O primeiro best-seller

Por Marcelo Coelho
FSP

O prazer de castigar e o de não entender o que nem a vítima entende está na origem de todo moralismo

ENGANA-SE QUEM pensar que os livros de autoajuda começaram a ser publicados nos últimos 20 anos.

O primeiro best-seller de que se tem notícia foi editado em 1494 e não deixa de ser um exemplo do gênero.

Chama-se “A Nau dos Insensatos”, e seu autor, Sebastian Brant, nasceu em 1457. Quando morreu, em 1521, era “o autor mais renomado de toda a Europa”, segundo a orelha da tradução brasileira de seu livro, que acaba de sair pela editora Octavo.

O original, escrito em alemão, foi rapidamente traduzido para várias línguas ano após ano enquanto Brant ainda estava vivo. Até hoje, “A Nau dos Insensatos”, ou “Stultifera Navis” (tradução latina em 1497), faz de “Der Narrenschiff”, por intermédio do romance “Ship of Fools”, de Katherine Anne Porter (1890-1980), algo como um clássico desconhecido, uma referência que todo mundo deveria ter lido, mas ninguém leu.

Ainda bem. Os mais de cem capítulos curtos de “A Nau dos Insensatos” dedicam-se a condenar, com rigores que fariam inveja a qualquer aiatolá, os pecados do mundo. Alguns exemplos:

“Parvo é quem não crê na Escritura, que trata da salvação, e pensa que pode viver como se não existisse Deus nem Inferno”;

“A maior tolice do mundo é o dinheiro ser glorificado mais do que a sabedoria”;

“Quase chego a considerar totalmente néscios os que encontram alegria e prazer na dança, girando furiosamente ao redor de si como loucos, cansando e sujando os pés na poeira”;

“Não considero muito sábio aquele que emprega ao máximo seus sentidos e esforços para explorar todas as cidades e terras”;

“Há ainda muitas pessoas sem préstimo, metidas em peles de néscio e que se comportam de modo intratável, se aferrando a isso; elas estão amarradas ao rabo do demônio e não se querem desvencilhar (…) Entre elas estão os sarracenos, os turcos, os pagãos, e junto a eles ainda coloco a escola de hereges.”

Como se vê, o livro inteiro pode constar como um tratado de intolerância e moralismo. O sucesso que obteve, na transição entre o século 15 e o 16, dá mostras do enorme trabalho que se teve, a partir de Montaigne, em desmontar essa máquina de terrores e preconceitos.

É curioso que, nesta obra de edificação católica, encontrem-se tanto os temas que anos mais tarde criariam as bases da ética capitalista (a austeridade, o culto ao trabalho) quanto os temas que embasariam a crítica dos católicos progressistas ao capitalismo (“é tolo acumular riquezas em vez de sabedoria”).

Estão aí, numa radiografia arcaica, as contradições do Ocidente. A condenação ao prazer, ao lado da condenação à riqueza, teria de explodir -uma vez que, renunciando ao prazer, o indivíduo enriquece.

Explodiram em catolicismo e protestantismo, poucas décadas depois da publicação de “A Nau dos Insensatos”. O moralismo que dá força ao livro, entretanto, é mais forte do que as duas tendências teológicas juntas.

Era ainda aterrorizante, por exemplo, há menos de um século, quando George Orwell (1903-1950) estava internado num colégio em que, de repente, os professores resolveram iniciar uma cruzada contra a masturbação.

Ele conta o que aconteceu num dos ensaios de “Como Morrem os Pobres”, que acaba de sair pela editora Companhia das Letras.

Sem entender nada do que se passava, dada sua ignorância dos prazeres solitários, ele foi interpelado pelo diretor da escola.

Seguiram-se sessões de castigo físico, que vitimaram especialmente um menino, culpado de ter olheiras em excesso, e que mal entendia o motivo pelo qual estava sendo castigado.

O prazer de castigar, o prazer de não entender o que nem a vítima entende, está sem dúvida na origem de todo moralismo.

“A Nau dos Insensatos”, cuja leitura é de interesse para historiadores e apreciadores das artes gráficas (pois vem acompanhada das gravuras, muitas das quais feitas por Dürer, da edição original), é um dos textos fundamentais da cultura ocidental.

Felizmente, a cultura ocidental se empenhou em se livrar do obscurantismo dessas páginas. Caso contrário, seríamos fundamentalistas (sem ser muçulmanos) até hoje.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo