O Soldado sem Cabeça

{Republicado a pedido do autor}

Por Demétrio Diniz

Na época da Revolta de 35, o prédio da casa do estudante era o quartel da polícia, chamado de quartel da salgadeira, que sofreu um duro ataque dos comunistas. Atirando das balaustradas existentes em frente e com maior poder de fogo, os revoltosos tomaram a guarnição. Alguns militares salvaram-se nadando até a outra margem do Potengi, que corria por trás.

O soldado Juvêncio, que defendia a tropa atirando do andar de cima, tombou baleado. Ao cair no chão, do lado de fora, levantou-se, encostou a mão na parede, e caiu morto. A mancha ensanguentada de sua mão direita pôde ser vista por muito tempo, junto com as grades das janelas retorcidas pelas balas e a marca dos xaboques arrancados das paredes.

O atirador ficou na memória. Era o soldado herói que morreu na defesa dos valores cristãos, conforme constou nas várias ordens do dia, em sucessivas datas comemorativas. Mas bastaram vinte anos para que o percebessem diferentemente. Sempre à meia-noite, no porão da casa do estudante, se temia um fantasma que passava –diziam – com as dragonas, fuzil no ombro, de botas, marchando sem cabeça. Outras vezes ele era visto encurvado, arrastando correntes. O fantasma seria o soldado Juvêncio, que não conseguia deixar o que supunha ser ainda o quartel.

Instalou-se então naquela casa um clima particular, o de quem tem ou não tem medo do fantasma, quem viu ou não viu o soldado, quem escutou ou não a zoada dos ferros se arrastando pelo chão.

Miguelito, que depois entrou para o partido, e, preso, morreu por conta do vidro moído que aos pouquinhos misturaram à sua comida, tinha medo do soldado. Somente entrava no porão na companhia de Tourinho, este um maluco, arrebatado de uma hora para outra com leis de menos e mais valia de Marx, num tempo em que ler “O Manifesto” era decretar a própria cadeia.

Outro que me traz de volta o fantasma, é Cajá. Tinha um relacionamento com Luís Enfermeiro e ouviu o arrastar de correntes na hora em que os dois estavam dentro da mesma rede. A visita infundiu-lhe um sentimento de culpa tal que nunca mais quis saber dessa forma de amor. Os amantes se lastimaram por várias noites quando souberam de sua desistência. Iam para o trapiche do rio, botavam na radiola portátil “Ninguém me Ama”, de Nat “King” Cole, em 78 rotações, e entre suspiros lamentavam perder um pau grande e formoso como o de Cajá, conforme gavavam o dito.

Mas nem todos temiam a assombração ou se deixaram influenciar por ela. Havia os alucinados. Adolescente, Catolé chegava da rua e improvisava um comício debaixo da mangueira. Falava nos temas novos. A exploração dos oprimidos, a igualdade pelo socialismo, e terminava prometendo enforcar nos postes das ruas os generais gorilas. Na exaltação, sem se lembrar que não se enforca quem não tem cabeça, arrematava: “- Não vai escapar ninguém, nem mesmo o soldado fantasma!”

Joca Barbeiro também não tinha medo. No Arpège ouviu um homem bater numa mulher, no quarto vizinho. Diante do choro e dos pedidos de socorro, abriu a porta com um chute e empunhando uma faca interpelou o agressor, mandando que descesse as escadas nu e correndo. Joca aproveitou para levar consigo a mulher do valentão, que se chamava Avani, e era mais bonita que a sibarita que lhe fazia companhia. Durante algum tempo viveu com ela, até que, sarada dos desgostos, bem tratada e havendo concluído um curso de datilografia, o deixou por um magrelo que roubava as velas acendidas em devoção ao padre João Maria.

O encarregado da cantina, Cipriano, era ruim dos bofes. Queria se encontrar com o soldado, lutar na faca com ele, se o tal topasse. Mas a tragédia se deu foi com os irmãos Rômulo e Remo. A rixa começou porque discutiram sobre qual cidade era mais atrasada, se Jucurutu, a terra de Cipriano, ou Mombaça, a dos gêmeos. Envenenou com raticida a vitamina de abacate que eles pediam pela manhã, ao saírem para o colégio. Antes de fugir deixou um colado no azulejo um bilhetede pouco senso: “Quem nasce junto, morre junto.”

Para esses tipos, o fantasma não existia, era invenção dos moradores do porão. Também pudera, eles moravam em cima, de frente para a rua, e, quando tudo se apagava, os quartos eram iluminados pela luz dos postes.

Da janela do porão, vendo o rio, eu fantasiava a travessia dos soldados. Já fazia mais de vinte anos, e uma limpeza do prédio apagara a mancha de sangue na parede. Imaginava a tristeza em desistirem da luta, o desespero da fuga, a chegada no outro lado do Potengi. Supunha-os descansando algumas horas na areia, são e salvos, celebrando depois a vida no mercado da Redinha, com cerveja e ginga, namorando, dançando ao som do pandeiro e da sanfona. Queria vê-los esquecidos da noção de honra, dever, pátria, à puta que os pariu, eram só uns meninos.

Um burburinho vindo do pátio me tira dessas fantasias. O cabo Davi achou em cima do telhado uma coleção russa de livros de História. Tinha-me sido vendida por Valdomiro, um professor velho que dava aulas de História no subúrbio, vestido sempre com um paletó preto puído na gola, juntando, com a venda dos livros, dinheiro para o partido.

O cabo Davi, em plena repressão da ditadura, ia me entregar aos militares. Não aceitou apelo, tinha responsabilidade profissional: “- Os livros são comunistas!”. Pensei logo nas torturas, a prisão com capuz e os choques elétricos. Me levariam do jeito que levaram Adão: “ – Adão Benvindo da Luz?”, “ – Sim, pois não”, “ – Entre no fusca”. Pior: se um deles fosse dado à leitura, o que, para minha sorte, não era comum – o Presidente jactara-se de não ler um livro há vinte anos – mais do que os choques, me arrancariam a língua. Bastava abrir na parte onde o russo dizia que Judas não traiu, que na hora do pega para capar, de passar os romanos na espada, o seu guia e mestre tirou os olhos da terra e elevou-os para o céu. O apóstolo simplesmente não quis trocar as oliveiras e o azeite por um paraíso suposto. “Além de comunista, herege!”, sentenciariam com um “telefone”.

Na mesma manhã atravessei o porão, indo até o rio. Havia um cheiro muito forte de mangaba vindo da cozinha – Natal respirava mangaba, os prédios não tinham ainda matado as mangabeiras de Capim Macio e Ponta Negra –, e de lá intentei a mesma travessia do rio feita pelos soldados de 35. Diferente deles fiquei encalhado nos mangues, dormindo num barco abandonado, de onde só vim sair no dia seguinte, tomando a pé o rumo de João Pessoa.

Nunca mais entrei no prédio do antigo quartel, nem tive notícias do porão. Os companheiros, alguns morreram e outros se dispersaram por consultórios, escritórios e mesas de bar. Acredito que o soldado Juvêncio ainda esteja por lá, arrastando correntes, alimentando-se de ferrugem. Que é também o que tenho feito, nesse ofício de caçador de fantasmas.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchella Monte 6 de Junho de 2012 10:02

    Os contos de Demétrio são sempre inquietantes. Talvez porque, mesmo sendo curtos, conseguem dar grande dimensão existencial às personagens. Até mesmo o sentido plural da palavra personagens foge ao que se convenciona quanto à estrutura dos contos: espaços reduzidos, poucas personagens, pouco espaço. O que temos neste conto é a presença de muitos homens com personalidades distintas e histórias desenhadas a partir de duas situações e dois tempos que se entrelaçam: a conjuntura política que gerou o herói e o fantasma do herói, então apenas fantasma, a mobilizar outros homens em novo e perigoso contexto político. A dor existencial é quase palpável, está presente na rede, no corredor, na procura do amor, no apego a ideologias que parecem tornar a vida maior. Mas são pessoas que se ocupam com fantasmas. A cada um o seu fantasma. Demétrio, felicito-o mais uma vez pelo primor narrativo!

  2. demétrio diniz 6 de Junho de 2012 15:29

    Obrigado Anchella, não é por causa dos elogios não, mas, puxa, como você escreve bem! O conto não chega nem aos pés desta sintética e maravilhosa análise. Parabéns, amiga. Uma brincadeira: fico com medo quando você escreve sobre mim, é que, como no prefácio que você lindamente fez no “Ferrovia”, eu me apago. O prefácio f oi melhor que o livro. Abraços. Demétrio.

  3. Anchella Monte 6 de Junho de 2012 19:27

    Isso não! rsrsrs

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