O Verde e as Verdinhas

Por Alex Galeno
Professor da UFRN

Nas últimas eleições para a prefeitura de Natal, o dono do Jornal de Hoje chamou a atenção, em sua coluna, para o fato do então prefeito Carlos Eduardo apoiar a luta pela preservação ambiental, em particular do Morro do Careca, e por isso os empresários da construção civil da cidade seriam contrários a sua administração e a sua candidata, Fátima Bezerra (PT). O que depreendemos de tal afirmação é que o lobby da construção civil se somou ao projeto da prefeita Micarla de Sousa (PV).

Eis os indícios que balizam o conteúdo da mensagem anual da prefeita à Câmara Municipal, na qual afirmou que revisará o Plano Diretor de Natal. O que significa revisar o Plano neste momento? Com tal postura a prefeita paga a fatura política ao setor da especulação imobiliária que lhe apoiou nas eleições. O Verde aqui deixa de ser bandeira de preservação ambiental para se tornar moeda de troca entre o poder público e os capitalistas da construção civil. O Verde no mundo atual vende bem, quer seja como discurso de preservação, quer seja como recurso da ideologia paisagística que se propaga como moeda turística. Natal tem sido vendida para especuladores desta maneira. É como se aqui o belo e o prazer sejam comprados facilmente. A cidade virou simulacro. Sua paisagem é apresentada em design sofisticado para ser comercializado no mundo inteiro.  E em matéria de vender imagens, a nossa prefeita é um Midas.  Relembremos de sua viagem com uma comitiva de 40 pessoas à Lisboa. O Voo Colombo, como se denominou à época, pago com o dinheiro do contribuinte. E mais recentemente, o cachê pago ao astro pop Padre. Fábio de Melo. O verde da Prefeita, à semelhança do artificialismo do PV, é grife ecológica eleitoral sustentada, midiaticamente, por um falso discurso preservacionista que se desnuda diante das verdinhas que destroem coisas belas. Recusamos uma visão retrógrada de querer a cidade e seu ambiente incólumes ao desenvolvimento econômico, mas não advogamos flexibilizar a ética da responsabilidade tão indispensável para consolidar um projeto político moderno que sustente o futuro para as gerações vindouras. Em Natal e em outras partes do país, presenciamos a flexibilização da ética da responsabilidade por alguns representantes do Partido Verde. São ambíguos na relação com os setores que, tradicionalmente, praticam a compra e venda do solo das cidades sem preocupação ambiental e também com políticos de matizes estranhas a uma ideologia verde. Presenciamos alianças de verdes com liberais conservadores do DEM e do PSDB, como por exemplo, a do deputado Fernando Gabeira (PV) com o ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia (DEM) ou a da prefeita Micarla de Sousa (PV) com o Senador José Agripino Maia (DEM), em nossa cidade. Que lugar ocupará a Senadora Marina Silva (PV) neste latifúndio político? A senadora, certamente, terá que se explicar pelas travessuras ideológicas de seu partido.

A revisão do Plano Diretor de Natal e suas prováveis conseqüências de liberação de espigões e construções que afetam o patrimônio paisagístico e ambiental da cidade explicitam a lógica de apropriação daquilo que é público por aqueles que detêm o poder econômico. Os interesses coletivos e o espaço do bem comum citadino tendem a ser solapados. É a herança da lógica privatista de uma elite exibicionista e perversa, contra a qual devemos nos insurgir!

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