O refluxo do ódio

Sinceramente, mesmo correndo o risco de parecer um ignorante, afirmo que sequer tinha ouvido falar antes desse tal Eugène Terre’Blanche, assassinado por trabalhadores negros, ontem, em sua fazenda na África do Sul.

Apavorei-me. Não somente com a notícia de sua morte e de como se deu (sabendo das proporções que isso pode tomar no país da Copa), mas, muito mais por me aperceber melhor de que ainda estamos engatinhando no sentido da busca por uma sociedade igualitária e sem preconceitos, além de um pouco menos violenta. E essa assertiva tem sentido e mão dupla, uma vez que o racismo, a violência e seus corolários terminam possuindo efeito dúplice: “de lá pra cá, daqui pra lá.”

O cara assassinado foi um dos  fundadores da resistência afrikaner (Afrikaner Weerstandsbeweging – AWB) e, adepto do apartheid, pregava o separatismo a fim de se criar uma “pátria de brancos”.  É impressionante quando vemos as fotos do sujeito na internet. Parecia um “heroi” nazista sobre seu cavalo negro e suas vestimentas incrementadas. Um Hitler com cara de Hemingway. E parece que era popular. Afinal tem doido pra tudo.

E o danado terminou assim… E agora?

Agora explico o porquê de não ter vergonha desse desconhecimento. É porque, após vários avanços sociais no sentido de ultrapassarmos esse tipo de preconceito e muitos outros, além do ódio que representam, pensava que essa peste do racismo tinha arrefecido, minguado um pouco, ao menos na África do Sul do maior líder do século passado, Nelson Mandela.

Que nada! Vejam e acompanhem o que aconteceu e perceberão, como eu, que a coisa continua quente e perigosa no que concerne a racismo, ódio, violência. Mas, o mundo vai ficar de olho, já que se trata do país da Copa…

No Brasil, bem pertinho da gente, basta ver as torcidas ditas organizadas para começarmos a entender que o “fenômeno” (e não estou tratando de um jogador de futebol) continua, disfarçado, fantasiado, mas continua forte e com efeitos terríveis.

Agorinha mesmo, anos depois de “filhinhos do papai”  terem torrado um índio no Planalto Central, um morador de rua brasileiro amanheceu pintado, da cabeça aos pés, com uma tinta metálica e tóxica.

E aí? Poxa! E aí?

Aí, é o ódio que volta a se instalar e recrudesce. O ódio, em suas variadas faces (na internet, tem também). E isso não é nenhuma novidade. A única diferença é que pensávamos estar criando condições mínimas para que houvesse uma redução das estatísticas e dos exemplos terríveis. Mas, a crueldade, o racismo, e tudo que advém disso, somente crescem e crescem e crescem.

O fato é que o termômetro do racismo e dos preconceitos de todas as ordens começa a tomar um nível alarmante nesses últimos tempos. Na África e em toda parte.

O próprio presidente da África do Sul, Jacob Zuma, chegou a classificar esse assassinato como um “ato terrível”, pedindo calma para que isso não venha a por gasolina na fogueira do ódio racial.

Ah! E por falar em ódio e racismo, achei interessante, mas perigosa a resposta que o vencedor do Big Brother da Globo deu a um Faustão cabeçudo e emagrecido: “Ora, se querem dizer que sou homofóbico, também posso afirmar que fui vítima de ‘heterofobia’.”

É…O ódio, a violência e o racismo têm mão dupla. E pesada!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 6 de abril de 2010 17:09

    Cara Denise,

    Com certeza, você não tem nada de conformista. É corajosa e lutadora. E sei que você compreende essa nossa condição humana, mas não a aceita de braços cruzados.
    Esse texto tem um pouco do desejo utópico (e, talvez, ingênuo de minha parte) de que tudo mude. Para melhor, é claro!

    Forte abraço!

  2. Denise Araújo Correia 6 de abril de 2010 15:15

    Obrigado, Lívio. Não foi um comentário de conformismo. Pelo contrário. Detesto esta sociedade que para posar de democrática e livre de dogmas vela aquilo que está mais arraigado, tudo aquilo que não concebemos e mesmo assim nos foi incutido sem qualquer crítica. No decorrer do tempo parece que as pessoas não repensaram o que ouviram. Não duvidaram, só assimilaram. Nenhuma fagulha de descontentamento sequer. A humanidade é vista de uma maneira tão medíocre e menor, que preservação e respeito não merecem consideração de prática. Só a violência e o caos para resolver, então. Os racistas ou homofóbicos declarados não me causam mais lamento que os camuflados. Estes últimos são os que praticam mais separatismo. Em meu antigo bairro sempre houve razoável bom convívio entre negros e brancos, mas foram os negros que se tornaram marginais, foram abandonados, prostituíram-se. Foram eles que morreram pelo ocaso. Isso infelizmente não parece ser a realidade do meu quintal, mas do mundo.

  3. Lívio Oliveira 6 de abril de 2010 13:29

    Cara Denise,
    Importante a sua opinião. E não devemos nos render. Prossigamos, em busca de uma sociedade que se aperfeiçoe em todos os setores. E que tenha paz!
    Abraço.

  4. Denise Araújo 6 de abril de 2010 10:12

    Lívio, o preconceito é algo que deveras acompanhará nossa existência sempre, não nos enganemos. Quando ele é camuflado eu acho ainda pior. É aquele que sempre reprova à espreita e com calma, até o dia em que ateará fogo ou impelirá o facão.
    A África pós-apartheid apresentou mudanças, óbvio. Não tanto o quanto pensamos, todavia. Seus heróis negros são lembrados no mundo, mas a boa convivência entre as diferentes raças é algo, digamos, de natureza estética.
    Um programa recente mostrou que a Universidade da Cidade do Cabo, em pleno país da copa, tem seus alunos universitários convivendo juntos em sala de aula, mas claramente separados por raça, quando escolhem eletivamente seus grupos de amizade.
    Ainda há muito o que evoluir, repensar, reconsiderar.
    Não acredito numa sociedade sem preconceito.

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