Observações sobre uma anedota kafkiana

Diz uma anedota que o filósofo Gyorgy Lukács reviu suas opiniões sobre a obra de Franz Kafka depois dos excessos praticados pelos soviéticos em represália à revolução húngara de 1956, defendida, entre outros, pelo autor de A teoria do romance. Se, até então, Kafka não passava, para o filósofo húngaro, de um autor “burguês” e “alienado”, depois da repressão soviética, sobretudo depois do contato direto com a burocracia estalinista e seus métodos persuasivos nada ortodoxos,  ele reabilitou Kafka para o rol dos escritores “realistas” (na nomenclatura lukacsiana, uma qualidade acima de qualquer disputa).

Condenações de suspeitos antes de (ou sem) serem julgados, labirintos jurídicos intermináveis, barreiras burocráticas intransponíveis, enfim a ocorrência sem prévio anúncio do absurdo e do grotesco no mundo da vida cotidiana foram argumentos decisivos para que Lukács reabilitasse o escritor tcheco.

É possível dizer que, desde o final dos anos 1950, portanto, as obras de Kafka ganharam direito a um lugar no cânone socialista, pouco depois do seu triunfo na sociedade burguesa europeia.

Esse processo culminou na popularização do adjetivo “kafkiano”, sempre que alguém depara, no seu dia a dia, com um fato de ordem burocrática cuja razão de ser é supostamente atanazar a vida das pessoas. Ocorrências de situações absurdas, confusas, de motivações obscuras, também costumam ser rotuladas de kafkianas.

Pode-se dizer, todavia, que a semântica do adjetivo kafkiano ainda não está de todo consumada. O escritor americano Louis Begley acaba de lançar no Brasil seu “O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka”, onde volta a discutir, entre outros assuntos, o polêmico termo. Embora evite conjeturar novas hipóteses, Begley anima a discussão ao defender que “kafkiano” não seria senão o efeito que a obra de Kafka produz nos seus leitores, experiência que, para o biografo americano, pode se resumir a uma espécie de “claustrofobia do mundo”.

Ou, nas palavras de Modesto Carone (primeiro tradutor brasileiro do Kafka original) kafkiano seria um termo aplicável a uma “situação de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder que controla sua vida sem que ele ache uma saída para essa versão planetária da alienação – a impossibilidade de moldar seu destino segundo uma vontade livre de constrangimentos”.

A definição de Carone, dada ao jornal Folha de S. Paulo no dia 27 do mês passado, é problemática na medida em que limita os múltiplos significados possíveis de “kafkiano” a um sentido político. Talvez este comporte a somatória dos demais, mas não é, certamente, o único.

A ideia de “claustrofobia do mundo”, citada por Begley, ou de “estranhamento do mundo”, como outros observadores assinalaram (lembremos do enredo de A metamorfose, ou do conto “Um médico de aldeia”) são políticos, mas não o são exclusivamente. Elementos existenciais, filosóficos, psicológicos, alegóricos etc. se somam num amálgama que admite,por exemplo, uma interpretação “realista” por parte do rigoroso filósofo Giorgy Lukács, ou religioso, como ocorreu ao amigo de Kafka, Max Brod.

O psicanalista Enrique Mandelbaum (também citado pela Folha) contribui para esse debate com uma observação pouco lembrada, mas perfeitamente cabível: “kafkiana é uma conversa amigável que descamba para uma floresta de mal-entendidos”.

Observações dessa ordem servem no mínimo para realçar a plasticidade desse estranho adjetivo que se tornou uma chave interpretativa indispensável para a compreensão da vida cotidiana em nossa época.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo