O que é o contemporâneo?

Por Francisco Bosco
O GLOBO

Para uma obra ser grande, é preciso que ela tenha forte relação com o agora do agora

Em 1874, Nietzsche escreveu, em uma de suas “Considerações intempestivas”, que sua época padecia de um mal, “um defeito do qual a época justamente se orgulha, isto é, a sua cultura histórica”. Seus contemporâneos eram, segundo o então jovem filólogo, “devorados pela febre da História”. Apenas dez anos antes, Baudelaire criticava aqueles que, no Louvre, atinham-se às grandes obras antigas, defendendo que o amor pela “beleza geral, expressa pelos poetas e artistas clássicos”, não deve levar ao erro de “negligenciar a beleza particular, a beleza de circunstância e a pintura de costumes”. Ao ler essas duas passagens, percebemos que, no século XIX, ainda sob a pressão de um mundo que resistia a deixar de ser dogmático, tradicional, havia um déficit de “contemporaneidade”. Hoje, ocorre o contrário: o progresso técnico desenfreado e a lógica capitalista do consumo parecem querer condenar à obsolescência histórica o sujeito que não adere a suas transformações permanentes.

Já se disse que antigamente os objetos sobreviviam às gerações de seres humanos, mas, hoje, são os humanos que sobrevivem a uma série vertiginosa de objetos. Aos 34 anos, eu já peguei a época em que o telefone era discado (o sinal era difícil e uma linha valia o preço de um automóvel), em seguida teclado, depois sem fio, logo celular, Skype, agora iPhone etc. etc. E não são apenas os objetos que nascem e morrem rapidamente, mas também formas jurídicas, morais, sexuais, emocionais, psicológicas em geral. Em um tal processo de aceleração da História, a pergunta sobre a contemporaneidade se revela fundamental: afinal, o que é ser contemporâneo?

Há um mal-estar na conceitualização dessa palavra. Pois contemporâneo significa, etimologicamente — e esse significado é muito vivo na morfologia da palavra — “o que vive ao mesmo tempo”. Portanto, em princípio, tudo o que vive numa mesma época é contemporâneo dessa época. Nesse sentido, não há, em cada época, o fora do contemporâneo. Entretanto, tendemos imediatamente a pensar que o rádio não é contemporâneo, e sim o tablet; a ópera não é contemporânea, e sim o 3D; o casamento arranjado não é contemporâneo, e sim as passeatas LGBT. Há distintos tempos dentro de uma mesma época.

Isso nos leva a uma primeira compreensão conceitual do contemporâneo. Ela é idêntica ao que Baudelaire entendia como “moderno”, no ensaio que citei acima, “O pintor da vida moderna”: “A modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável.” Esse “transitório” é o irredutível de uma época, aquilo que só nela surgiu, e que poderá permanecer, talvez, daí em diante (porém não mais como seu transitório próprio), mas nunca houve antes. Esse tempo único dentro de uma época é um significado possível de contemporâneo. Daí que um mash-up seja contemporâneo (pois só agora há o instrumento tecnológico que o possibilita), e uma roda de chorinho não seja. Daí que um sujeito que enriqueceu aos 25 anos no mercado financeiro seja contemporâneo (nunca antes o mundo foi tão plutólatra), e um filósofo não seja. Aqui se abre um problema, que quero indicar em dois âmbitos: o da arte e o da existência.

No campo da arte e do pensamento, a adesão imediata ao irredutível de uma época revela-se incapaz de cumprir sua tarefa. Assim como, para Baudelaire, o belo tem uma dimensão eterna e outra transitória, para Agamben “é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com este [com seu tempo], nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”. Para o artista e para o filósofo, a condição de ser contemporâneo de seu tempo, isto é, de estar à altura de capturá-lo numa forma ou num sentido, é dar um passo atrás, ou ao lado, é não coincidir plenamente com seu tempo. Com efeito, vejo muitos artistas completamente aderidos a seu tempo, mas que, por esse mesmo movimento, perdem a capacidade de dar-lhe uma forma reveladora (parecem antes ser formados pelo tempo). Por outro lado, me parece que para uma obra ser grande, relevante, “marcar época”, é preciso que ela tenha uma forte relação com o irredutível de seu tempo , com o agora do agora: todo clássico já foi moderno.

No campo do cuidado de si, o risco da adesão plena a este tempo é ainda mais dramático. O irredutível de uma época cria hiatos de tempo dentro dela, e o agora do agora é o mais valorizado. O contemporâneo, nesse sentido, é como a moda. Flavio de Carvalho dizia que “só um desambientado pode tornar-se ridículo a ponto de não seguir a moda. Um desambientado é um ser em desequilíbrio com o ambiente e possui pois um sistema individual com estabilidade própria”. Esse ser, o idiota, é o filósofo. Ao filósofo cabe recuar um passo e revelar o sentido do contemporâneo.

A propósito, essa tarefa será perseguida no novo ciclo de pensamento proposto pelo filósofo Adauto Novaes, que terá início no próximo 15 de agosto. Adauto vem chamando a atenção para o fato de que as promessas de emancipação do tempo pelo progresso tecnológico não se cumpriram; pelo contrário, nunca trabalhamos tanto, e o trabalho como autorrealização vem sendo submetido aos valores da produtividade despropositada. É isso o que os filósofos e teóricos em geral convocados por ele vão investigar — e isso é o centro do nosso contemporâneo.

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