Obra-Prima em Quadrinhos

Trecho da HQ Asterios Polyp. O arquiteto de meia-idade que dá nome ao livro viaja pelos Estados Unidos depois que sua casa pega fogo

Por Antônio Xerxenesky
NA BRAVO

Já faz um bom tempo que as histórias em quadrinhos deixaram de ser vistas como um produto da “baixa cultura” e associadas a escapismo e entretenimento barato. Maus, de Art Spiegelman, uma graphic novel sobre o Holocausto, foi fundamental para essa mudança de paradigma. Em 1992, rendeu a Spiegelman o prêmio Pulitzer e provou para o mundo que os quadrinhos podem ser veículos de narrativas complexas e sérias. Desde então, poucas HQs provocaram tanto estardalhaço como Asterios Polyp, do norte-americano David Mazzucchelli. Recheada de referências históricas, literárias e gráficas, venceu prêmios importantes de seu gênero, como o Eisner Awards, e vem sendo considerada uma obra-prima.

O livro conta a história de Asterios Polyp, um professor de arquitetura de meia-idade que nunca teve nenhum de seus projetos construídos. Após ver sua casa pegar fogo, ele parte em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. O leitor vai conhecendo o que o levou até esse ponto por meio de flashbacks narrados por Ignazio, o gêmeo natimorto de Asterios. Seus dramas giram em torno do relacionamento com Hana, a mulher que o abandonou. Enquanto Asterios é frio e racional, Hana se revela uma pessoa prática e emocional – apenas um dos inúmeros dualismos que a obra apresenta.

Modernismo e Mitologia Grega

Cada personagem, no traço de Mazzucchelli, tem contornos e cores diferentes, além de falarem com variadas fontes tipográficas. Asterios é pintado em azul, com traços retos de clara influência modernista, enquanto a silhueta de Hana está composta em vermelho, com contornos fluidos. Esse uso simbólico de tons e traços ultrapassa a caracterização dos personagens para mostrar também o quanto cada um deles está aferrado a seus pontos de vista: Asterios verá o mundo de forma ordenada e quadrada, enquanto Hana enxergará fusão e desordem. São seres incapazes de se comunicar, e toda a HQ pode ser lida como uma narrativa que progride na busca de romper essa dificuldade.

Essa, porém, é apenas uma de muitas maneiras de ler Asterios Polyp, que já foi analisada de todos os ângulos possíveis pela crítica. Calcada na mitologia grega, como o sobrenome de Asterios sugere (Polyp é derivado de Polyphemus, o ciclope), a HQ pode ser interpretada, por exemplo, como um eco da jornada de Ulisses em A Odisseia pelas diversas provações que os protagonistas enfrentam. Mas se engana quem pensa que isso faz de Asterios Polyp uma obra hermética ou demasiadamente cerebral. Mesmo lida como uma simples história de amor, a obra ainda traz um forte impacto emocional. Talvez o rótulo de “obra-prima dos quadrinhos” não seja um exagero, afinal de contas.

Antônio Xerxenesky é escritor, autor de A Página Assombrada por Fantasmas (Rocco).

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