O velho feitiço de Carmen… no cinema e em 3D

Por Luiz Zanin
ESTADO

Assistir a uma ópera no cinema pode ser das experiências mais prazerosas. Isto é, se você não se importa em ter dezenas de pessoas ruminando pipocas ao seu lado. Bem, isso não é exclusividade das óperas. Todo mundo sabe que a primeira hora de um filme é praticamente perdida, pois o infeliz espectador, que foi lá apenas para assistir e não para comer, não consegue se concentrar no que se passa na tela. O problema da ópera é ser dividida em duas partes, com um intervalo de 20 minutos, tempo suficiente para que as pessoas renovem suas provisões e retornem devidamente abastecidas para a parte final.

Ninguém pensaria em entrar com um piquenique numa casa de espetáculo como o Royal Opera House, de Londres, onde esta Carmen foi gravada. Já as salas de cinema brasileiras viraram refeitórios. Com ou sem ópera.

Mas Carmen, em si, nada tem a ver com o nível de educação de quem vai assisti-la. Trata-se de um bonito espetáculo, inesquecível para quem não tem o privilégio de assistir a uma ópera ao vivo. O nível do som é muito bom. Já a promessa de 3D parece um tanto exagerada. Raras são as oportunidades em que esse efeito passa de uma mera sensação de profundidade de campo aumentada. Não faria falta. Fosse o espetáculo apresentando em duas dimensões e o efeito seria o mesmo.

O início do filme, mostrando os artistas ainda nos bastidores, parece dispensável. Afinal, ao longo de toda a projeção o diretor não trabalhará com metalinguagem. Sabiamente, concentra-se na ópera, sem inventar muitas firulas. Então, pouco lucramos ao contemplar os artistas sendo maquiados ou esquentando a voz para suas performances.

É apenas para dar ao espectador a sensação de intimidade, de que ele está ganhando um bônus em relação ao público comum, que não tem acesso aos camarins. Melhor começar a música famosa e levantar logo a cortina para que os cantores entrem em cena.

E, quando isso acontece, a antiga magia de Carmen retorna, intacta. E volta pela atuação e vozes de intérpretes de muito bom nível: Christina Rice (Carmen), Bryan Hymel (Dom José), Aris Argilis (Escamillo) e Maija Kovaleska (Micaela). O maestro é Constantinos Caridis e a direção é de Francesca Zambello. Foi esse o espetáculo que o diretor Julian Napier escolheu para filmar em 3D.

Carmen, pela obra de Prosper Merimée (1803-1870), transformada em 1845 em ópera por Georges Bizet, tornou-se um mito ocidental, a imagem acabada da femme fatale. A mulher livre e de beleza selvagem que leva o homem à loucura e ao crime. Na história, Carmen é uma cigana, que seduz o militar Dom José e acaba por trocá-lo pelo toureiro Escamillo.

Uma jovem de sua aldeia, Micaela, tenta trazer José ao eixo, mas não adianta, ele só quer saber de Carmen. Volta para buscá-la e a história tem o desfecho trágico, que todos conhecem. Carmen, como Édipo ou Quixote, é dessas tramas universais que todos conhecemos, de trás para frente e, mesmo assim, nos emocionamos a cada vez que as reencontramos.

A história foi filmada por literalmente dezenas de diretores, que vão de Jean-Luc Godard a Carlos Saura, passando, inesperadamente, por Cacá Diegues que inventou uma Carmen à brasileira em seu filme de episódios Veja Esta Canção (1994). Cada qual, e a seu modo, encontra uma Carmen adequada ao seu tempo e estilo. É universal, amoldando-se a situações e tempos particulares. Na tela ou no palco, desconstruída pelo gênio de Godard, ou trabalhada com a intensidade de Saura, é sempre sedutora. Como Dom José, ou o toureiro Escamillo, não conseguimos ficar indiferentes a Carmen.

Nada, porém, como vê-la no palco, na concepção dos libretistas Henri Meihac e Ludovic Halévy a partir da novela de Merimée e com a música magnífica de Bizet. Foi por certo a música que ajudou a fazer de Carmen uma das óperas mais populares de todos os tempos. Mesmo quem não conhece a ópera sabe assobiá-la. Mais: é a obra à qual imediatamente se associam os nomes de Merimée e Bizet. Tudo o mais que fizeram na vida ficou obscurecido diante do brilho romântico do mito de Carmen. Um feitiço que ressurge a cada vez que esta ópera volta a ser encenada. No palco ou na tela. Com ou sem pipocas.

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