Óbitoparto de Luciano de Almeida

Por Rudson Pinheiro Soares

No dia 05 de maio de 2004 tive o prazer de conhecer pessoalmente alguém de quem, por muitas vezes, ouvi falar de forma quase mitológica. Refiro-me a Luciano de Almeida, jornalista, intelectual, homem do povo, que a ditadura tratou de trancafiar prejudicando não só a ele como também a todos os que foram obrigados a se privar de seu conhecimento, sua amizade, sua generosidade.

Por algumas vezes vi Luciano andando pelas ruelas e pelos becos e bares da Cidade Alta. Preferia não me apresentar, não procurá-lo. Vai ver que era o medo de desconstruir o mito edificado em minha alma socialista. Acho que eu não me sentia no direito de “entrar” na história, mas apenas lê-la, estudá-la. Ouvi falar pela primeira vez dele em 1992. Eu tinha apenas 17 anos, era recém chegado de Açu e calouro do curso de Mecânica da ETFRN. Seu nome estava nas rodas da meninada de luta do Grêmio Estudantil Djalma Maranhão.

O tempo passou e eu, já adulto e morando no estado de São Paulo, portanto, há algum tempo sem ter notícias de Luciano de Almeida, envolvi-me em um projeto do Intervozes – grupo do qual faço parte: uma publicação que resgataria histórias da comunicação no processo de redemocratização do Brasil. Precisávamos selecionar pessoas, entidades e/ou projetos que militaram na comunicação no período proposto. Numa de minhas idas ao RN, no retorno para casa, encontrei, no aeroporto, o então vereador Hugo Manso, do PT, que havia sido meu professor na ETFRN. Nosso papo estendeu-se ao avião e, já em Sampa, ao Metrô. Pedi-lhe uma sugestão que representasse o RN no projeto do Intervozes. “Luciano de Almeida”, disse Hugo. Bingo! Luciano havia sido dirigente, nos anos 80, da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat) e do Sindicato dos Jornalistas do RN (Sindjorn). Topei, mesmo sabendo do risco, ou melhor, da certeza de que, de uma vez por todas, o mito Luciano, presente em minha adolescência, daria lugar, em minha cabeça, à pessoa de carne e osso.

Quase um ano depois, após um contato telefônico, fui ao encontro de Luciano de Almeida, acompanhado do meu amigo jornalista Evânio Mafra, que fez as honras do fotojornalismo. No caminho, a bordo do bugre de Mafra, uma certa dose de ansiedade e um “toró” que já durava cinco dias na capital potiguar.

Luciano já nos esperava na área de sua residência, à movimentadíssima Rua Mário Negócio, no Alecrim. Ele estava à vontade, trajando camisa, bermuda e sandálias. Fomos convidados a entrar. Ele sentou-se em uma cadeira de ferro bem no “sovaco” da área e logo começamos a conversa, em tom informal. Foi uma hora de eternidade, naquela tarde chuvosa de quarta-feira. Tivemos a companhia do barulho dos carros da movimentada rua e de um cachorro transeunte que resolveu por ali parar e, como um agente da ditadura, não cansava de latir, como se estivesse tentando impedir Luciano de ser ouvido. Fiquei preocupado, com medo de a gravação não ficar audível. “Fui entrevistado várias vezes aqui e nunca teve problema”, disse ele. Por um pedaço de tempo, fomos testemunhados pelo olhar atento de seu Lauro, seu pai. Pude perceber um Luciano resistente, firme, de esquerda, porém não orgânico. Falamos sobre sua militância política, seu período de Atheneu, a clandestinidade, a prisão, a boemia, a cidade de Natal. A Coojornat, o Sindjorn, o Governo Lula e o MST também fizeram parte do nosso bate-papo. Mas a emoção de Luciano aflorava de forma perceptível quando ele se referia a Emanuel Bezerra dos Santos, jovem quadro político assassinado pela ditadura. Outro momento de emoção foi quando ele descreveu a selvageria que foi sua prisão, em frente ao Cinema Recife, na capital pernambucana, bem como quando comentou sobre os 10 anos em que esteve preso.

Naquela tarde chuvosa no Alecrim, na minha cabeça, morreu o mito. Nasceu o ser humano Luciano. Um óbitoparto registrado no livro “Vozes da Democracia: histórias da comunicação na redemocratização do Brasil”, publicado pelo Intervozes e editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Trata-se de um rico documento que, através de vários repórteres, inclusive este que vos escreve, resgata histórias do Brasil inteiro, entre as quais, as contadas por Luciano de Almeida. O livro pode ser baixado, em formato PDF, no endereço eletrônico www.intervozes.org.br

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Jarbas Martins 1 de Março de 2011 13:50

    belo e necessário registro histórico, amigo rudson. parabéns.

  2. Valdemar Soares 26 de Junho de 2014 1:27

    Por acaso, a meninada do gremio éramos nós, Rudson?
    conheci Luciano Almeida através de Lailson Almeida, seu irmão. Ele lançou o livro “A Esquerda em Questão”.

  3. Geraldo Alves S. Júnior 28 de Junho de 2014 5:23

    A militância política de Luciano é digna de um romance, pois muita paixão e idealismo o moveu nos anos de chumbo. Escutar seus relatos sobre essa época é realmente emocionante, e para mim caro professor, o mito supera o homem e o eleva na sua condição de humano. Palmas para Luciano que ele merece.

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