergadura, mas ainda compatível ao do atual ocupante da Casa Branca.

É nesse contexto que devemos pensar as palavras do presidente americano durante a última semana de setembro, quando, em jantar com congressistas negros (o “Congressional Black Caucus”) do Partido Democrata, disse esperar “que todos vocês marchem comigo”.

O presidente aconselhou os congressistas a trocar de sapato: “tirem as suas sapatilhas de andar em casa e calcem sapatos de marchar”. Obama exortou-os: “parem de reclamar, parem de resmungar” e “parem de chorar.” Na atual conjuntura eleitoral, tais palavras têm como fim maior a mobilização da base política que possibilitou a vitória do presidente nas eleições de 2008.

Com a astúcia típica dos grandes atores do atual teatro político, o presidente convocou os negros congressistas a exercer um papel de vanguarda, como se a negritude deles por si só pudesse pressionar a população branca democrata a restabelecer a campanha de outrora.

O presidente Obama aparenta conhecer o sentimento de culpa e a parcial consciência histórica de uma parcela dos brancos americanos no que se refere aos seus privilégios econômicos em relação à maioria empobrecida de negros.

A tática do presidente num país em que faltam alternativas políticas para o eleitorado mais de esquerda é simples: se os negros me apoiam para uma reeleição apesar do estado econômico do país, como os brancos liberais vão questionar a minha candidatura?

A advertência presidencial ocorreu poucos dias após a execução de Troy Davis, que enfureceu a população negra, certa de sua inocência, em meio a uma crescente crise dentro da burocracia estatal -como nos serviços de correio-, que, desde os anos 50, emprega uma parcela alta de afro-americanos.

O presidente sabe como um grupo de negros, se visíveis politicamente, pode abalar ainda mais a sua aura profética; afinal de contas, sua eleição prometia salvar o país-império do seus inimigos internos e externos, como a pobreza, o racismo ou os chamados terroristas.

Se críticos ao presidente e ao seu jogo político em favor dos mais abastados, os negros fatalmente trarão à tona o racismo como grande organizador social e ameaçarão uma das poucas vitórias políticas do presidente: o silenciamento da questão racial e a contínua desmobilização dos afro-americanos, excluídos das várias tentativas de cooptação política das últimas décadas, como a ação afirmativa.

Cabe, portanto, aos próprios afro-americanos, empurrados além das margens do que definimos como classe trabalhadora, resgatar uma visão mais de classe do atual jogo político, sem esquecer que o racismo uma vez escondido não deixa de existir -como bem sabemos no Brasil. Assim, criarão espaço para a formação de uma nova opção político-partidária nos EUA.

J. CELSO DE CASTRO ALVES é doutor em história pela Universidade Yale e professor de estudos raciais e história no Amherst College (EUA).

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