O tal dano da greve

Por Pablo Capistrano

Tem danos que vem com a ausência. Tem outros que chegam mesmo na presença. Lembro de ter ouvido uma história em Santa Cruz, sobre uma aluna recém concluinte do ensino médio que chorou diante de uma prova de vestibular da UFRN.

Quando ela abriu a prova de Física entrou em pânico. Nada daquele vasto universo de conceitos exóticos e intrincadas ideias, transmutáveis em fórmulas matemáticas, fazia sentido para ela. A garota havia passado todo o ensino médio regularmente matriculada na rede pública de ensino do estado do Rio Grande do Norte e havia estudado apenas um assunto da disciplina de Física.

Um único, inexpugnável, irredutível, tema. Uma única e absoluta problemática. Uma só grande questão desde que Galileu, Copernico, Newton e Heisenberg pisaram sobre a terra. Um mesmo tópico, alçado a tal categoria de abrangência, que parecia resumir tudo o que os físicos construíram em quase três mil anos de ciência ocidental. A garota havia passado o ensino médio estudando Movimento Retilíneo Uniforme e Movimento Uniformemente Variado, nada mais, nada menos.

Um ex-aluno, também recém formado no ensino médio, fazia as vezes de professor, ocupando um espaço vago na sala de aula, tentando, com seu esforço pessoal, suprir as carências daquela turma. Como o rapaz, sem perspectiva de uma graduação na área de Física, só dominava esse tema, só tinha condições de ensinar esse único tópico.

A despeito de ter ou não acontecido desta forma, essa surrealista história nos alerta para um dado muito evidente: o dano pedagógico não se cristaliza apenas quando a escola está fechada, com seus servidores mobilizados por uma greve.

O dano pedagógico também se processa quando as portas da escola estão abertas e se manifesta costumeiramente em uma carência, em uma ausência, em uma desconcertante ilusão: a ideia de que o fato de o aluno estar em sala de aula é razão necessária e suficiente para que a qualidade do ensino se manifeste.

Esse delírio ontológico nos faz pensar que só o fato do aluno estar diante de um professor já exime o Estado de suas responsabilidades em empreender políticas reais, efetivas de valorização da educação.

Faz tempo que o Estado potiguar se auto alforriou da obrigação de implementar uma política educacional de qualidade. Faz tempo que não há interesse, por parte do poder público em pôr em uma mesma sala de aula o filho do juiz e o filho da empregada doméstica. Faz muito tempo, que setores mais influentes da sociedade brasileira, se acostumaram a pensar que o espaço da escola pública é um espaço de uma educação pobre para o povo pobre.

Esse é um modo perverso de manter aquela velha ordem aristocrática de poder social, na qual filhos de famílias bem dotadas economicamente tem a concorrência por posições sociais diminuída em função do desnível, do descompasso, entre a educação que lhes é oferecida e a educação que se oferece para os filhos dos empregados de seus pais.

Não é a greve, amigo velho, que produz o verdadeiro dano ao aluno da escola pública potiguar. Não são os professores, cansados de serem tratados como cidadãos de segunda classe, lançados pela lógica da exclusão na base da cadeia alimentar das profissões, que criam o dano real aos alunos desse estado. É essa sede, amigo velho, essa carência de cuidado, que nasce da omissão de uma sociedade que parece não estar muito a fim de levar a sério a educação de seus filhos. Uma sociedade que elege a muitas décadas governos produtores de greves, sucateadores de sonhos, moedores das esperanças de gerações e gerações de alunos potiguares.

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Tânia Costa 25 de julho de 2011 17:39

    Isso mesmo Aparecida!
    Sua análise é extremamente lúcida e retrata a realidade educacional.
    É fato também que os avanços que ocorreram na só na educação, mas para os trabalhadores em geral não ocorreram senão através das lutas sindicais.

    Abraços,

  2. Aparecida Fernandes 24 de julho de 2011 22:55

    Caros Alex, Tânia, Anchella, Marcos: estou com vocês.
    Sou professora, hoje, do IFRN – a excessão da educação pública que funciona, como lembrou vc, MArcos Silva, mas já fui professora da rede municipal. No Estado, trabalhei por contrato temporário. E por 10 anos trabalhei em escolas privadas – e faculdades privadas também. Aliás, somos – eu e Pablo – amigos afinados inclusive por partilhar destes dez anos trabalhando juntos na rede privada. E passamos no mesmo concurso para professores do IF. Por isso, posso afirmar que, seja nas esferas públicas municipal ou estadual ou na esfera privada, quem opera os milagres da educação são os professores. A depender das “políticas” pedagógicas de gestões escolares, com raras excessões, a educação no RN talvez estivesse ainda mais próxima da escala zero nos índices que medem o desempenho educacional.
    São os professores que pensam os projetos, que discutem as abordagens de ensino, que executam atividades para além das salas de aula; mas que também são engolidos pela falta de estrutura na rede pública ou pelo cerceamento de sua prática na rede privada.
    Enquanto os governos se desvencilham da obrigação de investir em educação e traçar as políticas que dizem respeito a carreira, salário etc., muitos donos ou gestores de escolas privadas dão seus jeitos de burlar a CLT e sonegar muitos dos direitos estabelecidos para os docentes; dão-se ao direito de passar anos sem reajustar valor da hora aula enquanto os preços das mensalidades dos alunos aumentam; acordos coletivos muitas vezes não são cumpridos.
    Ficando só na esfera pública, ressalte-se que todos os avanços – embora mínimos – que ocorreram na educação não se deram por meio das boas intenções dos governos, mas por meio das lutas sindicais. Os momentos de acirramento dos professores se deram, muitas vezes, para evitar que a realidade da escola pública ficasse pior do que já estava.
    Se não houvesse essa organização dos professores na sua entidade de classe, o quadro que vislumbraríamos hoje, na educação, seria muito, mas muito mais tenebroso!

  3. Marcos Silva 24 de julho de 2011 14:42

    É bom não haver ingenuidade em relação à escola privada. Com as exceções de praxe (talvez paralelas às exceções de praxe na escola pública: escolas técnicas federais, uma ou outra estadual ou municipal que opera milagres educacionais com os parcos recursos de que dispõem), as escolas privadas também são muito ruins.
    Quanto a acusar docentes e sindicatos pelo caos, lembro que os órgãos públicos (e também os sindicatos patronais privados) usam esse argumento para não pagarem decentemente aos professores. Já ouvi gente metida a séria dizer que aumentar salário não resolve nada. Como se pagar mal resolvesse algo! Com certeza, pagar mal serve para aumentar lucros privados e verbas públicas encaminhadas para outros fins.
    Retórica é bom mas o bom retor precisa ter algum compromisso com ética e lógica. Sem isso, a sofística impera.

  4. Anchella Monte 24 de julho de 2011 12:16

    Concordo totalmente com Pablo, não é só colocar o professor em sala de aula que resolve o problema da educação. Por estar em sala de aula todos os dias, na rede municipal, sofrendo, junto com os alunos, as diversas carências físicas e pedagógicas pelas quais passa a escola pública, eternamente indignada com a responsabilidade atribuída ao professor de mudar a realidade educacional brasileira (um problema de todos, sem dúvida), com a consciência de quem trabalha com afinco e cuidado (e vê seus colegas fazendo o mesmo), faço minhas as palavras do colega de profissão. E peço espaço para encaminhar trecho do artigo A greve, o judiciário e o professor jumentinho, do professor Dikson de Medeiros Sales, publicado em um dos nossos periódicos, cujo conteúdo reforça a visão distorcida/ preconceituosa que tantos têm do papel do professor. Ele diz?

    “Mas o que mais “me doeu” como professor no momento da decretação da ilegalidade temporal da greve em 13/07/2011, não foi a decretação em si, mas o “nível intelectual” de alguns dos desembargadores titulares e convocados “indicados por notório saber jurídico”, ou notória política. Um deles, depois da exposição do relator, pasmem, disse jocosamente sua 1ª. pérola: – “desde menino sou contra greve”. Meu Deus, esse homem é um juiz e desembargador mesmo? Como um juiz pode dizer abertamente que é contra as leis e Constituição? Com essa declaração, está em suspeição para o resto da carreira quando o assunto for greve. […]A mesma “Sua Excelência, o Desembargador” comparou, pasmem, os professores a “jumentinhos” e pronunciou a 2ª. pérola do orgulho intelectual do judiciário potiguar de 2011 para justificar sua opinião (solitária, graças a Deus) do não pagamento aos professores. Aí vai: – “se você não dá milho pro jumentinho todo dia, ele não dá carga”.

    Anchella Monte

  5. Tânia Costa 24 de julho de 2011 11:22

    A pior ausência é a que se manifesta na presença!

    Texto elucidativo, convite à reflexão.
    É preciso mais que universalizar o acesso ao ensino público e gratuito. É preciso imprimir-lhe qualidade e permanência do aluno.
    O texto de Pablo me remete a uma história contada por Madalena Freire no início da sua carreira como professora e psicopedagoga na educação infantil.
    Num rápido resumo, a história se passa mais ou menos assim se não me falha a memória:

    Madalena é professora de Eliane, cinco anos, oriunda de uma favela da periferia de São Paulo.
    Eliane vinha à escola sempre desgrenhada e suja. Madalena conta que seu olhar não pausava em nada, era solto, vago.
    Eliane só queria fazer suas atividades no chão, perto do lixo. Não havia jeito de Eliane sentar à mesa.
    Madalena, então, decide fazer as atividades no espaço do chão na tentativa de chegar à Eliane.
    Introduzido o papel e o lápis, veio à tábua sobre o chão. E nada de Eliane sentar à mesa.
    Ao terminar suas atividades, Eliane sempre as amassava e as jogava no lixo.
    Um dia, Madalena percebendo que Eliane iria jogar à atividade no lixo, detém sua mão em pleno ar e lhe diz: _ você quer Eliane que eu lhe jogue no lixo também?
    Pela primeira vez, Eliane pousou os olhos sobre alguém e falou: _você sabia que quando eu nasci minha mãe me jogou no lixo e foi minha avó que me tirou?
    Madalena conta que desmoronou nessa hora e falou algo do tipo: É Eliane, mãe também erra, mas que bom que você teve sua avó… Mas, hoje você está tendo oportunidade de nascer de novo. Retirou um sabonete que por ventura havia em sua bolsa e falou para ela vir no dia seguinte tomada banho, parida novamente.
    Madalena sai da escola e desanda a chorar em seu carro, à época um fusca velho. Cheia de incertezas, se indaga sobre o que fez: se Eliane irá retornar no dia seguinte, meu Deus o que eu fiz, etc, etc…
    No dia seguinte, Madalena chega cedo à escola e para sua surpresa, Eliane entra limpa, penteada e cheirosa (acho que o cheirosa é acréscimo meu!), dirigindo-se a ela, pergunta:
    “Professora, qual é o meu lugar na mesa?”

    Quem poderá responder quantas milhares de Eliane existem por aí?

    Na escola, fala-se do professor e do aluno como pessoas. Mas até que ponto eles são sujeitos concretos ou lugares no discurso?

    Existe uma violência simbólica na sociedade e que são reproduzidas na escola. Não estou me referindo a regras, punições, provas, testes,… Violência porque se declarando democrática, mas o que de fato reproduz são as desigualdades da sociedade.

  6. Alex de Souza 24 de julho de 2011 10:57

    Interessante é, Cortez, imputar a responsabilidade ao sindicato. Que eu saiba, quem desenvolve e implementa políticas educacionais é o poder executivo. Quarenta anos de bananas e ladrões destruindo geração após outra. E de inocentes úteis para tergiversar.

  7. Luiz Gonzaga Cortez 24 de julho de 2011 8:59

    È isso aí, professor Pablo Capistrano. você está certissimo, sua análise é quase perfeita e integral. A realidade da educação pública potiguar é essa mesma.
    Agora, uma pergunta: você já ouviu falar que os nossos sindicalistas da educação pública do RN tenham, alguma vez, procurado saber como são os currículos das escolas do Estado, já fizeram alguma viagem ao interior para ouvir os alunos, os professores e funcionários para ouví-los sobre curriculos? Será que o sindicato dos professores tem se preocupado com os currículos das escolas públicas estaduais e municipais?
    Luiz Gonzaga Cortez.

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