O romance da Guerra da Princesa

Foto: Alex Régis

NA TRIBUNA DO NORTE

Alguns escritores escrevem por prazer, outros por vaidade e outros até sonhando com a posteridade, mas a maioria esmagadora não vive de literatura. Aldo Lopes de Araújo deve estar inscrito no primeiro lote, dos que escrevem por prazer.

Aqui vai uma breve notícia biográfica do autor: Ele nasceu na Paraíba, no município de Princesa Isabel e veio morar em Natal, é advogado e jornalista e é autor dos livros Lavoura de Olhares e Outros Contos (1988), Solidão, Nunca Mais (1996), As Estátuas de Sal (2000), Zé, a Velha e Outras Histórias (2007). Participou das coletâneas Presença do Conto Paraibano e O Autor na Escola. Integrou as antologias Contos Cruéis (2005) e Capitu Mandou Flores (2008). É um autor premiado. Além de outros prêmios, foi agraciado com a Bolsa Funarte de Criação Literária para pesquisa e conclusão do romance A Dançarina e o Coronel, livro ainda inédito. Este livro que vou comentar hoje, O Dia dos Cachorros, também venceu o Prêmio Câmara Cascudo de 2005, quando a Capitania das Artes (que atualmente não serve para absolutamente nada) ainda dava prêmios para escritores.

Pois bem, O Dia dos Cachorros, de Aldo Lopes de Araújo, Editora Bagaço, 205 páginas, sem preço definido, é sem sombra de dúvidas o livro de um escritor maduro e bastante ciente de sua arte. O que é que eu posso dizer desse livro? Qual o defeito que posso encontrar nele? Nenhum. Outro dia eu estava acompanhando pelos jornais a polêmica em torno da coletânea com os 20 melhores escritores do Brasil, da Revista Granta. Muita gente se magoou porque não foi convidada para fazer parte da coletânea. Ora, meu amigos, escritores bons existem às pencas por esse brasilsão afora. Uma coletânea com todos eles ocuparia uma quantidade absurda de páginas e Aldo Lopes certamente estaria entre os melhores. Mas o mais importante que eu quero lembrar é que todos os escritores da coletânea da Granta não cantam suas aldeias. Não existe um novo Jorge Amado. Essas pessoas cantam o mundo moderno e seu esfacelamento, sua falta de identidade, seu vazio absoluto.

O romance O Dia dos Cachorros conta a história da Guerra de Princesa, sua aldeia, que ele canta aqui com maestria e grande habilidade no trato com as palavras. Na contracapa do livro Ariano Suassuna diz: “No meu tempo de menino, ouvindo as histórias que meus familiares contavam sobre a Revolução de 30 e a Guerra de Princesa, cujas terríveis conseqüências ainda estávamos vivenciando, eu via o Coronel José Pereira Lima como um Rei invencível, e a cidade de Princesa como um Reino livre, austero, belo e solar; com a sua guarda de cavaleiros encourados e de bravura indômita sempre pronta a enfrentar desmandos do então presidente da província da Paraíba. Tudo aquilo que repercutia no meu sangue tinha de repercutir, como de fato repercutiu, na minha literatura. E é com grande alegria que vejo, agora, que ocorreu com Aldo Lopes algo semelhante ao que ocorreu comigo. Sendo ele neto de Manoel Lopes, o ‘Ronco Grosso’, Condestável do Reino de Princesa e homem de confiança do Coronel José Pereira, Aldo faz seu romance O Dia dos Cachorros uma grande homenagem a todos aqueles que se uniram para fazer, de Princesa, um baluarte contra o autoritarismo da capital, que queria impor aos líderes sertanejos, à força, uma visão de mundo inteiramente alheia à sua realidade – autoritarismo que foi decisivo, diga-se de passagem, para semear as discórdias que derramaram tanto sangue paraibano”.

Dito isso, eu me pergunto, e o que danado eu vou dizer do romance desse cabra paraibano-potiguar? Digo que certos romances pegam você na primeira frase, primeira página, nas primeiras cinco ou seis páginas. Depois disso, se você na caiu na lábia do escritor pode esquecer e largar o livro em um canto qualquer da casa, prometendo ler outro dia ou nunca mais. O livro de Aldo Lopes começa assim: “João Sem–Medo esperava do Coronel Barbaciano uma atitude mais dura, um chamamento às armas e não aquela resposta sem firmeza, como se a dentadura estivesse fora do encaixe da gengiva”. Eu li essa frase sentado no meio fio de uma calçada, enquanto esperava uma carona de minha mulher para ir pra casa após o trabalho. Confesso que fiquei ansioso para chegar logo e retomar aquela leitura que me arrebatou logo no primeiro capítulo. Demorei a terminar a leitura por causa de minhas obrigações que não são poucas e também por que jaz em minha cabeceira uma pilha enorme de livros a serem lidos, uns por obrigação outros por puro prazer.

Queria que esse livro de Aldo Lopes ficasse conhecido do resto do Brasil. Queria que o mundo conhecesse este pedaço de história da Paraíba. Mas o mundo prefere uma escritora que reescreve Harry Potter na internet. O mundo prefere um cara que escreve romances levemente pornôs para donas de casa. O Brasil prefere… Deixa pra lá. O ofício literário tem se tornado para mim algo inútil. Acredito que não seja o mesmo para Aldo Lopes e alguns amigos queridos. Eles acreditam no que fazem e se esforçam para divulgar seus escritos.

Aldo Lopes, seu livro é fantástico, bem escrito, ambientado nesse sertão mitológico, tão caro a Ariano Suassuna e meu amigo Raimundo Carrero. Estou feliz de tê-lo comigo e poder usufruir todas as lições que o seu fazer literário nos oferece ao percorrer essas páginas sertanejas. Tenho muito que aprender ainda. Portanto quero compartilhar com os poucos, mas fiéis leitores desta colina o seguinte trecho do livro: “Houve um tempo nos Patos de Princeza em que só se falava na Velha, uma tal que existiu numa época em que o riacho, virgem de nome, ainda não se chamava Riacho-da-Velha. Nem a mata, a serra, a ponte, a gruta, nada até então tinha o seu nome. Embora tudo a ela pertencesse, a Velha naquele tempo era viva e nada havia sucedido do jeito e da forma como se sucedera. E ninguém que se metesse a besta de puxar o fio com que se tecera o foi, mesmo sendo, de forma a não se alterar os destinos que há de ser”.

É o tipo do texto que me inspira a continuar escrevendo, mesmo sabendo que é tudo tão inútil…

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