O que levo e o que deixo

Por Ronaldo Correia de Brito
No Terra Magazine

O que faço de um chaveiro com um pequeno boné de louça, em que está escrito: Raimundo Leandro – 80 anos? O objeto surgiu dentro de uma caixinha azul, em meio às quinquilharias de um armário. De repente, lembrei um tio-padrinho na cidade de Várzea-Alegre, no Ceará, e da festa a que não compareci por medo de encontrar a família. Raimundo Leandro morreu. Os mortos deveriam carregar suas lembranças.

As mudanças nos obrigam a mexer em gavetas, a revisitar guardados e buscar uma função para eles em nossa vida atual. Meu filho encontrou uma caixa de música na forma de uma cabeça de gato. O brinquedo, que pendurávamos em seu berço, ainda toca e mexe os olhos. Está perfeito. Poderia servir para os meus netos e foi preservado com esta intenção. Num mundo sem compromisso com o passado, em que até a memória é deletada, a eternidade das coisas que nos cercam incomoda.

Durante anos orgulhei-me de duas cadeiras de jacarandá e palhinha, desconfortáveis, mas soberbamente bonitas, que ladeavam uma cômoda do século dezenove, de amarelo vinhático e com puxadores de prata alemã. Tanto o jacarandá quanto o amarelo são madeiras de lei, de árvores em extinção. Um armário de cerca de trezentos anos também nos orgulhava pelo seu peso e resistência, parecendo um dólmen plantado em nossa sala. Todo esse mobiliário parece pesado e obsoleto em apartamentos com móveis de compensado e mdf, de durabilidade máxima de 12 ou 15 anos, feitos para descartar.

Quando nasceu meu primeiro filho, há trinta anos, meu pai e minha mãe fizeram uma pequena rede de dormir para ele. Durante noites, eles confeccionaram as varandas de linha, em pontos de nó, um trabalho de paciência e amor. Os meus três filhos foram embalados, dormiram e sonharam nessa rede, um mimo de avós. Ela está entre os nossos guardados, sem função, por enquanto, talvez aguardando outros corpos pequenos que novamente sonharão ao balanço e acalanto.

As casas guardam memórias de pessoas, através de objetos e pertences. Quando morreu nosso avô materno, a avó mandou passar uma parede, dividindo a casa em duas. Um lado inteiro servia apenas para guardar os trastes do avô. Entrávamos nesses aposentos escuros como numa igreja medieval. Era como se nosso avô nunca tivesse ido embora da casa. Na verdade, seus gestos continuavam por ali, como no poema do peruano César Vallejo.

Todas essas reflexões foram provocadas pela mudança da casa em que moro há 29 anos. Precisei arejar os baús, decidir o que continuará ou não comigo, despedir-me do que já não possui significado. É possível que eu sonhe mais tarde com esses objetos que me deixam. Ou, talvez, me sinta leve, pronto para uma viagem, apenas com um guarda-sol como o poeta japonês Bashô. Viver é administrar essas perdas. Acho que muitos já escreveram essa frase. É melhor parar por aqui, pois a conversa descamba para a autoajuda.

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