O rascante sussurro da noite – 3ª Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

***********

Continuação… ( Clique aqui para ler a primeira e aqui para ler a segunda parte do conto)

Vlado se considerava um pacifista irredutível, um praticante convicto da não-violência. Às vezes essa convicção sofria abalos inesperados, inexplicáveis. Anos antes, ainda casado, tinha tido um caso com uma garota conhecida durante uma palestra na universidade. A moça, fingindo ter interesse em suas ideias, tinha conseguido arrancar seu número de celular e se insinuado com malícia pelos interstícios de um casamento que estava ruindo, deixando-lhe vislumbrar, num jogo sensual de mostra e esconde, a possibilidade de emoções sexuais havia tempo esquecidas. Por fim, tinha se deixado enredar na teia costurada ao redor de seus desejos pela misteriosa garota, mas só depois de transar com ela pela primeira – e única – vez, decepcionado, só então tinha percebido que havia se tornado uma obsessão para ela. Quis cortar qualquer contato, mas era tarde. O celular tocava sem parar, todo dia, a qualquer hora, seu som tinha se convertido em pesadelo, mantinha o aparelho desligado o dia inteiro, mas sua esposa havia começado a suspeitar, até o inevitável acontecer e Vlado não ter mais como esconder a traição cometida e a perseguição que estava sofrendo. Seu casamento tinha afundado, se sentia atirado numa solidão da qual pensava que nunca mais teria visto a cara. Na verdade estava só havia muito tempo, ainda casado, mas a consciência de não ter mais um corpo quente ao seu lado, um cheiro em que mergulhar suas ansiedades, outra solidão onde se agarrar era uma chicotada em seu rosto. Tinha trocado o número de celular e se livrado da perseguição, mas cada vez que pensava naquela garota que havia estraçalhado a ilusão de sua vida de casado era invadido por uma pulsão irrefreável de destruição, um desejo selvagem de espanca-la, com brutalidade, de ver jorrar seu sangue, de escutar seus gritos desesperados por piedade, seus gemidos de dor e de medo. Em relâmpagos fugazes, que o espantavam, se surpreendia imaginando-a amarrada a um pedaço de pau, nua, enquanto a esbofeteava vendo seu rosto sangrar, e depois se via arrancando seus mamilos a mordidas, enfiando-lhe o dedo na vagina até rasgar seus tecidos internos, e em seguida cortando seu clitóris com uma faca e enfia-lo, ensopado de sangue, em sua boca. Por ínfimos, assustadores instantes se percebia gozando, se embriagando dum prazer desconcertante ao torturar aquela garota na imaginação. Mas, assim que esses relâmpagos surgiam, os afastava com a mesma violência que via se desatar naquelas fantasias.

Nos últimos tempos, surtos de violência imaginária lhe brotavam com frequência em efêmeros devaneios acordado. Vivia em uma cidade concebida e organizada para automóveis, uma cidade em que pedestres e usuários de transporte coletivo como ele, aos olhos da maioria dos motorizados, ou seja, dos descendentes dos senhores de escravos e daqueles que se iludiam estar nesse seleto rol por andar sobre quatro rodas, tinham mais ou menos o mesmo valor e os mesmos direitos de um cuspe na calçada, e estas, as calçadas, quando existiam eram amiúde usurpadas pelos veículos privados, como as terras indígenas o tinham sido pelos “civilizadores”. Um estrondo infernal sacudia às vezes sua consciência em pleno dia, no trajeto até a parada do coletivo, e se via imaginando – e desejando com inusitada intensidade – a explosão dos carros estacionados nas calçadas, se regozijava com a imagem da chama engolindo as ferragens, dos rostos dos donos invadidos pelo desespero, se embriagava com o delírio de arrancar de seus veículos os motoristas que não paravam nas faixas dos cruzamentos para deixar passar os pedestres e de esmagar seus rostos nos vidros das janelas de seus próprios carros, e toda vez que ficava meia hora, quarenta, cinquenta minutos aguardando sob um sol abrasador um ônibus que chegava cuspindo gente pelas janelas, às vezes sequer parando e obrigando-o a aguardar mais ainda, cada vez que seus braços doíam pelos malabarismos que era obrigado a inventar para se segurar naqueles paus de arara urbanos, um ódio profundo, inaudito, emergia da região mais longínqua de seu fígado e desejava, em seu íntimo, cobrir o rosto e sair para destroçar ônibus, tocar fogo neles e em suas garagens, arrancar catracas e jogá-las nas caras dos donos das máfias do transporte coletivo, contemporâneos traficantes negreiros, e de seus lacaios nos poderes municipais. Um ódio que durava segundos, às vezes minutos, e que lutava com tenacidade para empurrar de volta no rincão obscuro de onde tinha fugido, deixando-o apavorado pelo que era capaz de sentir e desejar.

Nas fotos da ocupação da Câmara divulgadas pela imprensa, Carol aparecia sempre com o rosto coberto. Não condenava as pichações e a destruição que uns companheiros de luta tinham feito antes de saírem do prédio, afinal aquele lugar era símbolo de opressão, mas não tinha participado desses atos.

Continua…

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Jarbas Martins 24 de Fevereiro de 2014 12:58

    O que há de surpreendente, no anti-discurso poético de Antonino Condorelli? Fascina-me, como já disse em outras ocasiões, o poético se sobrepondo ao factual, a magia que se enlaça em suas longas frases, a violência, em meio ao erotismo, e que sangra na boca dos personagens, em cada parágrafo, em cada cena descrita.

  2. Pingback: O rascante sussurro da noite – 4ª e Última Parte
  3. Pingback: A tênue fronteira entre o chão e as entranhas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP