O PROCESSO CRIATIVO DE O MISTÉRIO DO VERDE NASCE – Parte 1

O material que o escritor utiliza para criar é a própria vida. O que ele vê, sente e experimenta pode, em algum momento, virar história. Acredito que as minhas surgem a partir de uma emoção: pode ser ternura, alegria, surpresa, mágoa, saudade, raiva, revolta… já escrevi a partir de todos esses sentimentos.

Preciso estar empolgada ou incomodada com o tema sobre o qual escreverei, do contrário nada acontece. Já prometi escrever textos e não consegui porque a história não chegava. Eu me preparava, sentava diante do notebook, mas nada surgia.

Os dedos prontos, sem que o cérebro desenrolasse o novelo. Não havia um novelo. Nem um milímetro de linha para tecer. Não havia emoção e a razão nunca foi suficiente. Tudo o que já escrevi de relevante nasceu de um impulso criador gerado pela emoção.

Mas, percebo uma coisa, à medida que escrevo, as histórias se aprontam digamos, para sair de casa, e eu meio que as visto para o leitor, coloco adereços, perfumo-as, se for o caso de algo romântico, ou coloco-lhes bandeiras (ou até mesmo espadas) nas mãos, se o texto for um manifesto, por exemplo.

O Mistério do Verde Nasce foi uma paixão desde o primeiro instante. Lembro que ela se iniciou no momento em que vi o túmulo de Emma Campbell, a inglesa enterrada no alto da colina, por trás da casa-grande do engenho Verde Nasce. A lápide com inscrições em inglês, o enigma sobre quem ela foi, isso me seduziu de uma forma que mal consigo descrever.

A paixão continuou por cada página escrita e reescrita. Foram meses de madrugadas caminhando pelo belíssimo vale do Ceará-Mirim no começo do século XX, ou viajando imaginariamente para a Inglaterra durante a revolução industrial.

O Mistério do Verde Nasce: Afetos

O longo tempo na companhia dos personagens os tornaram tão queridos quanto amigos. E Ceará-Mirim, que eu só sabia ter sido o lugar onde minha avó passou a infância, virou um local de afeto. A cidade do RN querida do coração.

Um poema de Garcia Lorca (Veja “Dez jeitos de amar Federico García Lorca“) me remete a esse período: 

Dejaría en este libro

toda mi alma.

Este libro que ha visto

conmigo los paisajes

y vivido horas santas.

¡Qué pena de los libros

que nos llenan las manos

de rosas y de estrellas

y lentamente pasan!

¡Qué tristeza tan honda

es mirar los retablos

de dolores y penas

que un corazón levanta!

Ver pasar los espectros

de vidas que se borran,

ver al hombre desnudo

en Pegaso sin alas,

ver la vida y la muerte,

la síntesis del mundo,

que en espacios profundos

se miran y se abrazan.

Sinto saudades desse tempo, embora não deseje que ele volte. O livro me exauriu. Muita pesquisa, reescrita, dúvidas… precisava terminá-lo. Minha insegurança não era apenas relativa ao livro, mas à minha capacidade como escritora. Ainda estava tateando em busca dessa identidade e isso afetava o que eu escrevia. Não chegou a me bloquear porque o prazer de escrever sempre foi maior.

Produzir tem esse status para mim: é convocação emocional, mas é também uma atividade lúdica, prazerosa. Então, enfrentei a angústia, que me acusava: “você não sabe fazer isso direito”. (Escrever isso, após vivenciar a boa aceitação do livro, me traz a impressão de que é preciso o reconhecimento do leitor para que o escritor se autorize também).

A pesquisa

“à medida que vou escrevendo, as histórias vão se aprontando digamos, para sair de casa, e eu meio que as visto para o leitor, coloco os adereços, perfumo-as, se for o caso de algo romântico, ou coloco-lhes bandeiras”

Sobre a pesquisa, imaginem aí o desafio: ambientar uma história na zona rural de uma cidadezinha do RN e na região costeira inglesa sobre a qual eu não possuía qualquer familiaridade. Retratar um enredo no final do século XIX e começo do século XX, tendo nascido em 1973.

Conversando com Manoel Onofre Júnior sobre isso, ele me apontou a ousadia: começar com romances, enquanto a maioria inicia com os contos. Respondi que foi a mais pura ingenuidade que me fez empreender a aventura, rs.

A verossimilhança era uma preocupação constante: precisava parecer real. Eu já havia lido tudo de Jane Austen na adolescência. No período reli Persuasão e as obras mais conhecidas das irmãs Brontë: O morro dos ventos uivantes e Jane Eyre, o que me ajudou a encontrar o tom vitoriano que buscava nos valores, modos e falas dos personagens ingleses.

Terminada essa parte, procurei pelos escritores ceará-mirinenses que viveram à época. Encontrei Madalena Antunes e Nilo Pereira, que contribuíram para dar o tom da narrativa dos personagens locais.

Fiz muita pesquisa para tentar acompanhar as pegadas de Emma, na Inglaterra. O censo inglês acompanhou os passos da família dela por décadas, assim foi possível descobrir nomes completos dos pais, filhos, endereços, profissões e até mesmo uma curiosidade desconhecida da maioria das pessoas: Emma era viúva quando se casou com Marcelo Barroca.

Garrafadas

“O livro tem cheiro de amor, cor de poesia e gosto de saudade.”, segundo a Amazon (R$35,00)

A pesquisa sobre as garrafadas foi a mais prazerosa. José Rufino, avô de Maria era um artesão dessas beberagens e fui em busca de entender como era o processo de fabricação aqui no nordeste. Encontrei informações que resultaram em trechos como:

A linguagem comum encontrava e propagava seus próprios apelidos: a garrafada de folha de Boldo com raiz de Carqueja e casca de Faveleira era tiro e queda para “antójo”, “dor no pé da barriga” e “queima no estombo”. O fruto da Cabacinha curava a incômoda “tosse de cachorro”. A Batata de Purga tinha três poderosas funções: acabava com o “empachamento”, tirava o “reimoso do corpo” e expulsava as Solitárias, embora fosse sabido que tivesse como efeito colateral uma “caganeira” de um dia inteiro. A casca do Mulungu combatia doenças dos nervos: “juízo incriziado”, “farnizim” e “caduquice”. A casca de Pimenta de Macaco acabava com as dores da “espinhela caída”, dos “quartos”, do “espinhaço” e das “juntas”. A folha de orelha-de-onça acalmava o “cansaço”, o “entalo” e o “gôgo inflamado”.

O processo de transformação do sumo da cana em açúcar foi outro desafio. Eu nada sabia sobre a produção artesanal em um engenho. Contei com a ajuda do engenheiro agrônomo Herbeth Dantas, nascido e criado no Verde Nasce. Aliás, a família me recebeu muito bem.


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