O sublime kitsch

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

O que ‘A grande beleza’ produz são dissonâncias de sensibilidade, diferenças de avaliação estética, efeitos de envolvimento e de repulsa, menos conscientes e mais difíceis de definir

Não há dúvida de que “A grande beleza”, só pelos efeitos discordantes que provoca, tem um valor de sintoma, dizendo algo sobre perplexidades atuais. E não é que provoque polaridades ideológicas, açulando retóricas de direita e esquerda ou trazendo à tona o indefectível debate entre o correto e o incorreto, como se tornou quase de praxe. O que “A grande beleza” produz são dissonâncias de sensibilidade, diferenças de avaliação estética, efeitos de envolvimento e de repulsa, menos conscientes e mais difíceis de definir. Pois tampouco se trata de uma obra que domine os seus próprios meios de maneira a produzir intencionalmente uma discussão estética. Vejo no filme uma confusão de cenas de decadência explícita misturadas com fausto romano e vislumbres presumidamente poéticos, que impressionam pela sensação de que se está tocando de verdade no vazio que vivemos. Mas isso é feito com um repertório estereotipado, magnificente e muitas vezes surrado e pomposo.

Acho de um mal-entendido atroz que “A grande beleza” ganhe fama como um filme que resgata a poética felliniana nos nossos dias. Sorrentino glosa evidentemente “A doce vida”, onde o protagonista é igualmente um escritor que não escreve livros, enquanto exerce o jornalismo mundano em meio ao niilismo galopante e a orgias no alto escalão social. Nos dois casos, a derrisão da literatura convertida em sensacionalismo jornalístico, inseparável do avanço da publicidade, faz parte da longa história contemporânea das “ilusões perdidas”. “A doce vida” é um inacreditável poema sobre o avanço das ilusões perdidas e sobre a corrosão da inocência. A cena final não deixa de ser um aceno mítico de adeus à menina linda e toda pura da qual o jornalista e escritor falhado se afasta para sempre, separados por um rio que desemboca no mar de onde acabou de ser pescado um ser informe e monstruoso que não erraríamos em chamar de “o contemporâneo”.

O ex-escritor jornalista e desfrutador de “A grande beleza” é um abonado cuja condição social de elite é mal explicada, no filme, como se fizesse parte de um universo que não está em questão. Já a circulação por toda a sociedade (prostitutas pobres, trabalhadores, massas de desesperados por um milagre) é um dos timbres inconfundíveis de “A doce vida”. O episódio do encontro de Marcelo com o pai, o vai-e-vem sem saída, inescapável, na estrada escura e iluminada, com a namorada Ema, os encontros com a aristocrata Anouk Aimée e com a estrela de cinema Anita Ekberg são todos pungentes, verticais, únicos, filmados com uma elegância à toda prova e na qual, por mais que haja elementos insólitos, não há nada que recorra ao efeito pelo efeito.

Em “A grande beleza” as orgias são clichês do clichê, o estereótipo da arte contemporânea como sendo feita de tintas atiradas ao acaso sobre uma tela reaparece pela enésima vez, as referências literárias (Céline, Dostoievski, Breton, Flaubert) parecem se levar a sério mas não a fundo, a anã e a girafa são bizarras, mais que poéticas, e o grande momento poético dos flamingos é mais propriamente espetaculoso. As cenas de cinismo explícito (de como exibir hipocrisia num velório, por exemplo) são, pelo seu exibicionismo, inseparáveis da ostentação cenográfica que as acompanha e do modo suntuoso de filmar Roma, mais para Peter Greenaway do que para Fellini. O paradigma é outro. Fellini elevou o kitsch sentimental ao sublime. “A grande beleza” reduz o sublime ao kitsch.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Denise Araújo 11 de Março de 2014 5:18

    Achei o filme muito pretensioso, além de tornar-se cansativo para mim depois de certo ponto. Diria-o até caótico, porém é certo que uma linda Roma e tantas imagens poéticas, bem como referências eruditas não podem simplesmente ir para o limbo. Para os amantes da Literatura, penso ser bastante interessante perscrutar o universo de um escritor cheio de regalias, visto que aclamado após um elogiado best-seller.

  2. Antonino Condorelli 11 de Março de 2014 10:43

    “A GRANDE BELEZA” ESTÁ MAIS PARA “O GRANDE ENGODO”

    Não o achei um filme marcante, daqueles destinados a se tornarem imprescindíveis. Me pareceu mais uma colcha de retalhos, essencialmente mal costurada, de clichês estéticos e temáticos sobre a Itália, elevando uma Roma a meio caminho entre folheto turístico e caricatura felliniana a emblema par excellance desse concentrado de lugares comuns: uma varanda com vista no Coliseu servindo de palco para noites boêmias regadas a bebida, sexo e vazio existencial; suntuosos palácios antigos repletos de estátuas, fontes, igrejas, parque constelados de ruínas de um passado que – claro! – continua estendendo sua sombra gigante e opressiva sobre o presente (o que é, afinal, a Itália para a maioria dos estrangeiros se não ruínas eternas de um glorioso passado?); um desfile de personagens grotescos, caricatos, estéreis sombras do mundo de Fellini sem nada de novo e autêntico a acrescentar debruçados sobre o vazio de uma existência mundana entremeada de tédio, a um só tempo deprimente e exuberante; a inevitável Igreja Católica com sua hipocrisia, seu apreço por riqueza e poder, suas hostes de cardeais frívolos e cínicos e suas santas pobres e de fé autêntica que resgatam os verdadeiros valores da cristandade.

    Acrescente-se uma boa dose de cenas inutilmente “fellinianas” – só na superfície, sem chegar a sequer roçar o âmago autêntico, visceral do universo do mestre – totalmente desnecessárias no contexto da narrativa e teremos um coquetel perfeito para o Oscar.

    Enfim, um longa “para americano (e brasileiro, etc.) ver”, um produto sistemática e friamente calculado para agradar o paladar cinematográfico internacional, especialmente norte-americano, e para ganhar a cobiçada estatueta. Só não é uma obra totalmente descartável pela bela interpretação de Sabrina Ferilli, pela razoável caracterização do personagem central – o desencantado, cínico e boêmio ex-escritor Jep Gambardella – feita por Toni Servillo, e pela genialidade de alguns diálogos e monólogos.

    Logo após a exibição terminar, a frase “è solo un trucco” (é só uma ilusão) – com a qual o protagonista encerra o longa – me perece uma perfeita síntese da obra.

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