O Vale vai a Washington

Por Pedro Doria
O GLOBO

Em 2012, o Google foi a segunda empresa que mais gastou em lobby no Congresso americano. Não é o único

No início do ano, um pequena e silenciosa revolução ocorreu dentro do prédio do Capitólio, em Washington, onde funciona o Congresso americano. Estavam em pauta duas leis cuidadosamente redigidas ao longo de 2012, PIPA e SOPA, que pretendiam defender os interesses da indústria cinematográfica no combate a violações de direitos autorais na internet. Todo o processo tradicional de lobby foi posto em prática por Hollywood. Havia otimismo. Aí, num par de semanas, tudo virou de cabeça para baixo num mar de queixas. A indústria da tecnologia, no Vale do Silício, organizou suas armas, chamou atenção de quem chegava a seus sites, mobilizou a rede. Os dois atos foram ao chão. Pela primeira vez, a maneira tradicional de fazer política ruiu. E isto ocorre porque há uma mudança em Washington: o Vale do Silício chegou e deseja influir na política. Está conseguindo.

De dentro da internet, é fácil cultivar uma ideia romântica: o novo contra o velho. E é esta mesma a imagem que o Vale deseja manifestar. Mas, no fim, é só a boa e velha política. Duas indústrias com interesses antagônicos disputando espaço nos altos círculos de poder. Na revista “Time”, o repórter Michael Scherer juntou as peças para mostrar como funciona o novo lobby tecnológico e por que ele surgiu.

A disputa com Hollywood no plano dos direitos autorais não é a única. Conta, aqui, dinheiro. O que interessa ao Vale é fazer a internet cada vez mais interessante, cheia de conteúdo fácil de achar. Quanto mais gente usa a rede, mais propaganda aparece, mais dinheiro fazem os programadores. Para Hollywood é o oposto. Quanto maior a oferta de seu produto, mais se desvaloriza. Se não consegue vender e a distribuição é gratuita, os estúdios quase não fazem dinheiro.

Quando fabricava computadores, o Vale não tinha dificuldades. Mudou. Existe a disputa com a indústria da criação de informação no campo dos direitos autorais. A disputa no campo dos impostos por conta das reservas que as empresas mantêm em paraísos fiscais. Carros que dirigem-se a si mesmos. Questões relacionadas a privacidade. Acusações de formação de cartel. A indústria da tecnologia se expande e começa a esbarrar em regulamentação por toda parte. Até coisas miúdas: um site que ajuda as pessoas a alugar seus apartamentos para turistas deve descontar impostos equivalentes aos de hotéis?

Com ou sem razão, as leis precisam mudar se o Vale quiser criar novos espaços de atuação. E isso quer dizer que ação política tornou-se necessária. Na última campanha presidencial, pela primeira vez, as doações do norte da Califórnia ultrapassaram as do sul para o candidato Barack Obama. Ou seja, Hollywood foi ultrapassada.

Em 2012, o Google investiu US$ 23 milhões em lobby. Ultrapassou, assim, lobistas tradicionais que disputam contratos do governo ou regulamentações mais amigáveis como a Boeing, a farmacêutica Pfizer e a petroleira ExxonMobil. O Google só foi batido pela GE, que detém inúmeros contratos com praticamente todos os braços do Estado.

Mark Zuckerberg, do Facebook, criou uma organização que financia as campanhas de parlamentares favoráveis a relaxar as leis de imigração. O Vale precisa de cérebros e eles não existem, no ramo da engenharia de software, em número suficiente nos EUA. Mas inúmeros sindicatos lutam para dificultar o acesso de estrangeiros ao mercado americano.

Nesta briga, atrito surge. Parte do dinheiro da ONG de Zuckerberg foi parar em spots de TV do senador Lindsey Graham, apoiando também suas iniciativas a favor de explorar o petróleo no Alaska. Uma das características do norte da Califórnia é que são, por lá, todos ecologistas. Alguns dos contribuidores do fundo reclamaram, entre eles Elon Musk, fundador da Tesla, que constrói carros elétricos. Ainda estão aprendendo como se faz política tradicional.

O próximo objetivo é eleger seu primeiro deputado. Ro Khanna, um advogado de 36 anos, brigará com o deputado Mike Honda para ser candidato democrata à cadeira do 17º distrito da Califórnia. Aos 71 anos, Honda é um veterano do Congresso. Ano que vem, provavelmente deixará o cargo.

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