O risco da “murdoquização” da imprensa

Por Mauro Malin
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Em boa medida, o debate em torno das opções “impresso” ou “online” está contaminado por idiossincrasias, quando não por preferências quase ideológicas entre um modelo consagrado, que perde terreno, e promessas fabulosas ainda um pouco longe de se realizarem.

Situação propícia para evocar uma lei de Arthur C. Clarke: as revoluções científicas prometem muito mais do que conseguem realizar no curto prazo e muito menos do que acabam realizando no longo prazo. No longo prazo, as profecias mais audaciosas parecem ridiculamente conservadoras.

O texto digital ainda está longe de corresponder a tudo o que foi prometido quando ele surgiu. Mas no futuro vai superar as mais audaciosas previsões feitas até aqui. A leitura do texto impresso em papel não tem rival até hoje. Mas essa vantagem não vai durar eternamente. Como por definição é impossível estipular prazos nesse terreno, o estado atual da arte suscita uma discussão em que nenhum dos lados pode tripudiar sobre o outro.

Nos vídeos a seguir podem ser confrontadas duas posições contrastantes:

1.Você conhece o Livro?

2. Entrevista de Mateus Kacowicz

Documentos desmaterializados

Ao mesmo tempo, é covardia comparar a facilidade de arquivamento do texto – ou foto, áudio, vídeo – digitalizado com a dificuldade de conservar os suportes convencionais. Quando o acervo digital da Folha de S. Paulo entrou na rede, em fevereiro passado, ele continha um estoque de 1,8 milhão de páginas. Empilhadas sem dobrar, formariam uma coluna de mais de 50 metros de altura.

Guardar livros (e poeira e ácaros etc.) é um desafio. CDs, nas suas patéticas embalagens de plástico, pior ainda (os velhos LPs são incomparavelmente mais arrumáveis). Nesse sentido, a desmaterialização dos documentos é uma vantagem.

Mas pergunte a um arquivista o que ele tem a dizer sobre um problema chamado “fragilidade dos suportes digitais”. Não se trata apenas da curta vida prognosticada para CDs e DVDs (de disquetes já nem se fala, menos ainda de fitas magnéticas), mas da incompatibilidade de programas. Empresas e governos andam garimpando em países pobres equipamentos sucateados capazes de ler antigos softwares.

No papel ainda é bem melhor

A diferença entre ler no papel e ler na tela é um assunto erroneamente subestimado. Artigo de Jack Shafer na Slate noticia estudo que demonstra como a primeira modalidade ainda é superior. Uma das conclusões é que os leitores em papel “se lembram de um número significativamente maior de notícias do que os leitores online”.

Incomoda principalmente a dificuldade de hierarquizar o noticiário na tela da maneira como os jornais o fazem. Ainda não se conseguiu traduzir a competência da diagramação em papel – herdada dos copistas medievais – para o desenho na tela.

Em compensação, não há artifício de leitura em papel que faça sombra à facilidade de buscar palavras ou textos no meio digital.

Mimetismo frustrado

A reprodução eletrônica da imagem dos jornais impressos, a partir das “matrizes” digitais, seria uma solução aceitável se fosse legível. Mas é uma chatice esperar até que a primeira página surja das entranhas do computador, clicar para virar a página, depois levar o cursor até a notícia desejada, em seguida clicar até uma ampliação que torne possível lê-la, muitas vezes fazendo com que o trecho lido se separe do restante da notícia, o que não dá uma sensação visual agradável: parece leitura com lupa.

Sensatamente, a Folha de S. Paulo oferece a imagem da primeira página e abre os textos no formato da tela, da maneira mais simples e… legível. Perde-se a informação das fotos e infográficos, e da organização na página, privilégios dos leitores em papel, mas ganha-se em velocidade e clareza.

Uma alternativa que não caminhou tanto quanto se esperava é a dos jornais em “papel digital” (e-paper, ou paper logic), como o belga De Tijd. Podem ser dobrados ou enrolados, e seu conteúdo é renovado via internet, com ou sem fio. Essa experiência continua confinada a poucos títulos.

Conclusão provisória: para proporcionar qualidade de leitura equiparável à dos impressos, os jornais online (revistas são um capítulo à parte) terão que aprender a fazer a mencionada tradução − não mais para telas de computadores, e sim telas de tabuletas, que, enquanto não surgem aparelhos desse tipo dobráveis, são forçosamente menores.

Impressos vivem e atuam

No dia 10/8, jornais filiados à Associação Nacional de Jornais (ANJ) publicaram um anúnciode página inteira em que celebravam um recorde de circulação auditada: 4,4 milhões de exemplares diários. Com o acréscimo de uma estimativa (segundo métodos não informados) da circulação dos jornais não auditados, mais o cálculo de quatro leitores por exemplar, chegava-se a uma audiência diária de 32 milhões de pessoas. Os sócios da ANJ comemoravam especialmente um crescimento da circulação de jornais de 32,7% entre 2004 e o primeiro semestre de 2011. E davam o recado:

“[…] o jornal continua a ser um grande campeão de audiência. E o melhor: audiência qualificada. Por isso, mais do que nunca a gente recomenda: anuncie em jornal.”

Qualquer cidadão consciente do papel deletério desempenhado pelo lixo sensacionalista das mídias rádio e televisão (entenda-se: a referência é a uma parte da programação, não à programação como um todo), da superficialidade inescapável do noticiário “sério” (retirem-se as aspas, em alguns casos) das redes abertas de televisão e do declínio da qualidade das principais revistas semanais, e consciente da falta de pluralismo desses meios, saberá valorizar os jornais.

Longa vida aos jornais

Nesse contexto, é preciso augurar longa vida aos jornais. Sem abrir mão da indispensável visão crítica. Ao contrário: quanto mais se valorizar o papel dos jornais para uma superação democrática das principais mazelas sociais e regionais do país, mais se exigirá deles.

Em especial, importa defender a integridade das redações, concebidas como corpos plurais (em origem social, idade, experiência profissional, mentalidade, ideologia, simpatias políticas, competências específicas etc.) hierarquizados. Hierarquizados para que cada um exerça devidamente sua responsabilidade no processo decisório diário, não para que prevaleça sem contraste a vontade ou a opinião dos chefes e seus auxiliares.

Redações equilibradas, no sentido de não haver perigosos descompassos entre a preocupação com a captação de anúncios e o compromisso com a pertinência e a qualidade do que é pautado, apurado, editado e publicado.

Primado das redações

No segundo vídeo apresentado no início deste texto, Mateus Kacowicz diz que o importante é a palavra, não o suporte usado para comunicá-la. Dir-se-ia, fazendo-se um paralelo, que o importante é a estrutura de redação, sejam quais forem a mídia e o suporte tecnológico.

Indivíduos isolados aos quais a internet permite distribuir para muitas pessoas o conteúdo que produzem podem ser importantes – é o caso de colaboradores deste Observatório da Imprensa online −, mas nunca substituirão o conjunto orgânico de profissionais que abrem janelas mais ou menos generosas para a sociedade e para o mundo.

Quem puxa a circulação

Feita essa longa e obrigatória ressalva, é preciso colocar um grãozinho de sal no festejo da ANJ.

Os grandes agregados numéricos sempre escondem muita informação sensível. A ANJ chegou a 32 milhões de leitores. Quantas pessoas no Brasil têm formação universitária? Quantas pagam imposto de renda (pequena porcentagem dos que preenchem a declaração anual)? Quantas são classificadas nas classes A e B de renda?

Ou seja: esse mercado é heterogêneo. Não por acaso, desde o advento do Plano Real cresceram o número de títulos e a circulação dos jornais ditos populares, que fazem jus ao nome tanto pelo preço como pelo conteúdo.

Concretamente, o que tem aumentado no Brasil é a circulação desses jornais. Os social, cultural e politicamente mais influentes patinam nos mesmos patamares há anos. Em 2010, a Folha de S. Paulo perdeu para o Super Notícia, de Belo Horizonte, o primeiro lugar que mantinha desde 2002.

Entre pagode e axé (com todo o respeito)

Na tabela da ANJ constata-se que os cinco maiores índices de aumento de circulação em 2010 foram obtidos pelos jornais Correio da Bahia (manchete em duas linhas da edição de domingo, 21/8: “Baiano gosta mais de pagode do que de axé”), Dez Minutos, Daqui, O Tempo e Aqui. Entre os jornalões, só o Estado de S. Paulo se destacou, com 11% de crescimento no ano passado.

Que não se subestimem as folhas populares – e os jornais gratuitos, cujo conteúdo jornalístico merece atenção. Pior do que um jornal de qualidade discutível é nenhum jornal. No Brasil há muita baixaria contrabandeada sob a fachada de jornalismo, mas geralmente as aberrações não se comparam à sordidez e à contumácia dos tabloides britânicos.

O risco existe, permanentemente. Um caso impressionante é o da Índia. Lá, o mercado de 356 milhões de leitores deve se expandir à taxa anual de 6,8% até 2014, quando o bolo de anúncios pode chegar a US$ 4,1 bilhões. Desde 2005, a taxa média anual de crescimento do mercado publicitário é de 32%.

Índia em tempo de Murdoch

Mas, segundo o escritor Pankaj Mishra (Bloomberg, 14/7), não haveria lugar melhor do que a Índia para Rupert Murdoch investir os US$ 12 bilhões poupados quando desistiu de aumentar sua participação na British Sky Broadcasting. Mishra explica a involução jornalística havida desde que Murdoch chegou com canais de televisão por satélite ao mercado indiano, no início dos anos 1990:

“Mais de uma década atrás, no que parece agora ter sido uma era de inocência, escrevi noFinancial Times a respeito da arrepiante ‘murdoquização’ da mídia noticiosa da Índia. Eu me referia, primariamente, à crescente dominação, em grandes jornais como o Times of India e o Hindustan Times, do infotainment que agrada aos anunciantes.”

Mishra descreve a invasão das primeiras páginas desses até então sisudos jornais por frivolidades como festas em hotéis cinco estrelas. Mais grave:

“Ao mesmo tempo, notícias que desagradavam anunciantes, como suicídios de dezenas de milhares de fazendeiros, ou violações de direitos humanos na Cashemira, frequentemente deixavam de ser publicadas ou eram relegadas a páginas internas. ‘Um bom jornal’, escreveu Arthur Miller, ‘é a nação falando consigo mesma’. E a maioria dos jornais indianos em idioma inglês apresentavam, poucos anos depois da chegada de Murdoch, um retrato alarmante da vida pública da nação.”

Mais alarmante, diz o escritor, é que as redações de vários dos maiores jornais e emissoras de televisão da Índia…

“…estão agora abertas a quem paga mais: partidos, empresas, celebridades; qualquer um, na verdade, pode garantir cobertura favorável para si mediante uma simples transação em espécie. O que os indianos chamam de ‘matérias compradas’ não se encontra mais apenas em pasquins de cidades pequenas.”

Pagamento adiantado

O artigo de Mishra descreve escandalosas modalidades de corrupção jornalística.

Em 2010, o Financial Times relatou que “contratos privados”, ou seja, a venda de cobertura jornalística em troca de ações de empresas, que o Times of India havia inaugurado anos antes, estavam disseminados na imprensa nacional e regional da Índia.

Um relatório do Press Council of India, entidade de regulação do setor, denuncia ainda Mishra, concluiu que em muitos casos o veículo de mídia havia forçado políticos a pagar adiantado por cobertura “positiva”, especialmente durante campanhas eleitorais. Um poderoso lobby de grupos empresariais de mídia conseguiu fazer com que só chegasse ao grande público uma versão radicalmente editada do relatório.

O escritor conta que, grampeando telefones para suas finalidades específicas, a receita federal indiana estourou sem querer uma rede de corrupção envolvendo imprensa, partidos e empresas. A mídia dominante do país tentou ignorar a montanha de evidências contra os mais conhecidos jornalistas indianos, mas as gravações acabaram chegando às redações de dois dos raros periódicos independentes da Índia, Open Magazine e Outlook.

Contratos de defesa

Mishra escreve que, como na Grã-Bretanha, laços incestuosos entre empresários, políticos e jornalistas na Índia “são há muito um segredo aberto. Quase todo mundo nesses círculos sabe quem serve a quem, e em troca de quê.”

Mas ninguém abre o jogo publicamente. Quando a revista Tehelka denunciou que oficiais de alta patente, funcionários do Ministério da Defesa e a liderança do partido então no governo, o Bharatiya Janata, tinham recebido propinas para aprovar contratos na área militar, sofreu violenta retaliação do governo, que pôs em xeque suas fontes de financiamento bancário.

Corrupção altamente organizada

Esses fatos levaram o Press Council a escrever no ano passado, em relatório que acabou vazando: a podridão na mídia indiana “vai além da corrupção individual de jornalistas e empresas de mídia. Tornou-se generalizada, estruturada e altamente organizada.”

Houve também, nesse clima de vale-tudo antiético, uma partidarização descarada de muitos meios de comunicação indianos. Alguns empregam personagens que parecem aprendizes dos apresentadores ultraconservadores americanos Glenn Beck e Keith Olbermann.

Não caiu como raio em céu azul, portanto, a dramática campanha anticorrupção do ativista Anna Hazare, que mobiliza apoio popular crescente. O bloqueio midiático deixou como opção a realização de atos pacíficos de repercussão, como a greve de fome iniciada por Hazare na quarta-feira (17/8).

Impressos, sim. Mas quais?

Festeje-se a resistência dos jornais impressos brasileiros às diferentes crises convergentes que em tantos países assolam a imprensa. Mas sem perder de vista que o aumento da circulação, aqui, tem dependido de títulos menos capazes de manter e aprimorar bons padrões jornalísticos. Menos distantes dos padrões consagrados pelo império Murdoch.

O maior risco é que os interesses e concepções de anunciantes, publicitários e departamentos comerciais arrastem as redações para o terreno do sensacionalismo, da baixaria e da frivolidade, fragilizando seus compromissos com a defesa da democracia e tornando-as, assim, mais permeáveis às diferentes formas de corrupção.

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