O oceano e o dedal: meu problema com as biografias no cinema

Por Ana Maria Bahiana
BLOG DA COMPANHIA

Nesta época do ano, aqui como aí (e pelo mundo afora), os multiplexes se enchem de um tipo muito específico de filme. Aqui nas internas ele é conhecido como “Oscar bait”: isca de Oscar. É aquele filme muito bem feito (mas jamais ousado ou irreverente), com excelente qualidade de produção e bons atores, em geral em papéis opostos à sua imagem pública (um ator conhecido pela comédia num papel dramático, uma atriz muito bonita vivendo uma personagem despojada ou feia) e/ou com sérios problemas físicos.

Tudo isso é tão previsível que já deixou de me incomodar. Como votante de um desses prêmios grandões, eu procuro estar absolutamente consciente das “iscas”. Para compensar, procuro os filmes que são o oposto dessa fórmula, numa tentativa de contrabalançar as escolhas de quem morde o anzol (às vezes consigo…). E às vezes até voto numa “isca”, não por seu sabor formulaico, mas porque ali dentro tem, de verdade, um grande filme.

O meu grande problema não é nem essa repetição de elementos manjados: é o fato de que grande parte dessas “iscas” são biografias.

Lembram aquela conversa toda, aqui mesmo, sobre a extrema dificuldade de adaptar um livro para o cinema, pelo puro fato de que é como colocar um oceano num dedal? Com biografias é ainda mais complicado.

Vidas são longas narrativas, complexas, repletas de nuances, atalhos e contradições, e os 90-120 minutos de um filme exigem clareza, simplicidade, estrutura. Mesmo quando leio uma boa biografia, sempre me vejo com mais perguntas do que respostas, eternamente me perguntando se os fatos são o suficiente para compreender o mistério de uma trajetória pelo planeta Terra. E isso é num livro, com o tempo e a pausa que a leitura proporciona. Como, então, empacotar esse mistério no curto tempo de tela?

Por isso tantas cinebios andam em círculos, reduzem, compactam e, em última análise, distorcem narrativas ricas, complicadas. E lá vem os cinco personagens em um só. E lá vem as frases de efeito. E as montagens… ah, não vou nem falar das montagens…

Eu compreendo que tudo isso é essencial para a compressão da narrativa de uma vida num filme. Eu é que sempre espero uma solução mais elegante.

Existem, por exemplo, as biografias imaginárias. Todd Haynes tornou-se quase um especialista nelas, com Velvet Goldmine (David Bowie + Lou Reed nos anos 1970, à clef) e I’m Not There (Bob Dylan por qualquer outro nome ainda é Bob Dylan). Pode-se argumentar que a Marie Antoinette de Sofia Coppola pode estar nesta lista — a trágica rainha da França como uma adolescente entediada do século 21. E o delicioso Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson é quase a biografia imaginária de um momento da vida de Stefan Zweig.

Aliás, escolher um momento numa vida é uma das melhores soluções para o enigma da biografia na tela. Em vez da compressão, o instante definidor, a escolha que ilumina e define uma trajetória.

A safra 2014-2015 tem alguns bons exemplares desse tipo de opção. O minúsculo Jimi: All Is By My Side, estreia na direção de John Ridley, roteirista premiado de 12 anos de escravidão (que por sua vez é uma excelente adaptação de uma obra literária centrada num momento definidor) consegue o milagre de flagrar o complicadíssimo Jimi Hendrix no momento mais misterioso de sua vida — a transição da obscuridade para a fama, e daí para o mito (e faz tudo isso sem colocar uma única música de Hendrix na trilha, coisa impossível para quem estava trabalhando com um orçamento diminuto).

Outro bom exemplo é Selma, de Ava DuVernay: como o Lincoln de Steven Spielberg , que não tentou comprimir a vasta vida do décimo sexto presidente dos Estados Unidos, e sim expandir o momento em que ele se definiu na batalha pelo fim tanto da escravidão quanto da guerra civil norte-americana. Selma foca no ano de 1965 e em Martin Luther King como um jovem pastor e líder comunitário e sua decisão de enfrentar as estruturas racistas do sul dos Estados Unidos com um simples gesto: caminhar da cidade de Selma até a cidade de Montgomery, no coração do estado mais segregacionista da união, o Alabama, tendo como ponto final o escritório de registro eleitoral, que se recusava a cadastrar eleitores negros. É uma provocação, e ele sabe disso: a provocação que, ele pensa, forçará a mão do presidente Lyndon Johnson na direção de um conjunto de medidas que tornará ilegal qualquer ato de discriminação racial.

É um pedaço de história e um pedaço de vida, mas, tratados com sensibilidade e inteligência, iluminam tantos cantos diferentes, aquelas esquinas onde o pessoal e o histórico se cruzam. Muito, muito melhor que tentar comprimir o oceano de uma vida no dedal de um filme.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling Stone, Bizz, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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