O serviço que Emir Sader prestou

Por Leonardo Attuch
ISTOÉ

O que é um autista? Uma pessoa incapaz de desenvolver relações sociais normais e que mergulha num universo próprio, tornando-se alheia à realidade externa.

O sociólogo Emir Sader, que foi demitido antes mesmo de assumir a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, uma autarquia ligada ao Ministério da Cultura, poderia ser enquadrado na categoria. Ainda enxerga o mundo pela lente marxista e aponta maquinações permanentes da direita contra si.

Mas o que o derrubou não foi nenhuma trama ou conspiração. Apenas a língua solta. O sociólogo passou do ponto, ao chamar de “autista” a ministra Ana de Hollanda, que seria sua superior imediata. Na internet, Sader culpou a jornalista, que teria transformado em “on” algo dito em “off” – e que, portanto, não deveria ser publicado. Paciência. Falou demais, caiu.

Ocorre que essa frase em “off” acabou prestando um serviço ao País. Sader perdeu o emprego, que não lhe fará falta, mas contribuiu para explicitar um dos primeiros pontos de retrocesso do governo Dilma – e que ocorre justamente na área cultural. Ana de Hollanda, irmã do compositor Chico Buarque, engavetou a discussão da nova lei de direitos autorais, um debate que já vinha sendo travado havia mais de quatro anos no Minc, tanto nas gestões de Gilberto Gil como de Juca Ferreira.

Uma reforma que combateria regras anacrônicas, que ainda permitem que famílias sejam gigolôs das obras dos artistas e que dá poderes excessivos ao Ecad, o órgão que arrecada direitos autorais no País.

A ministra também suprimiu do site do Minc as licenças CC – para quem não conhece, a sigla designa a organização Creative Commons, que permite a publicação de bens culturais fora das regras de copyright.

O CC oferece aos artistas a possibilidade de compartilhar ao máximo sua produção cultural, explorando outros modelos de negócio. Em vez de arrecadar através da fiscalização do Ecad, fazem mais shows, por exemplo. E quem adere ao CC não criminaliza seu público.

No mundo de hoje, a palavra-chave é compartilhamento. Exatamente por isso, empresas como Facebook e Twitter valem bilhões. E a geração digital, que já nasce sabendo compartilhar vídeos ou arquivos de música, tem grande dificuldade para entender o lobby dos artistas em defesa do direito autoral, no formato tradicional. Fechar os olhos para essa nova realidade é também um sinal de autismo.

O curioso é que isso esteja ocorrendo num governo que, em outras áreas, tem dado grandes incentivos ao livre fluxo de informações. O movimento em defesa do soft-ware livre, por exemplo, é uma das bandeiras do governo Dilma, herdada do antecessor Lula. E vários ministérios já utilizam sistemas abertos, como o Linux.

Na área cultural, não faz sentido remar contra a corrente da liberdade – o que, além de antipático, é também ineficiente. Na era digital, a informação quer ser – e será – livre. Com ou sem o aval da ministra.

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