O samurai e a sombra

CRISTOVÃO TEZZA
FOLHA DE SÃO PAULO

“EM UM breve ensaio dos anos 1930, o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) contrapõe, à estética da claridade do Ocidente, o elogio da sombra: “Precisamente essa luz indireta e difusa é o elemento essencial da beleza”. Ele falava da arquitetura das residências japonesas, mas a mesma percepção está presente na sua literatura, que marca a tensão entre o peso da tradição oriental e a irresistível influência da cultura ocidental.

Na modernidade avassaladora do século 20, será preciso recolocar essa tradição mítica, profundamente hierarquizada e fonte perene de devoção, no horizonte de um indivíduo cada vez mais sem raízes.

A novela “A Vida Secreta do Senhor de Musashi”, publicada agora entre nós junto com o relato autobiográfico “Kuzu”, mostra como Tanizaki preparava o terreno, já naqueles anos 1930, para remapear o espírito da tradição japonesa, que ele defendia ideologicamente, dando-lhe a força de um olhar contemporâneo e transgressor.

A narrativa reconta a vida lendária do samurai Musashi, que realmente viveu no século 16, em um período de guerras civis, e teria sido “o líder mais destemido e cruel do seu tempo”. As aventuras do samurai, que fizeram dele um objeto épico venerável e convencional, típico da tradição, são entretanto perturbadas nas mãos de Tanizaki por dois elementos modernos, um formal e outro temático.

Formalmente, o ponto de vista narrativo é, por convenção, incerto; a partir de duas fontes contraditórias, os escritos de uma certa monja Myôkaku e os relatos de um serviçal chamado Dôami, entramos no mundo da “sombra”, em que a realidade deixa de ser uma imagem plácida e fixa, um ideograma sempre igual a ele mesmo, e se torna a interpretação insegura de quem conta, no seu falso papel de “historiador”.

E, tematicamente, toda a narrativa está embebida de um erotismo escatológico, expressão sombria de forças irracionais, em que prazer físico, honra, tradição e morte são faces de uma mesma pulsão (se é que cabe aqui esse valor psicanalítico). Ainda criança, Musashi se fascina pelas mulheres que lavam e preparam as cabeças decepadas dos guerreiros, e a imagem desse prazer inaugural acaba por conduzir sua vida, num perpétuo jogo de dissimulações. Ele mata o pai de sua amada, e depois se torna cúmplice dela para, por vingança, desfigurar o seu marido, supostamente o assassino, cortando-lhe nariz e orelhas.

A imagem ideologizada com que o Ocidente costuma pintar o exotismo oriental encontra a sua fonte traiçoeira na voz do próprio Tanizaki, que, levando a tradição ao seu limite asfixiante, sem nenhum vestígio da culpa cristã, daria à literatura japonesa moderna uma notável originalidade.”

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