O triunfo da conspiração

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, divulgaram, no dia 30 de julho, a data de início da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Será a partir do dia 29 de agosto. Na terça-feira, dia 02 de agosto, depois de ter se reunido com a cúpula do PMDB e com o presidente interino, o presidente do Senado anunciou que quer antecipar o início do julgamento no plenário dia 25 ou 26. A mudança da data certamente não vai alterar os votos dos senadores.

A votação no Senado será o desfecho do golpe, não apenas contra o governo Dilma Rousseff, mas também contra a democracia. A decisão já foi tomada com antecipação, tal como ocorreu na Câmara dos Deputados. É o triunfo de um enorme complô da direita, da oposição e da mídia hegemônica, contando com o apoio de setores do Judiciário.

Há muitos elementos para se analisar nesse processo. Um deles é o papel fundamental dos meios de comunicação. No artigo “As quatro famílias que decidiram derrubar um governo democrático”, Mauro Lopes analisa a forma como as quatro famílias que controlam os meios de comunicação no país decidiram destituir o governo Dilma. Juntaram-se nessa manobra os Marinho (organizações Globo), os Civita (grupo Abril/Veja), os Frias (grupo Folha) e os Mesquita (grupo Estado), que se uniram a outros que o autor chama de “segunda linha”, como os Alzugaray (revista Istoé) e os Saad (Rede Bandeirantes), além, claro, nos estados, dos apoiadores com seus jornais, programas de rádio e televisão, que compuseram a eficiente máquina de propaganda, criando assim o ambiente favorável ao golpe junto à opinião pública.

Mauro Lopes afirma que, no conjunto, os veículos de comunicação deixaram de fazer jornalismo para tornar-se uma máquina de propaganda partidária. Os exemplos são muitos. Tome-se o jornal O Globo, cuja cobertura não revela qualquer surpresa. No artigo “Dois pesos, duas medidas” (ou quantas forem necessárias), ao analisar a cobertura do início dos governos de Dilma Rousseff e do interino Michel Temer, Giovana Teodoro mostra como foram diferentes, “O primeiro dia do segundo mandato do governo Dilma e o primeiro dia do governo interino de Michel Temer foram datas carregadas de diagnósticos e expectativas. Como já é de costume, a grande mídia brasileira não somente reportou esse cenário como também reafirmou seu já reiterado papel de arauto dos “rumos da economia” do País”. O Jornal O Globo publicou, no dia 1º de janeiro de 2015, o editorial “Margem de erro para Dilma ficou estreita” e, no dia 13 de maio de 2016, por ocasião da posse de Temer, publicou um editorial intitulado “Otimismo com o novo tom do planalto”.

Para Giovana Teodoro “Se o posicionamento do jornal fica evidente a partir da mera oposição dos termos escolhidos para o título de cada um dos editoriais, associando ‘margem de erro estreita’ ao governo Dilma e ‘otimismo’ ao governo Temer, a análise dos textos demonstra a opção deliberada d’O Globo por termos que estabelecem, de um lado, a tempestade para as perspectivas do cenário econômico no segundo mandato de Dilma e, de outro, a bonança para um governo Temer”.

Enfim, fica claro, desde o início do governo Temer, o apoio do jornal, apresentando o interino como um homem de muitos “predicados” e, entre suas muitas qualidades, o bom “trânsito” no Congresso Nacional. Mais recentemente, em consonância com setores do governo, em editorial no dia 24 de julho de 2016, o jornal defendeu a privatização das universidades públicas como solução para resolver a crise fiscal (“Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito”).

É essa mídia, bem representada, entre outros, pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, que dá apoio à agenda conservadora do governo Temer.

Essa agenda está expressa no documento intitulado “Uma ponte para o futuro”. Na realidade, trata-se, como mostra Leda Paulani de uma “ponte para o abismo”. Para ela, essa ponte, “agora em construção pelo golpista Temer com auxilio dos tucanos”, não mira apenas os programas sociais e políticas públicas dos governos de Lula e Dilma Rousseff, mas busca principalmente destruir a Constituição de 1988 e os direitos sociais que ela garante.

São medidas que evidenciam claramente o conteúdo neoliberal da agenda do governo interino, como a desregulamentação geral da economia, a reforma da previdência e da Consolidação das Leis do Trabalho – com o argumento de conceder maior liberdade às negociações trabalhistas – a redução de recursos para programas educacionais como o Pronatec e o Fies, corte de gastos em saúde e educação e financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida, a extinção de programas como Ciência sem Fronteiras, enfim, o desmanche dos programas sociais dos governos petistas.

Diante da consumação do golpe, o que fazer? Até a votação no Senado, a única possibilidade de reverter alguns votos seria a pressão popular, sob a forma de grandes manifestações. Nada parece indicar que isso vai ocorrer e, sem isso, o êxito do golpe está garantido. Como disse a presidente Dilma Rousseff em recente entrevista, “Esse processo golpista pode trazer consequência imprevisíveis”, e a pior delas talvez seja a aceitação passiva, a incapacidade de mobilização popular e da oposição ao governo Temer para impedir o desmonte do Estado. No diagnóstico de Aldo Fornazieri no artigo “A inviabilidade do Brasil e a derrota da sociedade”, as perspectivas não são animadoras: “Os movimentos sociais e populares que lutaram e lutam em defesa da democracia e contra o golpe também estão sendo derrotados. Alguns já buscam um modo de acomodação com o novo estado de coisas do governo Temer. Os partidos de esquerda estão enredados na sua trágica incompetência. Os que lutam e olham o futuro a partir da perspectiva da sociedade são poucos e não têm uma representação e um enraizamento nacional e nem um projeto de refundação do Brasil”.

Em meio a uma descrença generalizada nos partidos, nos políticos e no Congresso Nacional, o desafio consiste em mobilizar a população contra os retrocessos e unir à esquerda, tarefa sempre difícil. Como diz André Singer, “Para barrar retrocessos, o sectarismo precisa ser considerado pecado mortal”. E destaca a necessidade da formação de uma Frente Ampla (“democrática e republicana”) que “precisa ser unificada em torno da questão da democracia, isto é, reunir todos aqueles que são a favor da democracia”. Conseguiremos?

Homero de Oliveira Costa – professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.

Professor-doutor de Ciência Política da UFRN, é autor, entre outros, de “ A Reforma Política no Brasil e Outros Ensaios”, “Crise dos partidos: democracia e reforma política no Brasil ” e “A “Insurreição Comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia”. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Luis Sávio Dantas 6 de Agosto de 2016 9:44

    O governo usurpador do Sr. Temer, no quesito golpe, poder ser definido com uma frase: tudo a temer. Como disse o mestre Homero, todas as conquistas sociais, e principalmente as que se referem às vinculações das receitas da união à programas de saúde e educação, estarão perdidas, quando forem desvinculadas; e isso jogará nossas “defesas” sociais num abismo cruel, pois a partir do golpe suas receitas serão guiadas por outros critérios, e não mais serão compulsórias. O golpista Michel Temer, não tem vergonha na cara para não assumir um papel desumano, de um Juscelino ao contrário, enquanto aquele queria construir 50 anos em 5, esse tiranete bufão, quer destruir 20 anos em 2.

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