O real é mera formalidade

Por Schneider Carpeggiani
Jornal do Commercio

A antologia Tempo bom, organizada por Cristhiano Aguiar e Sidney Rocha, não é só incrível pela proposta de ajudar as vítimas das enchentes que atingiram Pernambuco e Alagoas, no mês passado. Para além da proposta beneficente, a obra traz um panorama do que a literatura brasileira contemporânea tem realizado. E melhor: traz um conto inédito de Fernando Monteiro.

Apesar de haver lançado um fantástico livro de poemas no ano passado, Vi uma foto de Anna Akhmátova, há um bom tempo que não temos um romance ou um volume de contos de Fernando. Como seu leitor constante e atento, fico procurando seus novos trabalhos, dispersos por antologias e suplementos literários. É incrível como, cada vez mais, sua literatura perde o chão. Cada vez mais o terreno onde pisamos é movediço e nada, nada existe. Ou se importa em existir.

É como se cada palavra e cada intenção do autor fossem tão deliberadamente artificiais, que temos a impressão de que tudo está prestes a desabar. Desde seu romance inicial, Aspades, ETs, etc., que ele vem brincando com o artificial que a literatura tem, mas que gosta de fingir que não, não é bem por aí, talvez por pudor. Em seus últimos trabalhos Monteiro tem se encarregado de sofisticar esse seu traço. O conto A cabeça de calcário, presente em Tempo bom, é bom exemplo do caminho que o autor quer percorrer. Começamos com a apresentação de um personagem de carência aguda, que tem como único traço sentir falta de tudo. “Em Alexandria – onde ainda vaga a alma lunática do Bicórnio eu conheci um egípcio daqueles de formação helênica, extremamente educados, que sentiam a falta de tudo. ‘Estou amargurado pelas coisas que faltam’, ele dizia. ‘Meu pai foi assim’. Ele veio me procurar. Disse que tinha dois motivos: queria publicar um anúncio, em inglês, no jornal onde eu escrevia coisas que ele admirava’” – tem início o conto, para depois nos empurrar em queda livre numa estrutura em pedaços. Monteiro perpetua a tradição de Borges e de Calvino de que o real é mera formalidade.

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