O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade (II)

Faz falta à bibliografia do escritor Luís da Câmara Cascudo uma coletânea de apresentações e prefácios, dos tantos que escreveu, nos moldes do livro “Prólogos”, do argentino Jorge Luis Borges. Tal obra serviria ao menos para desmistificar a aura de apologista acrítico que cerca a glória póstuma do mestre potiguar.

Certamente não é um apologista crítico o autor que subscreveu a Introdução de “Demopoesia”, livro de estreia do poeta Jaumir Andrade, escrito no verdor dos seus vinte e poucos anos e publicado pelo próprio poeta em 1970. No curto espaço de uma lauda, Cascudo evoca as origens campestres do poeta para compará-lo aos fenômenos mais indóceis da natureza: “Os tufões latino-americanos têm nome. Este se chama JAUMIR ANDRADE”. Em seguida, atenuando a hipérbole, descreve-o como “Ventania que atravessou caatingas e carrascais, jardim em flor, brejo com sapo, lama e lodo, tabuleiros com mandacarus e recantos com cravos brancos e açucenas azuis”.

A rigor, nada do que ocorre à engenhosa imaginação de Cascudo é excessivo, se confrontado com o que verseja “Demopoesia”. Suas páginas são atravessadas por contrastantes cenas da vida sertaneja, a começar pelo poema “Nordeste, Nordeste” que escancara o livro, despejando sobre o desavisado leitor um conjunto de imagens cruas, duras, ásperas como a rajada do vento e a impudicícia da miséria. Em seus antípodas, visualiza-se um rebanho cantante com um padre à frente. Em seu desfecho, é o próprio poeta quem oferece, como promessa de redenção para a desdita nordestina, seu braço, “um oásis para o mundo inteiro”.

A utopia socialista se faz presente em “Demopoesia” (não é por acaso que o poeta incorreu nesse neologismo de étimo grego) como uma tábua de salvação para quem perdeu a crença nos céus e vive assombrado com a contiguidade do inferno. É, portanto, para exorcizá-lo de todo que Jaumir recolhe esperanças verdes de uma paisagem onde só vicejam pedras: “As cantigas aromam os caminhos, / no domingo azul de flavo sol. // É feriado desfrutado num jardim lunar. // De cada ramo de roseira, / emana um ramalhete de estrelas. // São as bodas de todos […] (O sonho)”.

O mesmo otimismo perpasse o lírico “Emoção”, poema que destila confiança num amanhã que, infelizmente, o poeta só conheceria em escasso sortimento numa vida, em vários sentidos, em conflito com os valores maiores da ordem burguesa. A certa altura, dirá: “É preciso que se viva, / peito afeito à rebeldia / e a certeza da cantiga / derramada em cada olhar […] É o dia da redenção […]”. O poeta não poderia resumir melhor seu modus vivendi, suas expectativas quanto ao futuro. Ecos desse ideário repercutem em “A Federico”, poema cujo início declina: “Ninguém te esqueceu / nem te esqueceu este / pequeno poeta potiguar […]”.

Tal qual Drummond, Jaumir Andrade esteve atento ao inesperado e viu não uma rosa, mas uma poesia, relampejar na lama, “a cantar um vulcão latino-americano / profetizando sua breve erupção, / donde brotarão punhais de ramos, / ternuras, trovões verdes, escravidão, / podre orvalho e radiante escuridão […]”. Em “Meu poema” resumirá alguns “princípios” poéticos: “Mais duro / que eu, / estará sempre / meu poema / cara a cara / com o presente. / Tua fome nojenta / de felicidade / teus clássicos machadianos, / teu coração / desempregado, / tuas obras-primas / chopinianas, / tua solidão burguesa, / tua filha deputante / extasiará / o cronista social / mas enojará meu poema que / é feio e magro, / acre e oco / roído de cupim, / desgastado / e analfabeto / qual minha terra”.

A forte impressão que a poesia de Jaumir Andrade causou a Cascudo seria compartilhada em igual medida por Esmeraldo Siqueira e Rômulo Wanderley, dois nomes dos mais importantes para a crítica de poesia em solo potiguar.

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Comentários

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  1. Jarbas Martins 7 de novembro de 2010 13:09

    O teu olhar, Nelson, despido da arrogância e dos preconceitos, leva-nos ao conhecimento de poetas legítimos, como Bosco Lopes e Jaumir Andrade, infelizmente sequestrados pelos academicismos.Parabéns.

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