O Quixote de Portinari

Portinari foi o maior pintor do Brasil, disso não tenho dúvidas. Um grande retratista e ilustrador. No ano do seu centenário organizamos uma exposição enfatizando essa faceta menos conhecida desse pintor genial, altamente comprometido com o social.

Portinari concebeu 21 desenhos que seriam destinados a uma edição brasileira ilustrada do célebre D. Quixote. No Museu Castro Maia no RJ tivemos o prazer de ver esses os desenhos originais. A edição do livro com os desenhos infelizmente não saiu e os desenhos foram publicados numa caixa de luxo contendo os 21 desenhos em tamanho original.

Esses preciosos desenhos a lápis de cor também foram publicados num belo álbum acompanhado de 21 poemas e glosas do poeta Carlos Drummond de Andrade.

SONHA ALONSO QUIJANO
Borges

Desperta aquele homem de um indistinto
Sonho de alfanjes e de campo chão,
Toca de leve a barba com a mão
Duvidando se está ferido ou extinto.
Não irão persegui-lo os feiticeiros
Que juraram seu mal por sob a lua?
Nada. O frio apenas. Apenas sua
Amargura nos anos derradeiros.
Foi o fidalgo um sonho de Cervantes
E Dom Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
Está ocorrendo que ocorreu muito antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.

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Comentários

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  1. Nina Rizzi 23 de abril de 2010 17:29

    DEUS DE VIOLÊNCIA
    Cândido Portinari

    Quem seraim aqueles três rasgados
    E sem cara? Vinham a cavalo.
    Mais próximos não davam impressão de gente,
    Mais de três volumes se movendo como bandeiras
    Esfarrapadas. Rentes a mim, estenderam
    algo como uns braços, com vestígios
    de deos, segurando uma caneca de folha.
    Eram restos de três criaturas
    Espaventosas carregando a lepra.
    Vinham das bandas do Triângulo. Os sons
    que emitiam eram como
    Sombras de palavras.
    Meu pai chamou-os
    para o almoço. Sentaram-se à nossa mesa.
    Nós crianças olhávamos intimidados
    Depois confraternizados. Quando se foram,
    perguntamos: – Que santos são aqueles?

    ***

    Os cavalos dos leprosos se parecem com eles.
    Manchas no focinho e no corpo, o mesmo olhar
    Mortiço e desacoroçoado.
    Homem e cavalo
    Vinham vagarosamente
    De porta em porta. teriam
    A mesma doença?
    Arrepiados da cabeça aos pés,
    O sol os acariciava, e se moviam lentamente.
    Nas noites de treva
    O cavalo era o guia, só ele enxergava.
    eram como dois irmãos. O alimento,
    Repartido e o descanso também…
    Seriam dois reis?

    ***

    Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos
    Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos
    Doloridos como fagulhas de carvão aceso
    Corpos disformes, uns panos sujos,
    Rasgados e sem cor, dependurados
    Homens de enorme ventre bojudo
    Mulheres com trouxas caídas para o lado
    Pançudas, carregando ao colo um garoto
    Choramingando, remelento,
    Mocinhas de peito duro e vestido roto
    Velhas trôpegas marcadas pelo tempo
    Olhos de cataratas e pés informes
    Aos velhos cegos agarradas
    Pés inchados enormes
    Levantando o pó da cor de suas vestes rasgadas
    No rumor monótono das alparcatas
    Há uma pausa, cai no pó
    A mulher que carregava uma lata
    De água! Só umas gotas – Da uma só
    Não vai arribar. É melhor o marido
    E os filhos ficarem. Nós vamos andando
    Temos muito que andar neste chão batido
    As secas vão a morte semenando.
    *

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