O que a Islândia pode nos ensinar

Reiquejavique, capital da Islândia

Por  Affonso Romano de Sant’Anna
ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

Na última semana, todo o mundo editorial, muitos escritores e jornalistas brasileiros estiveram em Frankfurt para aquela que é a mais importante feira do livro. O Brasil esteve lá fazendo aquecimento para 2013, quando de novo será o país convidado do evento. Na primeira vez em que fomos escolhidos, em 1994, como presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), ajudei a organizar nossas coisas por lá.

Agora, a nova direção da FBN está ampliando as bolsas de tradução e se pensa numa aparição mais maciça do Brasil, à altura deste país, que está virando esperança até de estrangeiros.

Mas não é disso exatamente que pretendo falar. Quero fazer considerações sobre o país homenageado deste ano, sobre o qual não se falou. Para a China fizeram grande alarde, a Turquia idem. Pois o país homenageado este ano foi a Islândia. Apesar do silêncio da imprensa, ele tem muito a nos ensinar.

Onde fica a Islândia? Quantos habitantes tem? Tem literatura?

Quando lecionei literatura brasileira no exterior, seja na França, Alemanha e EUA, os gringos estranhavam e até me perguntavam se o Brasil tinha realmente literatura. Pois vou lhes revelar umas coisas que aprendi sobre a Islândia. O país tem apenas 310 mil habitantes. É quase um bairro de nossas grandes cidades. Com quase a população da Rocinha, no Rio. Onde fica? Lá pros lados da Noruega. É uma ilha. Aliás, a língua que falam é um norueguês antigo.

Mas tem uma coisa que vai nos fazer corar de vergonha: lá não tem analfabeto. E mais: tem a maior taxa de leitores de todo o mundo.

É pouco ou querem mais?

Então, lá vai: islandeses têm até um Prêmio Nobel de Literatura – Halldor Laxness –, enquanto nós, os impávidos brasileiros, com quase 200 milhões de cidadãos, não temos Nobel algum.

Poderia ficar por aí.

Mas agora vem a parte mais importante e comovente. Leio no Jornal de Letras de Portugal (porque no Brasil ninguém se importa com a Islândia) o nome dos escritores islandeses que foram a Frankfurt. Obviamente, ilustres desconhecidos para mim e para os que temos de consumir o lixo editorial que entulha nossas livrarias.

Vejo esta declaração de Gisli Sigurdsson, um dos escritores islandeses, e me comovo: “A arte da palavra foi, desde muito cedo, prioridade e uma das grandes contribuições da Islândia para a humanidade. Quantos países podem se orgulhar de terem tido como primeira mercadoria de exportação a poesia?”.

É isso, um país que vive de exportar poesia. Como assim? Poesia dá dinheiro?

Outro escritor, Hallor Gggudmundesson, continua o espantoso pensamento: “Não temos monumentos, nem ruínas, nem pintores ou músicos antigos. Apenas as histórias que fomos contando ao longo dos séculos. (…) Como fomos durante muito tempo um país isolado e pobre, não desenvolvemos no passado uma escola filosófica nem pensamento abstrato. Por isso, quando se perguntava a alguém qual o significado da vida, a pessoa contava uma estória”.

P.S. Dedico esta crônica aos contadores de estórias brasileiros e a todos os que acreditam na força da poesia.

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