O rascante sussurro da noite – 2ª Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Continuação… Clique aqui para ler a primeira parte do conto.

Ela militava em movimentos sociais desde sua chegada a Natal, talvez à procura desse chão. Tinha nascido em Rosario, acreditava que na família de um empresário bem sucedido. Acreditava até que as Abuelas de Plaza de Mayo lhe jogassem na cara, reforçada por documentos perturbadores, sua origem. Tinha nascido num centro de detenção clandestina durante a ditadura, entre as sessões de tortura à sua mãe, desaparecida logo após seu nascimento. Quanto ao pai biológico, nem as Abuelas tinham conseguido identificar sua identidade e paradeiro. Não quis acreditar, recusou o teste de DNA e entrou em depressão. A dúvida a dilacerava, acabou fazendo o teste que confirmou a verdade. Pensou em se suicidar, fez terapia, rasgou as fotos de infância com seus pais adotivos, fugiu de casa, viveu por um ano de favor em casas de militantes dos direitos humanos, à deriva, mudou-se para Buenos Aires e lá conheceu outro filho de desaparecidos. Se apaixonou, teve uma menina, viveu feliz por cerca de um ano, mas a felicidade não tinha como durar: escondida nas malhas do destino uma lâmina estava pronta para cortá-la. Quando isso ocorreu, viajou sem rumo pelo Sul do continente e, mais tarde, decidiu abandonar seu país e construir uma vida nova. Soube pelas Abuelas que sua mãe queria chama-la Carolina, e assim se fazia chamar desde que tinha abandonado sua família adotiva. Na Argentina estudava direito e ia herdar a empresa do pai. Só a ideia, agora, a enjoava. Em Natal estudava artes, trabalhava em projetos de uma ONG de direitos humanos, estava envolvida em movimentos estudantis, tinha casado e descasado e cuidava sozinha de sua filha de oito anos.

Vlado não lembrava quase nada da primeira parte da sua vida. Algum trauma, que desconhecia, tinha apagado quase todas as lembranças de sua infância na Bósnia e de sua adolescência durante a guerra civil. Sabia que era sérvio, mas não falava mais sua língua materna. Seus pais, pelo que lhe contaram, tinham morrido no conflito. No último ano de guerra, conseguiu sair do país na clandestinidade e se refugiou na Itália. Sabia que viveu nas ruas durante um tempo. Um projeto social o tinha tirado das calçadas e dos abrigos temporários, teve a oportunidade de terminar seus estudos, depois de ir para a universidade. Formou-se em sociologia, sobreviveu com empregos precários durante anos até conhecer uma advogada natalense que fez um curso na Itália. Namoraram, foi com ela para Natal, casaram, descasaram alguns anos depois. Ele revalidou seu diploma e passou a dar aulas em uma universidade privada.

Conhecia a origem de Carol. Mas, mesmo depois de terem desvendado amplas regiões de suas intimidades, ela não tinha querido contar-lhe muito de seu passado, um passado que jazia acorrentado num porão remoto de sua alma, debatendo-se para se libertar. Ainda assim, ostentava com orgulho que era filha de uma desaparecida política. Era a marca indelével de seu destino, um destino que não tinha escolhido, mas do qual, uma vez conhecido, não podia nem queria eximir-se.

A história de Vlado era desconhecida para Carol, nem ele mesmo a lembrava.

Ela tinha participado de uma recente ocupação da Câmara de Vereadores. Na primeira tentativa, os ocupantes tinham sido expulsos com a violência habitual dos descendentes dos jagunços de senhores de engenhos: spray de pimenta na cara de estudantes desarmados, com os rostos descobertos, que estavam sentados no pátio do edifício discutindo uma pauta de reivindicação, cassetetes nas cabeças, pontapés, meninas puxadas pelos cabelos e outras manifestações do típico respeito das forças da ordem brasileiras pelos seus cidadãos pobres. A segunda vez o movimento conseguiu ocupar a Câmara e ficar acampado alguns dias. Antes que a ordem de reintegração de posse fosse executada os manifestantes haviam desocupado o prédio, mas o rastro de pichações e destruição que alguns deles tinham deixado para trás insuflou um desejo de vingança e de punição exemplar naqueles que desde as Capitanias Hereditárias se consideram donos da casa do povo. Um inquérito policial tinha sido aberto e Carol, participante do acampamento, estava nervosa havia alguns dias. Os vereadores e a polícia declaravam para a televisão e os jornais que só seriam responsabilizados os manifestantes cujo envolvimento em atos de depredação fosse comprovado. Mas ela sabia que todos, sem distinção, seriam intimidados, ameaçados e perseguidos.

Ele apoiava os protestos, mas discordava de quem cobria o rosto e de atos violentos. Tinha tido inflamadas discussões com Carol sobre estratégias de manifestação. Carol defendia a legitimidade da violência como forma reação dos oprimidos, de sacudida das mentes brancas, falocêntricas, heterocentradas e colonizadas, considerava a pichação um ato político e estético de ressignificação de objetos e lugares e cobrir o rosto era para ela um signo, muito mais do que um gesto de proteção: era o símbolo da desintegração do individualismo na ação coletiva, anônima, da multidão. Mas, e isso ela não o admitia para si própria, era também a expressão de um medo incrustado em suas vísceras, um medo incontornável, atávico, tatuado em seu corpo desde o instante em que tinha nascido.

Continua…

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Pingback: A tênue fronteira entre o chão e as entranhas
  2. Jarbas Martins 22 de fevereiro de 2014 15:30

    Escrevi ontem sobre a primeira parte desta anti-narrativa (insisto nesta terminologia) um inútil e longo comentário.Basta a linguagem poética de Antonino Condorelli, ela só. Rascante, erótica, entre a tensão e o tesão, que a motiva, deixa na alma do leitor insuportáveis marcas de um passado político (infelizmente ainda tão próximo de nós).Anti-narrativas como essas têm precursores ilustres, lúcidos, amargurados: Juan Gelman, Cortázar, César Vallejo.

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