O trem do Carrasco

O trem se fazia anunciar ainda longe, quando passava nas Gangorras, uma área pouco antes da cidade onde havia tanques de pedras, cercados de muito mato, e para onde as lavadeiras acorriam, quando era tempos de chuva. Era lá, nas Gangorras, quando ainda não era a cidade, que o maquinista começava a acionar o apito do trem, fiuí, fiuí, fiuííí… 

Era,  então, sob o som agudo dos apitos que as pessoas que se encontravam na estação começavam a se movimentar. Levantavam-se, andavam de um lado para o outro, conversavam com outras pessoas sobre coisas que eu não sabia o que era, mas que me deixavam muito curiosa. E quanto mais se aproximava o trem, mais longos e mais altos ficavam os apitos, fiuí, fiuí, fiuííí… E quanto mais se aproximava, mais alto também ficava um outro ruído característico,  vuco-vuco, vuco-vuco, vuco-vuco… Em poucos instantes já era possível enxergar a grande cobra de ferro fazendo a curva, a algumas centenas de metro da estação.

Eu não morava perto da estação, mas vi muitas vezes o trem chegar ou partir. Algumas vezes eu estava com minha mãe, no Açude Velho, que ficava próximo da estação, mas não tão próximo para que pudesse detalhes da máquina, as pessoas na plataforma.  Noutras vezes acontecia de eu estar com meu pai, andando pelos arredores da estação, quase sempre a caminho das vazantes do Açude Novo, para ajudá-lo nos cuidados das plantações que havia por lá. Nestas vezes eu podia ver o trem mais de perto. 

O que mais me encantava era a locomotiva, preta e de formas arredondadas, puxando os vagões de passageiros e de cargas que compunham o conjunto de comboios. Em cima, uma chaminé soltava a fumaça da máquina a vapor. Embaixo, abrindo caminho, uma espécie de pente de ferro que avançava ligeiro sobre os trilhos, limpando o que encontrava pela frente. Parecia aqueles trens que a gente vê nos filmes, naquelas fitas que contam histórias antigas sobre a guerra da Alemanha e o transporte de judeus. 

Era quando parava o movimento da locomotiva que aumentava o movimento das pessoas na plataforma. Gente da companhia ultimando os preparativos para o embarque e desembarque dos passageiros e cargas.  Pessoas chegando e sendo recebidas por outras pessoas que se moviam frenéticas, deixando transparecer uma ansiedade nos gestos, nos olhos. Pessoas partindo, se despedindo de outras pessoas que ficavam imóveis, emudecidas. Se para uns acabava uma ansiosa espera, para outros começava uma saudosa espera.  Eu sempre achava que quem partia, voltaria um dia.

No meio de tudo abraços e beijos, sorrisos e soluços; a alegria de quem chegava com os abraços de boas-vindas; a alegria ou a tristeza de quem partia, os acenos de adeus.  Uma estação é um lugar onde se percebe muitas formas de sentimentos. Um lugar de muitas emoções.

Quando o meu pai por algum motivo parava na estação, para cumprimentar uma ou outra pessoa, para fazer a entrega de alguma encomenda, aí eu podia até ver a partida da locomotiva. Eu gostava de ver quando a máquina começava aquele movimento lento para logo depois ganhar rapidez e avançar célere, engolindo os trilhos onde brincavam os meninos do bairro do Carrasco. Talvez o bairro tivesse esse nome, Carrasco, porque o trem, que o atravessava em toda sua extensão, representasse algum perigo para as pessoas mais desatentas, principalmente para as crianças. 

De onde eu morava, no bairro do Alto da Alegria, também dava para ver o trem, mas de muito longe. Não dava para observar nenhum detalhe, nem ouvir o barulho das rodas sobre os trilhos, nem a tração dos ferros naquele movimento de leva-e-trás, o vuco-vuco. Nada disso a gente escutava. Só o apito. Mesmo assim, sempre que a cobra de ferro apitava eu corria… e ficava olhando, olhando… até perdê-la de vista.Era depois do Carrasco que o trem fazia uma nova curva e entrava no meio do mato.  Era, então, onde a vegetação ficava mais alta e mais espessa, que eu não via mais o trem. Depois do Carrasco, quando já não era mais a cidade.

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