O salto da pulga ou o pulo do gato?

Sinto-me muitas vezes profundamente entediado quando me flagro a escrever sobre coisas pequenas, tacanhas, sem a devida grandeza que possa elevar as gentes a algo mais do que o nada que naturalmente somos.

Muitas vezes isto acontece porque sou arrastado por uma enxurrada de picuinhas sem eira nem beira, cuja razão de ser se nivela a existência dos piolhos.

Para que servem mesmo? Salvo nos incomodar com suas mordidas miúdas e a coceira que se segue?

Quando isso ocorre e assim que posso, cuido de mudar o foco. Mudemos então! Deixemos de lado as coceiras vazias, as conversas macias, as razões sem sentido e a miudeza dos dias.

Falemos então de algo que eleve, que nos ponha nas asas e nos lance acima onde a vista se perde ante a grandeza da vida. Por que viveríamos se não fosse então para torná-la grande?

Tudo que posso é falar miúdo

Que seja então! Mas do que falaremos? Da vida? Da morte? Do sonho? Do amor? Ou do mundo divino? Tateio e não chego ao que almejo escrever.

Da vida não devo, porque esta mesma dá-se apenas a que seja vivida. Não há que dizer sobre a vida melhor que viver.

Da morte, não ouso! Se esta eleva, tampouco eu sei. Sei o que sabemos: que extingue o sopro de que somos feitos. O mais, eu não sei.

Do sonho talvez seja boa matéria. Mas que matéria há no sonho que mal lhe tocamos? Falasse do sonho, melhor me seria fazer um poema.

Que venha o amor. Falemos portanto. Mas de amor não se fala, pois do amor só cabe dizer “te amo!” E basta. Mais que isso não há. Tudo já foi dito e nada se falou que nos revelasse a grandeza do amor.

Restou-me o divino. Mas divino é tão grande que eu não ousaria. Sequer cabe ele nessas tortas linhas em que me esforço para escrever correto. Não posso. Não devo. Deixo-o aos santos ou doutores de igreja.

Que falo então? Perdoem-me todos, pois constato enfim que tudo que posso é falar miúdo. Tratar dos assuntos comezinhos vários que só nos consome, mas de que não podemos deslindarmo-nos nunca porque são a vida.

É esta a única medida do ser humano: somos o que somos. Reles criaturas que nos vemos maiores porque nos assanhamos com o mísero poder, mas cuja grandeza só vale aos iguais.

Nada disso nos faz melhor que os bichos, quer sejam piolhos, pulgas, percevejos, ou mesmo maiores, que vivam em currais ou soltos, libertos, nas selvas, nos pampas, na vastidão do espaço ou na imensidão dos mares. E acima de nós o céu que nos protege.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo