O que sei e o que (ainda) não sei acerca de Rilke

Natown, 30 de março de 2011.

Querido Tácito,

Enquanto vou tentando me curar desses sintomas (repito, para os que ainda não sabem: pode ser dengue ou uma séria Síndrome de Estocolmo), vou me apegando  – com o meu laptop, meus livrinhos empilhados ao redor da cama, e os restos de minhas forças – a uma missão que talvez seja muito pesada e até mesmo possa existir alguma contra-indicação a ela para quem se encontra nesse meu crítico Estado, digo, estado.

Em verdade, vos digo: trata-se do aprofundamento dos estudos acerca de Rilke, Rainer Maria Rilke (Praga, 4 de dezembro de 1875 – Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926).

A partir dessas leituras, descobri, por exemplo, que Rilke também escrevia em francês, assim como em alemão. Fiz um esforço para provar isso e coloquei aí do ladinho direito, mui bem acompanhado, um poema de Rilke na língua de Rimbaud, traduzido para o português por Maria Gabriela Llansol (é porque eu não sabia se o Marcos já tinha feito alguma tradução da obra “Vergers”).

Mas, eis que faço uma nova descoberta. Encontro, em meio aos meus últimos livros não encaixotados, uma pequena brochura da qual eu não me lembrava.

Chama-se “Os cadernos de Malte Laurids Brigge”.

Consegui esse livrinho numa de minhas últimas viagens a Angicos, terra ensolarada e repleta de poesia. Jean du Bois deve ter a primeira edição original autografada. O meu exemplar é de banca de revista (sou um intelectual de bancas de revistas), da gaúcha coleção L&PM Pocket, vol. 809, 2009, tradução e notas de Renato Zwick.

O livro, que é uma espécie de romance autobiográfico, incorpora  o relato de um jovem dinamarquês, que se vê sozinho em Paris. É delicioso e lembra, de pronto, “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, livrinho que somente vim a ler no já distante ano de 2010, extemporâneo e excessivo que sou.

Para conferirem o que digo sobre o valor estético do livro de Rilke, que tem um verdadeiro poder curativo, vale a pena dar uma olhadinha nesse texto de “Os Cadernos…” (está à página 21 da minha edição de bolso):

“É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos e sou desconhecido de todos. Estou aqui  sentado e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar e pensa, no quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, estes pensamentos:

É possível, pensa ele, que ainda não tenhamos visto, conhecido e dito nada de real e de importante? É possível que tenhamos tido um tempo de milênios para ver, refletir e anotar, e que tenhamos deixado os milênios passar como um intervalo entre as aulas em que comemos um pão com manteiga e uma maçã?

Sim, é possível.”

Bonito, não é?

E, enquanto durar a minha síndrome (não sei se é dengue, repito), vou estudando a vida e a obra de Rilke. Juntando fatos, buscando informações de diversas fontes.

Trarei novidades para vocês.

Mas, por enquanto, o que sei é que quem mais sabe acerca de Rilke por estas bandas da província ensolarada é você,  nosso querido, bem-dormido e desassombrado editor (além do nosso abade, claro, e do portentoso parnasiano dos rodapés, juntamente com o florentino das suicidas, o titanossauro periodista, o Bela Lugosi e o sambista selvagem).

Ou alguém ainda tem dúvidas?

Forte abraço. Desculpe os meus excessos e dê uma ablação no abade.

p.s. 1. Não sei se essa dor de coluna também é sintoma da síndrome que me acomete;

p.s. 2. Peço que continuem rezando por mim. [L.O.]

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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