O que estamos fazendo aqui?, de Michelle Ferret

Talvez o céu comece onde a gente termina
Naquele traço invisível
ignorado entre a saudade e a terra

Talvez o céu termine onde a gente começa
e as linhas se confundem
nos trilhos, nas cordas dos violões e nos tecidos finos
bordados por linhas grossas

Talvez a gente termine
ou seja céu
e as linhas das mãos lidas e revisadas
sejam o conforto absoluto da existência das ciganas

Talvez a gente seja
os olhos inquietos delas adivinhando a chuva
e o destino
vicejando o fim do mundo

Talvez a gente seja
o fim
que comece a cada tracejar do GPS deitado nas mãos
ou mesmo o chão
adornado de dedos e botas que não afunda nunca
mesmo a tanto peso

Talvez a gente seja o chão
À espera das sementinhas ou das nuvens
projetadas pelo sol
num contorno imenso de nossa miniatura

Talvez sejamos um braço desse desenho
saído das mãos gigantes de uma criança
ou um traço, uma traça, um troço desconfortando a ciência
e retornando velada na pergunta que ninguém nunca respondeu

Ilustração: Jeff Östberg

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