O que vale a pena

Vivemos num mundo capitalista, tecnológico e competitivo. Um mundo digital. Um mundo virtual. Hoje, tudo é permeado pela tecnologia, está à nossa mão e, ao mesmo tempo, escapa-nos pelo vão dos dedos. Temos o  perto e o longe, muitos amigos virtuais, mas poucos de verdade. Tudo gira em torno do dinheiro, valorizando o ter. Ou aquilo que parecemos ter. Pois vivemos num mundo de aparências, no qual se vende de tudo. Inclusive ilusão e falsa imagem, fake news de governos fascistas querendo se passar por libertários. Vivemos na era dos marqueteiros, dos fabricantes de ilusão. Todos os dias, comemos “gato por lebre”. E vivemos cercados por um mundo do faz de conta. Não dos contos de fadas, que esses sempre nos encantam. Mas do faz de conta que você precisa do que não precisa. Pois vivemos também a era do consumismo. Do efêmero. Um mundo em que nada é para sempre. Nem os objetos, nem os sujeitos. Muito menos os relacionamentos. As famílias são voláteis. As uniões se dissolvem feito algodão (doce?) amargo na boca. Temos que compreender novos conceitos acerca do que é família. Nem sempre é de sangue. Às vezes mais família são os amigos, aqueles que criam laços pelo coração. Mas isso não significa pagar o mico do deslavado nepotismo de alguns. Lembrem-se: milícia não é família é, antes de mais nada, banditismo.

Além do mais, todo o mundo é obrigado a saber de tudo, ou a pensar que sabe de tudo, mesmo que ignore a maioria das coisas. Diz-se que em sociedade sabe-se de tudo, porém, bem menos de um terabyte do que foi interceptado algures.  “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, como disse Guimarães Rosa. Mais do que Freud, os sites explicam tudo. O Google sabe mais de você do que você mesmo. Os feicibuques e os instagrans da vida são quem balizam tuas amizades. O seu círculo de amigos é quantificado, medido, avaliado, sugerido. O tempo todo você é vigiado pelo “grande irmão”, o big brother de que nos falava Orwell na sua obra “1984”. Não há como escapar da grande teia, que nos emaranha, nos envolve, nos abraça. E nos assedia com ofertas de produtos o tempo todo.

Não apresse o rio

Então, depois de refletir sobre tudo isso, tendências e modismos dos tempos atuais, colocado esse cenário, pode-se perguntar: “Afinal, pelo que vale a pena lutar nesta vida?” Uma pergunta aparentemente fácil. Mas só na superfície. Comecemos pensando naquilo que não vale a pena.

Não vale a pena se lamentar. “Eu queria estar em outro mundo, noutro tempo. Como era bom o meu tempo de criança.  Seria ótimo se o mundo fosse assim ou assado. Quem me dera se…” E lamuriamos a nos refugiar em tempos passados ou a nos projetar no futuro. Não se aliste na fileira dos eternos arrependidos. Assuma suas escolhas, acertos ou erros. Não fique “inocentemente” dizendo   “eu não sabia”. Como muitos que votaram em um certo candidato que não preciso dizer o nome.

Então, inferimos que reclamar o tempo todo não nos levará a lugar algum. Aliás, poderá nos retroceder. Como um certo país que conheço… Um retrocesso destruidor de conquistas. Mas, prossigamos… 

Diz a sabedoria budista… “gate, gate paragate”… Deixe ir o que já foi, atravesse para a outra margem. E a genialidade de um Guimarães Rosa nos cria um rio onde há uma terceira margem. Duas margens que contém uma terceira, acima, dentro, no meio, além do bem e do mal. Então, vale a pena lutar para se navegar, essa terceira margem, aquela que significa aventurar-se, viajar rumo ao desconhecido, mergulhar em si mesmo? Compreender-se? Para além do rio, corre outro rio, e cada um leva para uma foz distante, um oceano de mais profundidades que precisam ser mergulhadas. Sopra o vento nas velas e o horizonte se alonga no infinito. Contudo, “Não apresse o rio. Ele corre sozinho”, já aconselhou Barry Stevens. E se você é ávido por encontrar uma terceira via, uma terceira margem para um mundo justo,  acredite que a justiça poderá tardar, até mesmo porque, às vezes, ela está sendo alugada para algum inquilino de quinta categoria. Mas um dia a casa cai… acredite.

Sobre o nada eu tenho profundidades

O poeta Fernando Pessoa nos disse: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, aquela que não pretende nenhuma grandiosidade em si. Despojou-se de toda a mesquinharia do mundo. Ou como diria Manoel de Barros: “Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.” Ou quando afirma: “Meu fado é de não entender quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades.” (Mas não seja imbecil em apregoar teorias sobre terra plana ou em classificar de “gripezinha” um vírus altamente letal, a ceifar impiedosamente centenas de milhares de vidas países afora. Saiba refinar a sua ignorância.)

Então, a resposta que me salta aos olhos é a de que, nesta vida, vale a pena lutar para alcançar a sabedoria de ser pequeno por fora, com grandiosidades de dentro. E o que a gente mais vê é exatamente o contrário. Seres vermiformes arrogando-se de mito e vomitando disparates. Hipocrisia não é bom caminho. Então, vale a pena lutar por autenticidade. Ser verdadeiro dói, mas é necessário.  E isso significa buscar a poesia. Vale a pena, a poesia de cada dia. Lutar por isso. Olhar para o mundo com olhos de poesia. Como se cada instante  germinasse naquele momento.  Dádiva de flor que se abre em meio a espinhos.   E perfuma,  colore e balança-se ao vento. E multiplica-se no bico dos pássaros. Espalha-se feito pólen, palavra ao vento. E germina mais adiante. E lavra a palavra o verbo criador de tudo. Porque de poesia pode-se morrer todos os dias. E renascer a cada instante. A morte é apenas o outro verso da vida.  O avesso que rima eternidade e plenitude. (Exatamente o contrário de quem ocupa um planalto efêmero – mas joga raso e sujo e comporta-se de forma abjeta, bem mais baixo do que nos porões do Hades.)

O poeta nunca se conforma com o mundo como ele é

Portanto, de tudo o que não sei e de todas as coisas que ainda ignoro, resta-me ser um buscador de essências. Aquilo que já está bem aqui, dentro do peito. A centelha, a estrela, o cristal e a chama.   Fênix, poesia pássara a se encandear de luz e silêncio. Mas um silêncio que fala. E quando fala não bravateia. Mudo, diz tudo.

Ser poeta é algo urgente, necessário. Saber ouvir o vento, entoar a canção da vida. Como diria Cecília Meireles:

“Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.”

Mas, ser poeta não significa estar alheio ao mundo. Antes, carece ter olhos de enxergar o que pode e precisa ser transformado. O poeta nunca se conforma com o mundo como ele é. Não se entrega a causas que não coloquem o homem e a sua dignidade em primeiro plano. Não bate palmas aos tiranos e nem se curva aos insanos que se jactam, ignorantemente, do (falso) poder. O poeta quer um mundo belo, porém justo. Beleza implica em equilíbrio, harmonia, respeito à vida humana. Respeito à diversidade de gêneros. Respeito à mulher, respeito à natureza. Significa combater o preconceito e o machismo. Lutar pelos direitos das minorias. Ombrear-se com os que acreditam num país livre de todos os vírus, inclusive  daquelas cepas que podem ser vencidas pela vacina do voto consciente depositado nas urnas.

Quero ser o poeta de um tempo assim, que ainda virá. Mas se anuncia. Por isso, ergo a voz para versejá-lo desde já. Ser poeta assim vale a pena. Poesia é dor que não sara. Mas dói menos que a mentira dos que se dizem messias. Vade retro… Exorcizar é preciso.  Afinal, vale a pena lutar para transformar o mundo. E a pena do poeta é ponta de estrela que brilha.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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