O real e o imaginário

Por Woden Madruga
Tribuna do Norte

Durante Copa do Mundo não me lembro que algum vibrante repórter da Globo tenha feito qualquer citação, mesmo de passagem, sobre dois dos maiores nomes da literatura da África do Sul, Nadine Gordiner e J.M.Coetzee, ambos detentores do Nobel e também do ambicionado Booker Prize, criado na Inglaterra para premiar obras literárias escritas em inglês. Falou-se tudo sobre a África. Das zebras às terríveis vuvuzelas, da alegria contagiante dos negros, da beleza dos estádios (cada um custando uma fortuna de dinheiro), o luxo exagerado de seus hotéis de luxo e, aqui e acolá, a reportagem mostrava uma favela ilustrando a miséria que campeia em mais da metade da população. Claro que se falou bastante – e era para falar mesmo – sobre Nelson Mandela, o grande herói do seu povo. Mas dos dois grandes escritores do país, nenhuma linha.

Conversava mais ou menos sobre essas coisas com o Tácito Costa, num dos desvãos da Livraria Siciliano, durante o lançamento do livro de Moacy Cirne, “Dicionário do Folclore Brasileiro: Uma edição desfigurada”, quando, remexendo nas lombadas dos livros perfilados nas estantes , dei de cara com o “Verão”, último romance de J.M.Coetzee. Tácito e eu temos a mesma predileção pelo escritor sul-africano e em cujos livros vamos encontrar toda a questão social e racial do seu país. O “apartheid” está lá. Nas paginas de “Desonra” ou nas páginas de “Vida e época de Michael K”, dois belos livros, como está também neste “Verão”, que comecei a folhear ainda na mesma noite de quarta-feira.

Amanheci a quinta procurando na internet o que os jornais lá debaixo publicavam. E foi aí que me deparei com a crônica de Luis Fernando Veríssimo, em O Estadão, de título “O poder imaginário”, onde fui encontrar fiapos de uma prosa que tinha alguma coisa parecida com a conversa de véspera com Tácito em torno de Goetzee. Veríssimo vai mais além quando enfoca a repartição dos poderes numa nação, num povo. O poder real sobre o imaginário. O cronista esteve na África do Sul cobrindo a Copa. Transcrevo-o:

– No México mais do que em outros lugares da América Latina, nota-se a repartição de poderes que é comum a todos, o poder dos descendentes de europeus sobre a economia e a política – ou seja, o poder real – e o poder dos nativos sobre a identidade cultural – ou seja, sobre o imaginário – do país. Isto talvez se deva ao fato de estar na cidade do México o maior de todos os monumentos às civilizações pré-colombianas, o seu magnífico Museu Antropológico, onde se comemora uma vitória nativa que nunca houve. E explica por que demorou 500 anos para que um descendente de indígenas fosse eleito presidente de um país com maioria indígena como a Bolívia.

– Esta invasão do poder real pelo poder imaginário rompeu um acordo tácito de anos e é um precedente ameaçador para as oligarquias americanas – a não ser, claro, que o representante do poder imaginário apenas imagine ter conquistado o poder real. Se você conseguir penar no Lula como o primeiro índio brasileiro a chegar à presidência também pode se perguntar se o governo dele é uma novidade ou concessão.

– Na África do Sul é clara essa divisão entre o poder real, que continua nas mesmas mãos brancas, e o domínio dos negros sobre os mitos, os ritos, as artes e até a memória do país. Na cidade de Durban estão fazendo uma espécie de higienização do passado, substituindo todos os nomes de ruas e praças que lembrem os tempos coloniais por nomes de líderes e guerreiros nativos e heróis da luta anti-apartheid. Nesta ocupação do imaginário do país cometem algumas injustiças. Vi poucas referências lá, a por exemplo, Nadine Gordiner, cujo prêmio Nobel de literatura se deveu em boa parte à sua oposição corajosa ao apartheid. O próprio J. M. Coetzee, hoje o mais conhecido escritor sul-africano, outro ganhador do Nobel e crítico do regime racista, também não parece ter o reconhecimento que merece – ou então eu é que não procurei direito.

– E você não consegue evitar a impressão de que, na África do Sul como na América Latina, também existe um acordo tácito entre o real e o imaginário, e que a elite branca entrincheirada nos seus condomínios fechados cedeu tudo aos negros, inclusive a sua História, para preservar o poder verdadeiro.”

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Tácito Costa 23 de julho de 2010 10:49

    Só faltou você no lançamento de Moacy. Woden tava lá com um monte de livro embaixo do braço. Além de Verão, do Coetzee, que estou lendo, por isso a conversa desbancou para esse autor, levou pra casa um livro do Miguel Sanches Neto, que ele considera um dos bons autores brasileiros em ação (não lembro o nome do livro), e A Teus Pés, da portuguesa Inês Pedrosa. Tinha outro livro, eram quatro, mas agora não recordo. E pelo papo ele não tá só comprando e guardando, como muita gente por aí, tá lendo feita a gota serena, deu notícias de um bocado de livros e autores, inclusive um português, ainda meio desconhecido por aqui (fico devendo o nome, esqueci).

  2. Carlos de Souza 23 de julho de 2010 9:32

    Cara, esse Woden é fogo na roupa mesmo. Passei a Copa inteira pensando nisso. Cadê Nadine, cadê Coetzee?

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