O Último Tango de Maria…

Em homenagem à memória de Maria Schneider, remeto um texto que escrevi tempos atrás:

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Um Ritual da Tragédia

Uma estranha e “charmosa” escatologia tem início e passa a predominar nas cenas de O Último Tango em Paris, o belíssimo filme de Bertolucci em que Paul (Marlon Brando), um americano deprimido e blasé conhece Jeanne (Maria Schneider), uma curiosa e sexy francesinha, ao se depararem um como o outro, inexplicavelmente, no mesmo velho e sombrio apartamento incrustado na Cidade Luz.

Com o encontro fortuito tem início uma verdadeira “folie à deux”. Em meio a objetos desarrumados e muita poeira, naquele vetusto apartamento parisiense a estranha relação apaixonada passa a existir e conviver com ratos e uma morbidez que perpassa a todo instante o ambiente.

O encontro fortuito se tornaria trágico. A paixão não se explica em amor puro e o bronco americano se torna um bruto amante, guardando os resíduos de memória em que a infelicidade predomina. O suicídio de sua mulher é a tônica para todo o desequilíbrio que se segue. A nova amante, uma aparente desavisada, uma atriz de segunda, inclusive na vida, não percebe a que armadilhas está se entregando. Curiosa, dotada mesmo de uma curiosidade mortal, não percebe, a priori, o longo e lento desespero do companheiro inusitado.

Iniciam-se os rituais de sexo eventual entre dois meros desconhecidos, que, a princípio, não se levavam a maior compromisso. Pergunta-se, de logo, se poderia haver ali espaço para o amor verdadeiro. Ou só existiria uma perigosa paixão, cuja marca era uma potencial violência e evidente sadomasoquismo.

Um dos grandes desempenhos do inesquecível Brando e, possivelmente, a maior aparição da instável Maria Schneider, o magnífico filme tem a cidade de Paris como o fundo luxuoso dessa estória inquietante. Um palco perfeito para uma estória trágica e que sinaliza – e eleva à décima potência – a eterna incomunicabilidade entre o homem e a mulher.

No cenário parisiense ainda há lugar (será?) para Tom (Jean-Pierre Léaud), um noivo que está em vias de montar um filme picareta para a TV e que se aproveita de sua jovem namorada (e amante do americano) para fazer o papel de uma doce (e falsa) enamorada. Não é demais lembrar que isso configuraria o fatal número ímpar a ocasionar a tragédia já anunciada.

O suicídio da mulher do americano permeia toda a estória, envolvendo-a em cinzas e no cinza das tardes parisienses de inverno. A traição ao seu truculento marido já não bastava e se fazia necessário até mesmo copiá-lo num outro, Claude (Massimo Girotti ), que vestia roupas assemelhadas ao marido traído e compradas pela defunta. Nesse e em outros aspectos, Bertolucci fez um filme que caiu como luva para Brando e seu poder dramático e sua encarnação pessoal da tragédia. Nenhum outro ator, com uma história de vida diferente e outros traços psicológicos, teria um desempenho tão cruelmente realista. Em alguns momentos parece até uma biografia de Brando. Basta lembrar que, assim como a personagem que encarnava, Marlon foi boxeador, ator e sofreu o suicídio próximo na família; questionava a mãe, o pai, a humanidade.

As imagens das pontes sobre o Sena realçam o valor de uma bela fotografia. Paris passa, então, a ser a continuidade do triste apartamento. E o desprezo da dupla de personagens centrais aos outros, aos terceiros causa a impressão de que é Paris que está dentro do apartamento e não o contrário.

A extravagante personagem de Maria Schneider cresce em cena por sua irresponsabilidade cúmplice. Sua aparente ingenuidade revela uma face perversa que anima a loucura que predomina. Os dois juntos – sem que nada conheçam um do outro – num apartamento que é a verdadeira metáfora da fuga e da ocultação, alimentam uma relação instável em que predomina um pacto de ignorância mútua. Não se querem conhecer, porém são cúmplices. “–Não tenho nome”. “–Você não tem nome e eu também não”. Pessoas sem passado, ao menos na estranha relação encravada em suas vidas.

A perplexidade diante do inexorável e do inexplicável da morte somente comprova que não adianta buscar explicações. Muito menos se explicaria a morte voluntária, o suicídio. O desespero é que reina entre os mistérios da vida e da morte. Mas, até mesmo porque reinam as dúvidas e a descrença, o enterro religioso não será admitido para a mulher de Paul. Ele, num rompante de fúria contra a mãe da morta, sua sogra, afirma que ali ninguém crê. Rose, a suicida, não queria nada com a religião. Uma religião que, em meio à hipocrisia e dor provocara, antes, a destruição da família da suicida. Em uma cena forte, Paul coloca em evidência os peitos protuberantes de Jeanne, comparando-os a úberes de vacas e afirmando o tom animalesco de sua relação atual, frisando o que de bizarro já compunha a vida anterior de sua esposa morta. Possivelmente a violência sexual que sofrera do pai, um patife religioso que sequer se fará presente ao velório daquela que ajudou “psicologicamente” a matar.

A descrença e a incredulidade, num contexto como o que descrito, tomará seu lugar óbvio. Cada toque provoca frisson, cada palavra traz comoção “à flor da pele.” A navalha passa a ter vários usos e o absurdo é tão intenso que aquele instrumento que serviu para cortar os pulsos da morta, é usado, pouco depois, para a feitura da barba de Paul. Rose está, definitivamente, morta! Porém…as lembranças continuam a torturar.

A manteiga como o involuntário lubrificante anal para Jeanne representa o sadismo que visa punir o “pecado” do outro; e, depois, o pedido para que Jeanne introduza seus dois dedos no ânus de Paul é a senha para expiar os seus próprios pecados, numa auto-flagelação quase que…religiosa. Punir e punir-se pelo passado, pelos segredos. O masoquismo anal de Paul é a forma de extirpar a dor desses pecados. Mas, que pecado, se não se crê? A revolta é contra a morta ou contra a morte? Ou contra a vida é que se dirige toda a violência?

O naufrágio lento. Os amantes, em algum momento propõem: “–Chega de amontoar coisas” Frase ambígua que denota a memória doída e o desejo de esquecimento. Tudo soa falso agora. E nisso está a noiva, a falsa noiva de um filme para TV.

Paul não conhecia também sua esposa trágica: “–Mesmo que um marido viva 200 anos ele nunca saberá da verdadeira natureza de sua esposa”. A prostituta invasiva velha e feia que tenta ingressar, com seu cliente perplexo, no recinto onde jaz o corpo pálido da mulher morta de Paul é que vai revelar, de alguma maneira, por algum motivo que se esconde apenas na mente de Paul, um velho – e até então esquecido – mistério preso no passado. Tal fato, juntamente com o lúgubre “diálogo” de Paul com a mulher em seu caixão, tem o condão de desencadear toda uma abertura para a verdade, para a verbalização da verdade.

Paul decide contar tudo a sua paixão parisiense. “Conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”. E aí começa o triste e catastrófico ritual do último tango. Não era para dizer, não era para dizer nada. É isso que parece. Toda a revelação sobre sua vida destrói, arrasa o mistério e faz com que se confirme a decisão de Jeanne de se casar com outro, o diretor do filme falso e feliz em que o amor predomina. E o amor impossível e real termina em meio a uma dança perigosa e trôpega ensaiada por dois delirantes bêbados. “Bonne chance dans le dernier tango!”, propõe a presidente do júri do concurso bizarro de dança.

Qual a escolha para fugir? Para fugir novamente? Casar. Eis mais uma trágica decisão que traz força à derradeira, pondo terra sobre a relação tresloucada: Jeanne, decidida a não mais aceitar o amor louco que se instalara de forma sorrateira, atira, à queima-roupa no amante de meia-idade. Paul perde, lentamente, todas as faculdades, toda a vitalidade contraditoriamente mórbida e tem o seu final diante de uma Paris que o ignora, como a um indigente.

Toda a vivência da paixão havia se passado com um mero desconhecido!? Não há realidade exterior conhecida. O som do tiro bloqueia a pronúncia do nome. Paris ao fundo, vela tristemente o novo morto. A repetição perplexa e balbuciante da fala que justificará o crime aparenta um nervoso ensaio de atriz, falseando (!?) toda a realidade duramente vivida: “–Não sei o nome dele. Eu não o conheço. Não sei o nome dele”.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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