O Trump e Biden que há em mim

Há uma semana esperava ansioso pelo espetáculo. Comprei até milho de pipoca. O evento trataria de um assunto sério mas eu já antecipava que seria, na verdade, um show trash. Secretamente pressentia o riso inevitável que geralmente me visita ao presenciar cenas bizarras e absurdas de um confronto baixo de oponentes. Como em um delírio consciente, eliminava o trágico da realidade e do que realmente estava em jogo no encontro que estava prestes a acontecer.

Sabia que do conforto da minha sala de estar tudo pareceria seguro. Certamente, a tela de TV iria me oferecer espaço suficiente para me distanciar da dureza real dos fatos e apenas ver tudo como um entretenimento. As gargalhadas, que antecipava acontecerem durante o evento, já quase nem se continham e me faziam cócegas.

O evento, ao qual me refiro foi o primeiro debate presidencial americano entre o “rei trash” Donald Trump, e o “dorminhoco” Joe Biden (apelido dado ao mesmo por Trump). O que se viu durante uma hora e meia me causou desconforto. Trump veio preparado para atacar (nenhuma surpresa aqui).

Através de constantes interrupções, insultos, comunicação rápida e caótica o seu ataque parecia ter o objetivo de desnortear o pensamento e a expressão de Joe Biden.

Este, por sua vez, não conseguia terminar frases, desorientado pelo constante barulho que ladrava mentiras e pensamentos simplistas em todas as direções.

Trump vociferava até mesmo quando precisava se defender. Como diria o clichê, a melhor defesa é o ataque. Mas será mesmo? Enquanto mascava minha pipoca as gargalhadas guardadas no meu interior pareciam murchar. O show era deprimente. Trump se esgoelava enquanto Joe Biden tentava elevar a voz com uma certa fragilidade e manter seu pensamento coerente.

Foi então que algo aconteceu e me levou a territórios inesperados. Comecei a reconhecer naquele embate traços dos debates que se passam dentro de nós.

Debate na TV espelha nosso diálogo interior

Ilustração: John White

Se adentrarmos um pouco no caminho da auto-observação, perceberemos em nós os mesmos elementos antagonistas e moderadores. Assim como no debate eleitoral, estamos em uma constante disputa entre forças internas, e também temos a consciência moderadora que regulamenta o embate entre estas pulsões.

No nosso íntimo, digamos assim, bate-bocas se passam, muitas vezes de forma calorosa, e através de uma intervenção, bem ou mal sucedida, da consciência moderadora, chegamos a uma conclusão que orientará nossa ação conseguinte.

Este entendimento traz um pouco de luz ao nosso processo de decisão, agora se olharmos mais especificamente para os polos em conflitos em nós, perceberemos em um deles a presença da instância repressora, censora, inibidora.

O Trump e o Biden em mim saúdam o Trump e o Biden em você

Trump, da forma que atuou no debate, representa, a um nível intrapsíquico, o crítico interior, ou usando aqui um termo da Terapia de Aceitação e Compromisso, o Ditador Interior. Este é um aspecto nosso que se coloca como superior, no sentido de que sabe o que é melhor, que diz ter a verdade completa sobre os fatos, que diz ter o saber, o conhecimento, e o poder de como agir, e que estabelece sem discussão o que deve ser feito.

Fotografia: Melina Mara

Esta voz muitas vezes se comunica de forma acelerada, apressada, e não oferece espaço para o outro. Ela é carregada de uma inevitável arrogância. Como tudo sabe, não está interessada em ouvir nem está interessada em oferecer uma oportunidade de diálogo.

O Ditador Interior argumenta sobre como as coisas devem ser feitas, pede urgência, é extremista (tudo ou nada), e simplista pois deixa de lado complexidades das circunstâncias do momento presente se fixando em experiências passadas, e assim, exclui importante informação a ser considerada advindas das condições da realidade atual.

Esta voz tão típica de pessoas cuja história a tornaram duras e desprovidas de empatia se apresenta no íntimo de cada um de nós em maior ou menor grau. Alguns de nós somos tão constantemente bombardeados por esta voz que terminamos por nos identificar com a mesma, e passamos a considerá-la nosso pensamento, ou seja nos fundimos com a crítica rígida. Durante o debate Trump belamente exemplificou esta voz corrosiva ao lidar com o seu oponente, Biden.

Biden em seu conflito com Trump, se viu atacado por esta comunicação impositiva e surpreendentemente, escolheu o caminho mais difícil e sensato.

Por exemplo, em meio a um bombardeio verborrágico, Joe Biden já quase prestes a se calar pela desistência em não ser ouvido pelo seu oponente, se direcionou para a câmera e disse: “Nada disso que ele fala importa. Tudo isto é mentira. O que importa é que você vote. Você tem este poder em suas mãos.” (o voto não é obrigatório nos EUA).

Naquele momento, e em vários outros de similar qualidade, Biden foi capaz de se desengajar da fala alta e incessante de Trump, e através do silêncio interior, se centrar e se conectar com o que realmente importa. 

Foi aí que então, Trump em mais uma tentativa de desestabilizar seu adversário lançou um golpe rasteiro: tentou atacar o filho de Biden, chamando-o de perdedor ao mencionar seu vício com drogas.

Desta vez Biden se centrou nos seus valores: “Meu filho não é um perdedor. Ele tem problemas com drogas como tantos filhos americanos. Ele não as usa mais. Eu tenho muito orgulho dele”, e mais uma vez, se direcionou ao que é importante refocando o assunto para questões mais abrangentes e urgentes no que dizem respeito à nação americana. 

Dali por diante, o debate prosseguiu e Biden voltou a nos lembrar da importância de votar e do poder que cada um tem ao fazê-lo, além de ser incisivo com argumentos que esclareciam as consequências da administração do presente governo americano ao povo dos EUA.

Em última análise, o que se viu no confronto face-a-face destes políticos foi um cair de véus, e aquele Trump aparentemente poderoso, ameaçador e criador de caos, se tornou pequeno. Tal qual o Mágico de Oz, que parecia tão grande e veemente escondido atrás de uma cortina, mas que na realidade era frágil sem a sua criação de ilusões.

Tornou-se evidente a falta de força interior e de disciplina de Trump que geralmente encontram-se mascaradas por ataques e tentativas de humilhar o outro. Tornaram-se visíveis, enfim, o desespero de Trump e a grandeza de Biden.

Comportamento de Biden mostra como lidar com nosso Ditador Interior

Biden personificou, dentro de suas limitações: um ponto de firmeza em meio a um caos de mentiras, acusações, e verborragia; uma aliança com valores; um centramento que, por vários momentos, o imunizou de reações; e uma clareza para se voltar para o que realmente importa. Tais atitudes apontam para uma boa maneira de lidar com o crítico interior.

É possível desenvolver uma habilidade e praticar a capacidade de nos distanciar psicologicamente da voz impositiva, de desfazer a fusão entre os nossos pensamentos e os do crítico interior.

Assim, ao nos diferenciar da voz opressora, somos capazes de escutar suas palavras como as de uma estória contada e não como ordens a serem seguidas. Ao centrarmo-nos na nossa respiração, e conectarmos-nos com nossos valores (sejam eles: integridade, respeito, compaixão, amor, paciência…), podemos nos conectar mais significativamente com o que realmente importa, e desta forma, acalmar nosso medo que, muitas vezes, nos leva irracionalmente a seguir as ordens do ditador interno.

Leia o artigo “Uma aliança com o essencial”, de Joseh Garcia

Quando assim agimos, somos até mesmo capazes de compreender que o crítico interior procura desesperadamente nos proteger, porém o faz utilizando métodos errados. E aqui, neste sentido a motivação do crítico interior pode divergir bastante do político na TV, cujos interesses podem ser, frequentemente, extremamente autocentrados e egoístas, e menos voltados para o cuidado com o outro.

Depois de uma hora e meia, o debate chegou ao fim. Desliguei a TV precisando de silêncio. Foi aí que se sedimentou em mim a compreensão daquele evento. Longe de ser apenas um espetáculo trash, ou um debate pífio e deprimente, o encontro daqueles políticos com estilos tão diversos me fez refletir sobre os embates que se passam na nossa psique e apontou para reflexões sobre como melhor relacionar-se intrapsiquicamente.

Claro que olhando para o cenário social, para a realidade externa pós-debate, o que está em jogo nas eleições que se aproximam são graves problemas coletivos e as vidas de milhões de americanos e do planeta.

E dentro deste contexto, caberá a cada um, no seu próprio processo íntimo, realizar um debate interno e moderar seus conflitos interiores, e assim, fazer a sua escolha sobre qual força empoderar com seu voto: a do caos ou a estabilizadora.

Artista e Ph.D. em psicologia, autor da tese “Music as vehicle for self-transformation” e do romance “ A Mulher que Nunca Recebeu Flores”. Cantor e compositor dos álbuns Bossa a Trois e Conscious (Original Movie Soundtrack). Co-diretor do filme “Conscious: Fulfilling our Higher Evolutionary Potential”. www.josehgarcia.com [ Ver todos os artigos ]

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