Obras de Cervantes tem nova edição

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

A primeira edição das “Novelas Exemplares”, de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), é de 1613, e, portanto, no intervalo entre a primeira (1605) e a segunda parte (1615) do “Dom Quixote”. Constavam dela 12 histórias divertidas e edificantes, de “honestíssimo entretenimento”, como se escrevia nas licenças devidas de impressão. No gênero, Cervantes se gabava de ser pioneiro na Espanha. Em seu célebre prólogo ao livro, afirmava: “(…) eu sou o primeiro que novelei em língua castelhana, pois as muitas novelas que nela andam impressas todas são traduzidas de línguas estrangeiras, e estas são minhas próprias, não imitadas, nem furtadas: meu engenho as engendrou, e as pariu minha pena, e vão crescendo nos braços da estampa”.

Cresceram com tanta felicidade, que não há língua de cultura que se dispense de publicá-las. No Brasil, as duas edições mais fáceis de encontrar nos sebos e livrarias são a da Ediouro, que já circulava em meados dos anos 60, e a da Abril, que lançou o livro no início dos anos 70 e em 1983. São edições baratas, de grande circulação. Já era tempo, contudo, de vir à luz, em português, uma edição que aliasse a esses dois trunfos também o de ser provida de um aparato crítico consistente.

Não é esperança atendida pela Editora Arte & Letra, de Curitiba. Se cabe aplaudir a iniciativa de repor em circulação um livro importante, bem como a sua tradução fluente, embora por vezes claudicante no emprego da regência, o mais é decepcionante. A começar pela redução das 12 novelas a quatro, sem qualquer critério explícito para o corte ou a escolha. Decepciona também a ausência de comentários da tradução ou de um posfácio capaz de abrir vias de leitura complexas, assentes na vasta tradição de intérpretes do volume.

Articulação cômica

Assim, por exemplo, valeria chamar a atenção, em “A Ciganinha”, para a articulação cômica entre a discrição, qualidade do espírito que alia as virtudes do decoro e da prudência, com um pragmatismo venal e sem culpa. Há ainda o notável tratamento dado ao tópico da beleza, esta que, por si só, como verdade eloquente, parece prestar testemunho da nobreza do caráter e do nascimento.

O mesmo tema da beleza reaparece em “O Amante Generoso”, quando dá origem e sustentação ao amor, afeto tirânico que, por sua vez, lança o amante nos piores transes da ventura, armado somente de frágeis esperanças e perigosas seguranças, como versaria Camões. “Rinconete e Cortadilho”, pequena maravilha estilística, descreve uma infame confraria de pícaros e ladrões, todos certos de ir aos céus sem o estorvo das boas ações. Tudo é gracioso: da corrupção popular do vernáculo às metáforas agudas, que denunciam enviesadamente as trapaças correntes nos ofícios da cidade. Hilariante é ainda a troca de ofensas, violentas e amorosas, entre a puta e seu rufião.

“O Licenciado Vidraça” desenvolve o lugar comum retórico do “louco que diz a verdade”, que está, por exemplo, em “Hamlet”. A maledicência do vulgo, o ideal das letras e armas, as tópicas satíricas, o saber feito de experiência e honesto estudo são outros assuntos tratados magistralmente por Cervantes, com estilo e graça apenas comparáveis aos muito grandes. De modo que, afinal, a riqueza do livro compensa a edição parca.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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