O Purgatório de Walker

Por Conrado Carlos

Que atire a primeira pedra quem, ainda menino, nunca sentiu desejo por uma tia, prima ou irmã (adianto que sou filho único). Endemoninhado perante Deus, depravado aos olhos humanos, o despertar sexual encontra no convívio com a parentela o ambiente proibido, porém, sedutor para as primeiras aventuras. Concretizadas ou não, fato é que a intimidade e situações facilitadoras, como banhos e noites compartilhadas, estimulam fantasias púberes. Basta reunir amigos, para saber se exagero. Em toda roda, tem aquele que transou com uma prima ou se masturbava pensando na tia gostosa. Já casos entre filhos dos mesmos pais são ocultos. Com a psicologia pronta para explicar o fenômeno, ninguém confessa atração física fraternal, muito menos um efetivo incesto. Ao utilizar, em seu novo romance, Invisível, a relação incestuosa entre Walker e Gwyn como uma das subtramas da narrativa, Paul Auster cria um mal estar no leitor, à medida que suscita uma devassidão incontrolável.

Acredito ter sido de Montaigne a ideia de que “A memória é mais prolixa que a imaginação”. O filósofo francês, nos anos finais de vida, admitia incapacidade para armazenar o passado, cujo lado positivo seria menos rancor para com os outros e concisão no falar. No entanto, no universo literário, as duas forças têm grau idêntico de importância. Experiências vividas, reais, concretas, são floreadas pela capacidade do autor em distorcê-las de modo atraente. E é o que faz Auster em Invisível, ao contar a história de um jovem estudante de literatura que se envolve com um casal dez anos mais velho. Adam Walker é bonito, inteligente, solitário, antissocial e ávido por sexo. Certa noite, aceita o convite de um colega para uma festa em sua casa. Perambula sem sucesso pelos cômodos, quando Rudolf Born e Margot se apresentam. É o estopim para a revirada em seu pacato cotidiano. Após as formalidades iniciais, um encontro é marcado para dias depois. Na ocasião, Born lança a proposta de bancar uma revista literária sob a direção de Walker. Bom demais pra ser verdade.

A guinada começa com o caso entre Walker e Margot, francesa tarada que o introduz em uma gincana sexual. Born, porém, descobre tudo, brinca com uma suposta ameaça de morte, mas revela-se magnânimo ao terminar a relação com Margot e manter a proposta de parceria com Walker. Enquanto caminhavam pelas ruas de Nova Iorque, o que só aumenta a tensão e a desconfiança mútua, um novo e brutal episódio ocasiona a fragmentação do romance em quatro partes, com a mais interessante nomeada de “Verão”. Velho, prestes a morrer, Walker procura um antigo amigo de faculdade, Jim Freeman, hoje renomado escritor, para concluir um livro sobre sua vida pós-Born – no século XII, um poeta inglês chamado Betran De Born foi o semeador da discórdia entre Henrique II e seu filho homônimo. Na Divina Comédia, de Dante, ele figura no Inferno segurando a própria cabeça.

Nomeadas Verão, Outono e Primavera – assim como Inferno, Paraíso e Purgatório – a parte final do livro dentro do livro está inconclusa, o que exige organização de Jim. Ao ler os rascunhos, sobretudo Verão, a surpresa com as cenas de sexo entre Walker e sua irmã Gwyn inquieta o mais sádico dos leitores. A maratona de alcova é interrompida com a viagem do jovem à Paris para um ano de estudos complementares. Absorvido pela noite trágica nas ruas nova-iorquinas ao lado de Born, planeja vingar-se do sujeito nefasto em seu destino, ao mesmo tempo em que redescobre a libertinagem com Margot – ainda que a irmã domine seus pensamentos. “A penitência exige mais que a reparação do dano. Pior fazem os que deixam para depois da morte a manifestação, contra o próximo, dos rancores que esconderam durante a vida. Mostram que pouco prezam pela honra, não se incomodando com provocar a ira nos ofendidos contra sua memória”, dizia Montaigne. Jim, ao receber os manuscritos de Walker, percebe que a luxúria visível obscurece perturbações outras. Se nos cabe valorizar a importância dos efeitos de cada incidente, a consequência é assumida de acordo com nossas vontades.


“Invisível”
Autor: Paul Auster
Editora: Cia das Letras
Preço: R$47,50

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