O próximo presidente dos Estados Unidos

Por Lee Siegel
ESTADÃO

Se os eleitores aceitarem por completo o fato de ele ser mórmon, Mitt Romney (foto) será o próximo presidente dos Estados Unidos. Não será eleito por suas ideias a respeito do futuro do país. Será eleito porque o presidente Barack Obama é negro. Apesar de tudo o que se fala sobre a divisão existente entre os eleitores americanos conservadores, eles votarão de forma unânime em qualquer candidato republicano que seja branco. Herman Cain, quem sabe? Este nunca teve qualquer chance.

Deixando de lado as considerações de cunho ideológico – admito que, embora espere que Obama seja reeleito, se Romney se tornasse presidente eu não pegaria a minha família e sairia do país. A verdade nua e crua, olhando retrospectivamente os últimos três anos, é que o presidente negro desconcertou a metade dos cidadãos deste país. Se Obama fosse branco, nunca teria encontrado a resistência frenética que o persegue praticamente desde a posse, em janeiro de 2009.

Não consigo lembrar de outro presidente americano que tenha despertado tanto rancor e ódio quanto Obama. Nixon foi odiado porque estendeu e intensificou uma guerra absurda no Sudeste Asiático, na qual pereceram 50 mil americanos. Clinton foi violentamente odiado pela direita, mas em especial na periferia da política americana – e não no que ela tem de mais tradicional.

Obama recebeu mais ameaças de morte do que qualquer outro presidente moderno. Ele provocou o tratamento mais desrespeitoso por parte da oposição de que se tem memória. Em várias ocasiões, os republicanos se recusaram a sentar com ele à mesa para negociar o compromisso mais básico. Quando, em setembro, o presidente pediu permissão para discursar em uma sessão conjunta do Congresso, John Boehner, o presidente da Câmara, recusou. Isto jamais aconteceu. Como alguns dos republicanos mais destacados afirmaram off the record, sua única estratégia é repudiar toda e qualquer iniciativa proposta por Obama.

São políticos ambiciosos. Eles não insultariam e obstruiriam o presidente se não tivessem a certeza de que este comportamento arbitrário provoca uma reação favorável em seu eleitorado. A verdade pura e simples é que os Estados Unidos são na realidade dois países. “Vermelhos” e “azuis” – como costumam ser designados respectivamente conservadores e liberais – são qualificativos que não traduzem a feroz polaridade expressa pela fratura. Estas duas Américas existem desde a Guerra Civil. Os transtornos econômicos e a desorientação social só contribuíram para tornar as divergências entre ambos ainda mais amargas.

A divergência mais profunda diz respeito à raça. Não que os conservadores sejam racistas e os liberais não. O mito da inteligência de uma raça foi relegado à margem da vida americana. Hoje existe uma sólida classe média negra e um crescente estrato social de negros ricos. Milhões de donas de casa brancas bebem avidamente cada palavra de Oprah Winfrey. Personalidades negras irrefutáveis em todos os aspectos da nossa vida servem de modelo de comportamento às crianças brancas. Uma breve incursão em qualquer pátio de escola revelará grupos de crianças negras e de crianças brancas que se segregam voluntariamente, mas tribalismo não é racismo. Toda a vida social é uma lenta jornada que leva da semelhança à diferença.

Contudo, não obstante todo o progresso social ocorrido nos Estados Unidos, uma ideia de hierarquia permaneceu arraigada nas profundezas da mente americana. Quando a indústria do país entrou em crise, e milhões de trabalhadores brancos perderam os seus empregos ou tiveram de aceitar ocupações inferiores, nunca deixou de persistir um sentimento atávico de que os brancos sempre deteriam uma posição social acima da dos negros.

Porque, apesar da ascensão de alguns negros em todos os campos da vida americana, a preponderância dos negros ricos e bem-sucedidos ocorre nas áreas do entretenimento e dos esportes. É fácil para a classe média baixa branca afetada pela crise sentir-se superior a personagens, por mais que estes sejam pessoalmente dotados, cujo trabalho consiste em representar para dar prazer a um público.

De repente, quando todo o universo do trabalho e da posição social parecia mudar, apareceu um presidente negro, e como se não bastasse, um intelectual. Isto foi, e é demais para pelo menos a metade do país, que todos os dias vê seu mundo virar de cabeça para baixo, em vários sentidos. Neste país, há pessoas, talvez a maioria, que votarão contra Obama simplesmente para corrigir o erro histórico que sua presidência representa para elas. Em comparação com a aberração, na opinião delas, de um presidente negro, o fato de ter um presidente mórmon parece menos aberrante. Observem Romney atentamente quando ele aparece no noticiário. Os candidatos à presidência costumam esforçar-se em projetar um ar de confiabilidade, estabilidade, conhecimento e sucesso. Romney se esforça, principalmente, por parecer branco.

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