O teólogo marxista

Por Antonio Cicero
FSP

Em suma, a revolução que esses novos teólogos propõem nada tem, de fato, a ver com o marxismo

O PROFESSOR de teoria literária Terry Eagleton, da Universidade de Lancaster, que se considera marxista, declarou há poucos dias que “Deus volta ao debate intelectual de duas maneiras: há uma polêmica contra ele, por um lado, e, por outro, um aproveitamento de recursos teológicos por parte de uma série de pensadores de esquerda declaradamente ateístas”.

Segundo Eagleton, o trabalho teológico mais importante de hoje está sendo feito por ateístas de esquerda. Isso se explica porque, “quando a esquerda passa por tempos difíceis, não pode se dar ao luxo de olhar os dentes do cavalo, como se diz. E, se descobre que algumas ideias teológicas podem ser úteis, então, por que não?”.

Nesse contexto, Eagleton cita Habermas, Badiou, Agamben, Zizek.

Pelo jeito, os tempos estão mesmo bicudos para os marxistas. Houve época em que eles jamais sacrificariam um princípio tendo em vista a solução de uma dificuldade conjuntural. Ora, o ateísmo e o materialismo se encontravam, para Marx, entre as mais fundamentais questões de princípio. Para ele, a crítica da religião era a condição sine qua non de toda crítica.

Agora é diferente. Primeiro, os marxistas à la Eagleton julgam a utilidade de uma ideia -e não mais apenas a de uma tática- como critério para adotá-la: isto é, aderiram ao pragmatismo epistemológico; segundo, consideram úteis as ideias teológicas; terceiro, consideram fazer o trabalho teológico mais importante de hoje.

Não deixa de ser curioso, pois “ateísta” é quem não acredita em Deus; e “teologia” é a ciência que trata de Deus. Como pode ser útil tratar-se de alguma coisa em que não se acredita, a menos que seja para negá-la? Como é possível ignorar que quem faz trabalho teológico é necessariamente teísta, ou que quem é ateísta não faz trabalho teológico?

Talvez eu não esteja sendo bastante “dialético”, ao dizer essas coisas… Eles, porém, não estão sendo nada materialistas, ao se dedicarem ao “trabalho teológico mais importante de hoje”.

Ora, abandonar o materialismo é necessariamente abandonar o MATERIALISMO dialético, isto é, a filosofia marxista, e abandonar o MATERIALISMO histórico, que pretende ser a ciência marxista da história. Logo, esses soi-disant marxistas abandonaram de fato o marxismo, mas não têm (exceto, sem dúvida, nos confessionário dos seus párocos) coragem de confessá-lo.

Mas creio ser possível entender por que “marxistas” como Terry Eagleton e Alain Badiou, que, segundo Eagleton, é “o maior filósofo francês vivo”, abandonando, na prática, o materialismo, pretendem tornar-se teólogos. É que, antes de serem “marxistas”, eles são “revolucionários”, ou melhor, apocalípticos.

Recentemente a revista “Serrote” publicou um capítulo do livro “Razão, Fé e Revolução”, de Eagleton. Em determinado ponto, ele tenta explicar o pensamento de Badiou.

“Para ele, a fé consiste numa lealdade tenaz ao que chama de “evento” -um acontecimento absolutamente original que está desconjuntado do fluxo suave da história e que é inominável e inapreensível no contexto em que ocorre. Verdade é o que corta na transversal da fibra do mundo, rompendo com uma revelação mais antiga e fundando uma realidade radicalmente nova […]. Os eventos citados por Badiou são um tipo de impossibilidade quando medidos por nossos padrões usuais de normalidade.”

Diga-se a verdade: são uma impossibilidade quando medidos pelos padrões universais da RACIONALIDADE. Em suma, a revolução que esses novos teólogos propõe nada tem, de fato, a ver com o marxismo, que se pretendia o suprassumo da racionalidade, pois ela consiste num milagre. “Milagres ocorrem sim”, diz Slavj Zizek, também explicando o pensamento teológico do papa Badiou.

Segundo esse modo de pensar, a verdade só é discernível pelos membros da nova comunidade de crentes. A rigor, não passa, portanto, de uma crença. Comentando – e aprovando- tais teses, Zizek especula que a verdadeira fidelidade ao acontecimento é “dogmática” no sentido preciso de ser fé incondicional, de ser uma atitude que não procura boas razões e que, por essa razão mesma, não pode ser refutada por nenhuma “argumentação”.

Ora, ocorre que aquilo que se imuniza contra a razão é exatamente o irracional. Em suma, trata-se do mais puro irracionalismo religioso.

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