O racismo de Monteiro Lobato

De Gilberto Maringoni, no Facebook:

O debate sobre o possível racismo nas obras de Monteiro Lobato é extremamente salutar nos dias que correm.

Não há muita dúvida que suas expressões em alguns de seus livros infantis – e mesmo em “O presidente negro” – são abertamente preconceituosas contra os negros. Isso não diminui seu valor literário (e sua visão nacionalista), mas deve servir para situar a produção cultural na História. Muitos dos defensores de Lobato alegam que aquelas posições expressam uma visão da época. Não é bem assim. Época não é sujeito, época não escreve. As palavras de Lobato expressam a visão das classes dominantes da época.

A diferença é importante. Nem todo mundo era racista nos primórdios do século XX, nem mesmo entre a intelectualidade.
É bom sempre lembrar que Manoel Bomfim (que era branco) escreveu em 1905 o fundamental “América Latina, males de origem”, no qual faz um ataque frontal ao racismo que pautava a elite brasileira. Isso para não falar em toda a obra de Lima Barreto e em alguns trabalhos de Astrojildo Pereira.

A questão não é determinar se Lobato – membro da oligarquia paulista – era ou não preconceituoso em 1930, mas o fato de seus livros serem relançados sem ressalvas.

Proibir Monteiro Lobato seria investir no obscurantismo. Ao mesmo tempo, difundir acriticamente seus livros significa defender a não historicidade da arte. Novas edições com notas e introduções críticas seriam a melhor opção. E fariam com que o debate sobre o preconceito se difundisse na sociedade.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Nivaldete 12 de Outubro de 2012 18:48

    Oi, Carlos, boas colocações essas de Gilberto Maringoni. Ele foi equilibrado. Acrescento que há um dado sempre esquecido pelos que falam da questão: a boneca Emília é afrodescendente, já que foi feita de um pedaço de saia de Anastácia. Vem da estética popular, e não da grega (mesmo sendo Lobato um apreciador desta). Em Memórias da Emília, ela declara: “sou filha de gente desarranjada”. É pobre e negra, portanto ( a TV a embranqueceu). Liga-se a uma história de escravidão, mas Lobato injeta nela um espírito independente, incapaz de fazer genuflexão diante de quem quer que seja; é incolonizável, se autodefine como “a independência ou morte”; é participativa, exerce o direito à expressão, interfere no mundo (em A Chave do Tamanho tenta desligar a chave da II Guerra) e por aí vai…
    As palavras do próprio Lobato, em carta a Godofredo Rangel (mantiveram correspondência por 45 anos. Cf. A Barca de Gleyre, 1961, 2 vol.), mostram sua visão de povo (embora pertencesse à classe dominante). Lá, ele observa que “o mundo sempre esteve dividido entre ricos e pobres”, cabendo à religião e aos exércitos a manutenção dessa desigualdade. Compara o pobre ao esterco que aduba a flor, no caso, a elite, e personifica o papel da igreja na figura do padre, cujo discurso ele interpreta com aberta ironia: “Vocês aguentem a coisa aqui, vão aguentando, porque depois da morte, ah!, tudo muda! O rico vai para o inferno e você vai para o céu”. E se entusiasma, em 1945, com o que tomou como sinais de mudança nessa situação, ou seja, com as respostas que começavam a emergir das camadas populares, porque o pobre “percebeu que sempre fora embromado” e “decidiu tomar nas mãos os seus próprios problemas”. E prevê que “Vai haver muita confusão e asneira e talvez lutas, mas o pobre acabará vencendo”.(p. 368). É ainda em outra carta a Rangel que ele afirma: “a burguesia não tem alma”; “a educação e a riqueza são máscaras de desindividualização”; “a nossa imbecilização é das mais curiosas: vem de cima para baixo, e decresce quando chega ao povo” (p. 134).

    Enfim, se pretendem fazer reparos às obras de Lobato, seria bom que usassem suas cartas, suas próprias palavras. Em outra carta ele reflete sobre o erro que foi ter chamado o caboclo de “piolho da terra” (porque fazia queimadas). E diz que, até antes de se ausentar do Brasil, era “um pau de floresta”; foi preciso ficar longe para considerar a floresta como um todo, mudar as ideias, no que se incluía a necessidade de esclarecimento…

    Penso que estão querendo angelizar tudo, como se o ser humano não fosse irregular e contraditório aqui e acolá. Fico com Blaise Pascal, que diz mais ou menos: o homem não é anjo nem besta, e é possível que se faça dele uma besta quando se tenta fazer dele um anjo.

    Bom, não resisti a prestar esta pequena colaboração, se assim entenderem.
    Um abraço! Obrigada.

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