O Vaso

Tinha de terminar cedo a tarefa, por isso fui aos lugares exatos. Procurei a melhor loja, daquelas que o atendente não empreende grandes esforços para lhe receber. Olhei com cuidado cada uma das peças disponíveis e me esforcei para não tocar em nada. Olhei para um vaso de porcelana estrangeira e imaginei ser perfeita para a questão. Tive receio de tocá-lo tamanha a delicadeza, os detalhes e a forma como estava protegido. Imaginei o preço e continuei olhando. Não devia de ser barato, afinal, não se tratava de uma reprodução, mais parecia um produto autêntico, real, uma obra de arte que demorou a ganhar maturidade na cabeça do artista e muito mais para ficar pronto. Comprei sem ver o preço, daquele jeito que a gente faz no restaurante, entregando o cartão e fazendo gestos de emudecimento.

Pedi que a loja colocasse no banco traseiro do carro adequadamente. Ainda se ofereceram para entregar em minha casa cumprindo todos os procedimentos de segurança, mas eu tinha pressa. Colocaram o objeto dentro de uma caixa forrada com material contra impacto e papel-bolha. Seguro o suficiente para qualquer incidente na estrada segui. Agora precisava de algo para completá-lo, não que fosse insuficiente, mas queria que tivesse volume e peso. Noutra loja encontrei o que procurava. Pequenas esferas ocas de vidro de diversas cores muitas vezes mais delicadas do que o vaso. Uma verdadeira operação para manipular, pesar e embalar para a viagem. Também não vi o preço, mas imagino ter custado quase o mesmo que a primeira aquisição. Mais um trabalho para colocar no carro e garantir que chegassem inteiros em minha casa.
Entrei na garagem sem pressa. Afastei qualquer coisa que colocasse em risco as novas aquisições. Escancarei a porta do carro, afastei o banco da frente e peguei com cuidado exagerado o vaso. Bem no meio do meu jardim já estava preparado um lugar especial para ele. Uma base esculpida em mármore de um metro e pouco de altura, de forma que a obra de arte ficasse na altura perfeita. Extraí com cuidado da embalagem, afastando minuciosamente os protetores e o papel-bolha. Em seguida, repeti a operação com o outro pacote, dessa vez ainda com mais cautela. Retirei esfera por esfera e fui inserindo no fundo do vaso até que ele ficasse completo até em cima. Estava pronta a exposição. No fundo do jardim, meu velho objeto de defesa: um taco de basebol original do New York Yankees comprado na internet a peso de ouro. Mirei-o na minha obra de arte e imaginei os fragmentos dourados explodindo sob o sol ardente do início da tarde.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

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