O Sertão são os outros

NO NOVO JORNAL

Ad referendo de Sartre, cujo Inferno é o alvo da frase do título, permito-me à licença do quase plágio. Se bem que não imputo ao Sertão fogo maldito nem que sejam os outros a maldição substituta.

Mas o Sertão foi e continuará sendo impenetrável. Basta ver a tentativa de vários esforços geniais em desvendá-lo para concluir sem muita dificuldade o insucesso da empreitada.

Guimarães Rosa precisou adjetivá-lo na grandeza e desmembrá-lo em veredas para, ao fim da campanha, descobrir que apenas mergulhou no Sertão da linguagem. “Sou um reacionário da palavra”. Não nada que isso.

Euclides da Cunha foi o deslumbrado que se apiedou da desgraça para emprestar uma força imedível ante a fraqueza que o constrangeu e forçou a fuçar na genialidade do texto. Um grito contra a violência oficial, que é a mesma de sempre. Que sempre foi e será da mesma fornalha.

Rui Facó alcançou a explicação do fenômeno, mas reduziu a cognição do ambiente, movido pela disciplina de sua fé marxista.

Câmara Cascudo dá um banho de informação. Do seu próprio informe foi o interesse no cotidiano que o moveu. No campo ou cidade. E dele a decorrência da cultura mergulhada na feitura da vida. Não se arriscou noutra aventura.

Oswaldo Lamartine faz um mapa dos caminhos na crueza da pedra. Seu texto, original e único, é um ferro de ribeira em brasa a marcar o couro cru. Deixando na impressão da leitura um ferro nas ancas, informando ao retirante o dono da rês.

Ariano Suassuna cuida da leveza seca do anti-heroísmo, que revela a sagacidade substituta da força, como meio de enganar a hipocrisia do poder e driblar a moral imoral dos costumes postos e consagrados. É o mealheiro do grande plágio. Não o dolo específico de plagiar esse ou aquele, mas a colheita da oralidade popular; que vai da Ibéria medieval, passa pelas narrativas africanas e se arrancha no Nordeste de cá. Tenda armada na Mesopotâmia entre o São Francisco e o Parnaíba.

A Graciliano Ramos pouco se lhe dá o Sertão cascalho ou cascavel. O que o chama ao feito e o obriga a decifrar é o homem no intestino do Sertão, com o cérebro escravo das tripas. Servo eterno da miséria resignada. E nessa resignação sem saída, sem rebeldia, só resta a valentia contra o nada. Ou contra si mesmo.

Gilberto Freira reserva ao Sertão, na sua obra, uma tipoia na latada. Sua luz alumia a Zona da Mata, no adocicado canavieiro e nas conclusões antropológicas, nem sempre acertadas. Ele afirma que a índia fêmea foi mais importante do que o índio macho na formação do nosso povo. Premissa correta. Mas conclui que isso se deu por conta dos navegantes terem deixado mulheres pudicas na Europa para encontrar aqui fêmeas nuas e machos frios. A conclusão é uma aberração histórica e um equívoco antropológico.

Tal qual no inferno de Sartre, as labaredas do Sertão continuam impenetráveis. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 10 de março de 2014 12:04

    Agora, pra provocar um pouco François, relembrando Guimarães Rosa, o sertão está em toda parte, em cada um de nós e nos outros, here, there, everywhere (agora, os Beatles se encontraram com Euclides e João)

  2. Lívio Oliveira 10 de março de 2014 9:59

    Um ótimo esboço de uma introdução ao Sertão. François é legitimado para tal.

  3. Marcos Silva 10 de março de 2014 7:46

    O texto é inspirado e a imagem não fica atrás. Gosto muito mesmo de Euclides, seu livro OS SERTÕES talvez seja o texto brasileiro que mais me comove.

  4. Anchieta Rolim 9 de março de 2014 11:36

    Massa!

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