Obama, Laurence, Capitalismo

Laurence:

1) Falei em evitar pensar em NOSSA mentalidade como anti-democrática porque não a considero anti-democrática. Veja bem: NOSSA mentalidade, NÓS. Sim, existe forte anti-democracia no Brasil. Mas não existe só isso. A ditadura acabou porque setores democráticos da sociedade brasileira batalharam para isso: OAB, sindicatos, associações de bairro, múltiplos movimentos sociais, partidos na legalidade ou na ilegalidade… Se for pra falar em NÓS, vamos contemplar os democratas TAMBÉM.

2) A História do Brasil foi forjada a partir do Capitalismo mundial em ascensão. Weber associou o espírito do Capitalismo à ética protestante, como se sabe. Mas ele não pretendia fazer uma Sociologia realista imediata, ele inventou o conceito de ideal-tipo, quer dizer, um instrumento de trabalho que apresenta um problema de forma intencionalmente “purificada” (até “estereotipada”, sem sentido pejorativo) para melhor entender a realidade a que se referia. Weber, homem cultíssimo, sabia que o Capitalismo começou, sim, nas cidades católicas italianas e sofreu um enorme impulso através das monarquias católicas ibéricas, com as Grandes Navegações e a Colonização do mundo. Depois, a ética protestante se adequou muito bem ao mundo com escravidão e outras pérolas do Capitalismo nascente.

3) Órfãos de Renascimento? Socorro, Camões! Socorro, Vieira! (o útlimo, já na seleção madura do Barroco, que não existiria sem Renascimento). Eu gosto muitíssimo de Burckardt mas ele forjou uma imagem excessivamente italiana do Renascimento. Se nós lermos Joaquim Barradas de Carvalho, entenderemos que a introdução dos algarismos arábicos é tão Renascimento quanto a Capela Sistina. E as técnicas de navegação que os portugueses dominaram tão bem (até inventaram) fazem parte desse mundo renascentista.

4) Você tem razão sobre o estilo cultural da colonização lusitana: sem bibliotecas, universidade nem Imprensa. Sim, nossa metrópole era hiper-centralizadora, as elites coloniais, se quisessem ilustração, que fossem à metrópole! Até que recuperamos razoavelmente o atraso: as melhores universidades brasileiras estão em pé de igualdade com as mais antigas latino-americanas – Peru, México. E penso que o passado colonial não é determinação por si só – reler o velho Marx do 18 brumário é sempre necessário: os homens fazem sua história em condições que herdaram do passado. Quer dizer: fazem e são feitos, SIMULTANEAMENTE. Se fosse só fazer, seria um voluntarismo sem limites. Se fosse só ser feito, seria uma determinação sem saída.

5) Você tem razão, também, sobre a tradição autoritária da república brasileira. Discordo de você sobre ser NOSSA tradição. Se for para falar em NÓS, quero lembrar que a mesma república brasileira abrigou gente como Lima Barreto, Euclydes da Cunha, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Noel Rosa… A tradição autoritária enfrentou combatentes. Evoco esse povo como minha tradição.

6) Não considero nenhum ditador legítimo. Se é ditador, por definição, adotou a ilegitimidade. Alejo Carpentier escreveu a perfeita tradução desse quadro: “O recurso do método”.

7) Getúlio Vargas produziu a ovação que recebeu – não existe Estado Novo sem DIP. Ele aprendeu direitinho com seus contemporâneos Mussolini e Hitler. Mas Roosevelt também organizou a recepção a sua figura. Estamos no mundo da opinião industrialmente planejada.

8 – Se os herdeiros da ditadura de 1964/1984 souberem que você considera o pessoal que mandava na época (não eram apenas militares) realizadores dos sonhos da esquerda, ficarão muito bravos! Geisel deve estar se revirando na cova! Historicamente, seria bom classificar bem qual esquerda. O pessoal da ditadura deixa claro que nem só stalinistas são estatizantes, não é? E que o Capitalismo legítimo da gema pode ser muito estatizante, não é? O velho Caio Prado Jr. falava em burguesia de estado… Maiores informações com o Ministro da Fazenda de plantão. Agora, para sermos justos com o povo da ditadura (embora eles fossem tão injustos com quem não era da turma deles), não estatizaram o país de ponta a ponta não! A Rede Globo, por exemplo, não é estatal. Eu até penso que o estado brasileiro é que se globalizou (no sentido televisivo). Eles estatizaram o que era vantajoso ser estatal para as empresas privadas lucrarem mais!

9) O Brasil é capitalista porque se organiza, em termos econômicos e sociais, em função da acumulação privada de capital, embora a produção do capital seja coletiva. O Brasil participou muito ativamente do nascimento do Capitalismo – pau-brasil, açúcar, ouro, diamantes… E continuou depois a participar muito intensamente do mesmo Capitalismo – mais um século de exportação de matérias primas, depois industrialização e por aí vem. Não é porque eu quero, eu até queria que não o fosse. Mas o avesso do Capitalismo não é o Stalinismo não. Veja o que ocorre na China: Capitalismo de estado!

10) Há algum tempo, neste SP, eu questionei a dicotomia direita-esquerda. Nesse sentido, não sou esquerdista ingênuo – nem direitista esperto. Mas até posso ser ingênuo. Há coisas piores.

11) Quando a URSS acabou, por coincidência, sem combinar com Gorbatchev, eu estava em Natal e Luís Damasceno indicou meu nome para a emissora de tv local que divulgava a programação da Globo. Entrevistaram-me sobre o acontecimento. Meu comentário, em síntese: já vai tarde! Mas eu não penso isso por amor ao Capitalismo. Havia oposição de esquerda na URSS desde 1917, devidamente sufocada por Lênin, Trótsky (quando ele tinha poder) e Stálin. Esquerda não é só estado total – tem o povo da Revolução espanhola, tem os holandeses que defendiam um socialismo de base, tem as comissões de fábrica de Turim. Por uma questão de nuance, é bom lembrar que aqueles países ditos socialistas tinham, cada um, um partido! Como partido é parte e um não é parte, você tem razão – não tinham partidos mesmo tendo.

12) Não pedi respeito a minhas posturas. Eu fiz o elogio do respeito que está vigorando neste diálogo – estou respeitando você, você está me respeitando. Noutros lugares, o respeito é raro. Aqui, não está sendo, Graças a Deus (maiúsculas, comme il faut).

13) Não entendo Maquiavel como filósofo da astúcia. Penso que ele tem uma visão cruamente realista do poder: vontade de acúmulo, o príncipe age para ficar mais forte, entre a virtu e a fortuna. Não sou príncipe. Mas preciso entender a lógica do príncipe, até para combatê-lo melhor. Lula teve melhores momentos nos anos 70. Os dois governos dele são PSDB passado a limpo mais algumas preocupações sociais paternalizadoras (quer dizer: infantilizadoras da cidadania). Falo isso com tristeza.

14) Não vi os mimos de FHC em relação ao PT – nem cobrei isso dele que, certamente, leu Maquiavel e até prefaciou edição recente do florentino na Cia. das Letras. Entendo que o PSDB foi criado para barrar o PT. Foi bem-sucedido em Sampa até hoje (não há mais o que barrar, o PT já foi domesticado, talvez o PSDB perca em eleições próximas). Tem perdido nas eleições para o executivo federal. Precisa decidir o que quer da vida para ser oposição, não depender da benevolência do príncipe – se for para isso, é melhor aderir de vez.

15) Será que trazer Maquiavel para o debate é afastar a questão da democracia? Maquiavel dá um banho de real – o poder é essa coisa aí. Sem real não há democracia. Só dá pra mudar o real, não dá pra mudar a partir de nossa pura fantasia – por exemplo, a fantasia de um Capitalismo vocacionado para o Bem.

16) Em política, o que importa é ganhar sim. Se não for ganhar uma eleição, ganhar força na opinião pública, acumular poder para ganhar mais depois. Mesmo em Maquiavel, existe o critério da virtu associado à fortuna, como você sabe – não é o elogio do vale tudo. Mas a política é feita para se ganhar. A derrota é acidente lamentável de percurso. Antes de Maquiavel, temos a triste (mas muito realista) máxima: Ai dos vencidos! (o bárbaro Breno…) Não é um ideal de justiça, é poder nu e cru.

17) Ainda vejo a maioria tratada como gado – inclusive no bolsa-família. Preciso voltar ao oftalmologista? Não é retórica populista não, de Steinbeck a Zé Ramalho, passando por Orwell e Chico Buarque, tem um monte de gente apontando o caminho entre currais e matadouros. Mas o Capitalismo constrói veículos que não nos permitem ver o gado sendo conduzido para o matadouro, a matança está cada vez mais higienizada, falta pouco para matarem os animais sem derramamento de sangue.

18) Realmente, o estado gasta um dinheirão com aluguéis e outros serviços. Sabe quem lucra com isso? Os detentores de capital! Inclusive, os da indústria pesqueira que não cresceu. Capitalismo é isso aí também!

19) Votei em Dilma, gostaria que o governo dela fosse ótimo. Acho que ainda está longe disso.

20) O Capitalismo não merece que a gente se estranhe. Por esse motivo, encerro com um beijo em você e nos que tiveram paciência para ler isso que escrevi. Parafraseando o “Deus é mais!” baiano, “Nós somos mais!”.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 23 de março de 2011 11:37

    Autocríticas:
    a) Não clamei pelo fantástico Bocage (eta barroquinho bom!). E é um grande leitor de Camões!
    b) Vargas aprendeu também com Stálin, claro. Em matéria de pedagogia, ele não impunha limites aos mestres.
    c) Na cova ao lado da de Geisel, Golbery ameaça pegar você quando chegar sua hora.
    d) Nietzsche gostava muito de Maquiavel: se os cordeiros quiserem derrubar a águia, tratem de ficar mais fortes que ela.
    e) O Guimarães Rosa de “Conversa de bois” viu o gado pensando.

  2. João da Mata 23 de março de 2011 11:52

    Marcos, Bocage foi um sonetista maravilhoso
    Grande admirador de Camões, mas sabia que não tinha seu engenho. Muito embora a ventura e desdita fossem semelhantes
    Abç bocagianos

    Camões, grande Camões, quão semelhante

    Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
    Igual causa no fez perdendo o Tejo
    Arrostar co sacrílego gigante:
    Como tu, junto ao Ganges sussurrante
    Da penúria cruel no horror me vejo:
    Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
    Também carpindo estou, saudoso amante:

    Ludibrio , como tu, da sorte dura
    Meu fim demando ao Céu, pela certeza
    De que só terei paz na sepultura:

    Modelo meu tu és… Mas, oh tristeza!…
    Se te imito nos transes da ventura,
    Não te imito nos dons da Natureza.

  3. Marcos Silva 23 de março de 2011 12:17

    João:

    É sempre difícil ou mesmo impossível comparar alguém a Camões. Mas Bocage foi grande, teve engenho próprio. Embora Antonio Cândido caracterize a Literatura da terrinha como galho menor da árvore européia, a Poesia lusa traz gente como aqueles dois e mais Antero de Quenatal, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Mário de Sa Carneiro, Fernando Pessoa, José Régio… É um galho menor bem grandão! Se cair na cabeça da gente, mata.

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